quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

emissões de hipocrisia

A época está eivada de religiosidade e, mesmo os menos atreitos a esta, têm dificuldade em vivê-la sem que tal religiosidade os envolva. Quanto mais não seja apenas por fora, como papel de oferta (que, não só do ponto de vista comercial, diga-se de passagem, também abunda por esta altura…).

Talvez por isso, apesar de simpatizar mais com as de João XXIII, me tenha lembrado de respigar de Bento XVI uma interessante ideia-tese, enunciada na recente cimeira da FAO que decorreu no mês passado em Roma: “É preciso contestar o egoísmo que permite à especulação penetrar mesmo no mercado dos cereais, colocando a comida no mesmo plano que todas as outras mercadorias”. Diria que com esta ideia (em tese pelo menos) o Papa estabeleceu involuntariamente uma aliança objectiva com o pensamento marxista quando este, por seu lado, opina que só no socialismo é possível imaginar a existência da mercadoria tendo como fim imediato a satisfação das necessidades e não a obtenção do lucro. De facto, e sendo possível restringir a aplicação de uma economia socialista apenas à área alimentar, teríamos então o Papa a defender (e da forma mais rigorosa) o seu uso, para acabar com a fome no mundo. Simultaneamente, e por força de razão, porque a economia capitalista/monopolista é de momento global, compulsiva e militarmente dominante no planeta, teríamos o Papa a afirmar, e bem, que este tipo de economia é a responsável directa pelo alastramento da fome no mundo.

Ora, tendo em conta a gravidade relativa dos grandes problemas que afectam os humanos (particularmente a fome) é pelo menos de estranhar porque é que os dirigentes da comunidade internacional se estão empenhando na Dinamarca em sobrepor a todas as outras, as preocupações climáticas… Desconfio que seja porque, afugentando a consciência da gravidade do problema da fome e da miséria, e ao invés de procurar assumir, como dizia o Papa, que “a comida não deve estar no mesmo plano que as outras mercadorias”, os lideres internacionais estarão, sim, mais empenhados em enquadrar os gases com efeito de estufa, onde antes não se enquadravam, isto é, na categoria de mercadoria, em tudo igual às outras (produção de cereais incluída), como potencial geradora de lucros refrescados...

Mas fiquemos por cá onde a instabilidade social cresce, sendo detectáveis casos recentes de fome, miséria e perda de abrigo, ou índices elevados de mortalidade infantil, de marginalidade compulsiva, de desigualdades exclusivas (geradoras do aumento verificado da criminalidade), evidentes como um cúmulo assente em falências, desemprego, salários e trabalho inseguros e incertos (na construção civil ou na hotelaria), ou em endividamentos familiares, incentivados pela banca, mas agora irresolúveis.

Fiquemos pelo garrote à produção; pela criação de um fundo para o leite negada aos Açores pela União Europeia ou pela mais recente decisão da mesma entidade visando restringir a quota do chicharro. Fiquemos também pelos malbaratados dinheiros públicos; pelas doses imensas de vacinas contra a gripe A deitadas ao lixo, depois de pagas a preço de luxo; pela evasão e fraude fiscal, na ordem dos 40% da matéria colectável, e concluamos:

Num sistema, cuja própria crise actual serviu para revelar ao mundo a sua prioritária e desmesurada sustentação num curso contínuo de “dinheiro que corre para o dinheiro”, em que as funções do Estado só se alargam para prover a que a fonte desse curso não seque (enquanto se retraem em todos os outros sentidos mais necessários à satisfação das necessidades humanas), por melhor boa vontade que haja, nem a fome acaba nem há espírito de Natal que resista intocável à hipocrisia dos seus dirigentes que se preparam para daqui a uns dias o vir re-invocar em mensagens televisivas de final de ano…

Mário Abrantes

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

vai tu!

As declarações do Sr. Horácio Roque mostram também a forma desumana como os nossos capitalistas encaram os portugueses: se dão lucro, tudo bem. Senão, rua! Nada de ficarem por aí a gastar o dinheiro do estado em prestações sociais! Ideias ou rumos para superar a crise: zero.

Um país deixa de ser viável quando não consegue garantir aos seus cidadãos o direito de viverem condignamente no seu próprio território. Um banco também, quando tem um presidente deste calibre.

E se sugeríssemos ao senhor Horácio Roque que desse o exemplo e se pusesse rapidamente a andar?

na linha da frente


Entre os 30 países analisados no relatório da OCDE, com maior desemprego que Portugal, só mesmo Irlanda, Eslováquia e Espanha.

Um resultado inevitável da abertura imponderada da nossa economia e das "apostas estratégicas" de abandono dos nossos sectores produtivos tradicionais, em prol de supostas especilizações que nuca chegaram a acontecer. Com uma economia frágil e dependente como a nossa, que outra coisa seria de esperar? Os partidos políticos que nos governaram nos útimos 30 anos têm pesadas responsabilidades históricas para assumir.

Catalunha


Se, por um lado os esmagadores 95% do sim são reveladores, por outro, a abstenção superior a 70% também mostra o distanciamento de muitos cidadãos em relação ao tema.

Numa situação de relativa prosperidade económica, com um estatuto autonómico muito avançado, vendo os seus direitos respeitados e a sua cultura viva e valorizada, muitos catalães devem-se ter interregado sobre que sentido faria abrir velhas feridas e reacender um conflito político de consequências e resultados difíceis de adivinhar. No entanto, fica um sério aviso para os defensores da velha Espanha centralizada. Espanha tem ainda um caminho a percorrer para conviver saudavelmente com a sua própria pluralidade. Um caminho que terá de percorrer, ou desintegrar-se.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ainda se lembram de Portugal?

Muita coisa mudou na Europa com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa.

A data escolhida, 1 de Dezembro, dia da Restauração da Independência é cruelmente irónica. 369 anos depois de termos recuperado a nossa soberania integral, a nova aristocracia euro-histérica e eucrocrata dá vivas à entrega de partes fundamentais da nossa independência a organismos supra-nacionais.

Especialmente perigoso é o tal mito da legitimidade do Parlamento europeu por via da sua eleição directa. Fico preocupado quando ouço Luís Paulo Alves dizer que "de uma maneira geral, o parlamento reflecte melhor o interesse das populações do que o Conselho Europeu" porque, afinal, no Conselho têm assento os governos nacionais eleitos directamente pelos seus cidadãos. No Conselho o governo português tem de defender os interesses de Portugal, enquanto no Parlamento os eurodeputados acabam na maior parte das vezes por ir seguindo o sentido de voto das suas grandes famílias políticas, na qual os portugueses têm, obviamente, um peso marginal.

Portugal é mais do que uma ideia, uma história e um povo. É triste vê-lo a ser vendido desta forma.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

definitivamente, estamos mal servidos

A informação, quando não é isenta, releva (ou não releva) factos e acontecimentos segundo critérios jornalísticos que escapam à deontologia da profissão, visando, sob as vestes da sua simples condição, atingir capciosamente algo mais do que informar. Talvez por isso, sendo notícia aparentemente obrigatória e corrente, a das eleições que se vão passando pelo mundo, poucos terão sido aqueles que, assoberbados a digerir a informação relativa às eleições promovidas pelos golpistas das Honduras, se deram conta das eleições presidenciais ocorridas quase em simultâneo em outro país da América Latina, o Uruguai, bem como daquelas outras que, uma semana depois, atribuíram quase 2/3 dos votos descarregados (63%) a Evo Morales, na Bolívia.

De Evo Morales, defensor declarado do socialismo e o primeiro índio sul-americano a ser eleito Presidente, apenas se guarda, nesta Europa da livre informação, a imagem de um estadista debilitado, com uma forte e influente oposição, num país à beira de um golpe de estado. Os resultados de dia 6 do corrente, por revelarem um “status quo” bem diferente do anteriormente anunciado, constituiriam (julgo eu) informação de relevo, no entanto praticamente passaram despercebidos…

Quanto ao Uruguai, de facto, no passado dia 29 de Novembro, um ex- “Tupamaro” (movimento guerrilheiro dos anos 60), chamado José Pepe Mujica, actualmente com 74 anos e candidato de uma formação de esquerda, a “Frente Ampla”, venceu as presidenciais à 2ª volta.

Para lá de comentar o sussurro quase inaudível que nos chegou deste acontecimento, prefiro salientar, excertos do discurso subsequente do vencedor, na senda, aliás de outro ex-guerrilheiro - Nelson Mandela, após a sua vitória presidencial: “Não há nem vencidos nem vencedores, apenas elegemos um governo que não é dono da verdade, que precisa de todos. Ter votos a mais não significa que sejamos donos da sociedade, muito menos que a nossa verdade seja imaculada. O meu reconhecimento aos outros candidatos, nossos irmãos de sangue, a quem peço desculpa se em algum momento o meu temperamento de combatente fez a minha língua ir longe de mais. A minha saudação a todos os irmãos da América Latina que representam um continente que se tenta unir como pode.” E, apesar da maioria absoluta alcançada pelo seu partido, o novo presidente, mostrou-se totalmente disposto a assinar acordos com a oposição sobre temas como a Educação, Segurança, Energia ou Ambiente, e a partilhar com ela alguns ministérios do novo governo.

Salvaguardadas as devidas distâncias político-geográficas, e tendo em conta a actual situação nacional e regional, ou recordando certos discursos debitados após o nosso ciclo eleitoral recente, algum estimado Leitor esperaria por ventura ver sair da boca de um Cavaco Silva, José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Carlos César ou Berta Cabral, expressões com o mesmo sentido daquelas que atrás referimos? Mas, em minha opinião, é precisamente desse sentido humanista de raiz que o nosso comportamento e acção políticos estão carentes. É de uma outra envergadura político/partidária, não exclusivista, e de um verdadeiro espírito de servir que, sobretudo quando (como actualmente acontece) os tempos são de recessão e de instabilidade social, o País e a Região estão profundamente necessitados.

Definitivamente, estamos mal servidos…
Mário Abrantes

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

200

Ao contrário do Secretário Regional da Saúde, não me congratulo que haja "apenas" 200 casos de pessoas infectadas com SIDA na Região.

Pelo contrário, lamento o estigma, a discriminação, o abandono, a ignorância que se perpetua.

Pelo contrário, lamento o pouco apoio que têm para fazer face a despesas médicas esmagadoras, a situação económica em que são tantas vezes lançados.

Pelo contrário, acho que o Plano Regional de Combate ao VIH/SIDA vem com pelo menos uns dez anos de atraso e que vidas poderiam ter sido salvas se os nossos governos estivessem mais atentos ao problema.

Pelo contrário, prefiro prestar homenagem aos 200 lutadores que, dia a dia, lutam pela vida nos Açores.

Copenhaga pelo contrário

A Cimeira de Copenhaga até poderia ser uma oportunidade, mesmo, nas palavras dos mais catastrofistas, uma última oportunidade. Mas provavelmente não será.

A verdade é que o que se planeia na capital dinamarquesa é mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Os países mais industrializados pretendem manter o conceito de mercado de emissões, que embora estando a funcionar desde 2005, não tem conseguido reduzir o nível global de emissões, bem pelo contrário. Não sou só eu que o digo.

Este mercado, comercialização da destruição do nosso planeta, ao mesmo tempo que oblitera as responsabilidades históricas dos países industrializados, permite-lhes, por um lado, comprar o direito de poluir e, por outro, abrir-lhes as portas do rendoso negócio da transferência de tecnologias não-poluentes. A uns autoriza-se o lucro, a outros proíbe-se o desenvolvimento. As questões estão intimamente interligadas.

Por isso, a Copenhaga de que precisamos não pode ser apenas a demonstração de tíbias boas vontades e o derrame público de bem remuneradas lágrimas de crocodilo. Pelo contrário.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

estratégia zero


Agora o que não é aceitável é termos de ouvir a líder do BE Açores, no debate realizado na 6ª feira à noite na RTP Açores, a discursar sobre as importantíssimas propostas que o BE fez para o Plano de 2009, mas que não se preocupou em repetir para o Plano de 2010. Como se para a pobre inteligência dos açorianos bastasse parecer que se faz alguma coisa, nada fazendo efectivamente. Com esta cortina de fumo comunicacional se tenta ocultar a nulidade política de quem pensa que bastam umas frases sonantes para se ir iludindo o número suficiente de eleitores para garantir um confortável posto parlamentar. Até quando?

Mas, afinal, para o Orçamento, o BE sempre apresentou uma proposta e foi aprovada e tudo! Trata-se de uma regra que permite ao Governo Regional privatizar empresas regionais sem que o tenha de discutir no Parlamento. A proposta do BE foi a de que o Governo só o possa fazer se não se tratar de um sector "estratégico" para os Açores. E quem é que define o que é que é um sector "estratégico"? Esse mesmo Governo! Profundíssima intervenção política, é mesmo o que se chama um fato por medida para a aprovação socialista.

Com este nível de intervenção parlamentar "estratégica", a esquerda nos Açores ainda tem mesmo um longo caminho a percorrer.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

mais longe, mais alto

Os artigos de Cláudia Cardoso no AO surpreendem sempre pela escrita escorreita e agradável, mas sobretudo pela lucidez apaixonada. O artigo de hoje (infelizmente ainda sem link) vai mais longe, mais alto, com palavras que para lá de nos falar, nos tocam fundo, tocam dentro, e fazem as diferenças políticas que me separam de CC parecer verdadeiramente pequenas e vãs. Obrigado.

odeio ter razão



Como escrevi no post anterior, outras empresas da construção civil dos Açores iam começar a passar rapidamente por dificuldades sérias. Só não esperava que a dimensão do problema se tornasse óbvia tão depressa.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

trabalhar nas obras


Numa semana em que soubémos que para além do Hotel das Furnas, há já mais duas empresas que pretendem reduzir a actividade, o DI anuncia que os trabalhadores de uma empresa do sector da construção na Terceira estão sem receber desde Agosto. Agosto!

Supostamente o problema relaciona-se com atrasos de pagamentos de Câmaras Municipais, mas tenho para mim que o fundo do problema é outro: temos nos Açores, como em Portugal, um sector da construção civil sobredimensionado que nasceu na senda quer dos processos de reconstrução após sismos, quer na de um modelo de desenvolvimento económico assente em grandes obras públicas, alimentadas com fundos europeus. Um modelo insustentável que teria, sempre, de resultar nesta situação mal se começasse a fechar a eurotorneira dos milhões.

Esse tempo acabou e agora temos um problema sério. A construção emprega uma parte muito significativa dos trabalhadores açorianos. E emprega-os normalmente mal: precários, sem direitos, com elevadíssimos níveis de sinistralidade, baixos salários, baixíssimas qualificações. As situações de falências e problemas financeiros graves nas empresas de construção vão continuar a suceder-se e vem aí mais uma horda de novos desempregados, a que não sabemos muito bem o que fazer.

Isto é verdadeiramente triste: não temos nada para oferecer àqueles que, com o seu duro trabalho, construiram esta modernidade que damos por garantida e de cujos braços nasceu muito do nosso progresso. Que raio do mundo andamos a criar?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

planear e orçamentar

“O crescimento da produção tem, nas actuais circunstâncias de recessão internacional, maior sustentação potencial em factores internos que própriamente na intensificação do comércio de bens e serviços…”;

“Acelerar o crescimento da produção potencial, é uma condição para reequilibrar a procura…”;

“A prioridade é para o fomento do emprego e o apoio à actividade empresarial…”;

“A promoção da competitividade das empresas e dos territórios, ao nível da agricultura, deve ser executada de forma ambientalmente equilibrada e socialmente estável e atractiva…”;

“Na saúde, prevê-se a consolidação da rede de cuidados continuados e nos transportes terrestres, a implementação de tarifas sociais, prosseguindo-se o objectivo de redução de tarifas em todas as vertentes do sistema de transportes marítimos e aéreos...”.

Linhas soltas, respigadas da proposta de Plano Anual, esta semana em discussão na Assembleia Legislativa da RAA, as quais primam pelo acerto do diagnóstico e de soluções que se impõem para os Açores.Todavia, “esmiuçando-as”, o que se nos depara?

A continuidade do investimento estratégico no comércio de bens e serviços, que persiste como suporte estrutural da economia regional, e o muito forte investimento previsto para a cessação da actividade agrícola (e piscatória), bem como para o resgate leiteiro, que compromete significativamente, a este nível, o potencial de produção, a atractividade e a estabilidade social no sector;

A diminuição acentuada do investimento previsto para o fomento do emprego e qualificação profissional, sem que, nesta área, esteja definida (e testada) uma política específica e sustentada pelo investimento directo da Região (exemplo flagrante: a dotação simbólica para o Plano Regional de Combate ao Trabalho Precário);

A Rede Regional de Cuidados Continuados, que afinal se fica pelo projecto, ou as tarifas sociais nos transportes terrestres, que se apresentam totalmente indefinidas. A mobilidade dos açorianos, em transportes aéreos mais acessíveis, que fica à espera de melhores dias, devendo eles (os açorianos) satisfazerem-se para já com a isenção das taxas aeroportuárias de escala;

O apoio às empresas, que entretanto está sendo muito útil à Banca, enquanto elas (as empresas) vão regionalizando o milagre do lay-off. O micro-crédito e o apoio às empresas artesanais, que se fica pelo símbolo…

Com estes exemplos apenas pretendi dar o meu fraco contributo (subjectivo, claro) para a distinção entre dois conceitos: Planear e Orçamentar! Fica-me apenas a dúvida se a distinção que fiz se trata de uma distinção canónica, ou simplesmente circunstancial…O Leitor dirá!


Mário Abrantes

terça-feira, 24 de novembro de 2009

trabalhar para aquecer


À primeira vista, óptimas notícias, e tinham obrigação de o ser. Só que, afinal, os estudantes vão trabalhar para as empresas "em regime de voluntariado", portanto sem receber um tostão. E, uma vez que o estágio é curricular, nem sequer têm grande escolha sobre serem "voluntários" ou não, nem onde. Para as empresas, um grande negócio: trabalhadores jovens e recém licenciados a custo zero!

O Reitor vai apelando à cooperação das empresas com a Universidade. Já se sabe que se pode sempre contar com essa boa vontade e elevada consciência social dos nossos empresários, desde que lhes traga mais lucros e não lhes custe um tostão. Aos jovens estagiários resta-lhes esperar por melhores tempos enquanto vão trabalhando para aquecer.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"wake up and smell the lay-off"


Primeiro lay-off nos Açores no Hotel das Furnas

Para os que eventualmente pensavam que a moda do lay-off não chegaria às ilhas, é tempo de abrir os olhos. Apesar de ter recebido benefícios e isenções fiscais, bem como incentivos directos, a empresa Asta, proprietária do Furnas Spa Hotel, que ainda nem foi inaugurado, pôs trinta trabalhadores em situação de lay-off.

Nesta situação, os trabalhadores verão o seu salário reduzido em trinta por cento. A partir daqui a empresa apenas paga trinta por cento desse valor, sendo os restantes suportados pela Segurança Social, ou seja, por todos nós. E ainda dizem se queixam os empresários de falta de facilidades!

Não se percebe muito bem como é que um hotel que ainda nem foi inaugurado pode ter uma redução temporária de actividade. Mas verdadeiramente inexplicável é que existam salários em atraso e, apesar disso, dá-se à empresa ainda mais esta benesse de poder por os seus trabalhadores por conta do Estado!

Afinal os apoios do Governo Regional servem para quê?

sábado, 21 de novembro de 2009

informar é isto

Mais um exemplo de grande fotojornalismo do Jornal Público, que tão frequentemente critico, mas a quem mais uma vez tiro o meu chapéu por ter publicado em primeira página esta foto de Nelson Garrido. Tenho a certeza que, nesta nescolha, não terá sido indiferente a opinião do meu bom amigo Sérgio Gomes.

A imagem consegue comunicar de maneira imediata, concreta e irredutível a dimensão do drama humano da situação dos trabalhadores da Rhode. Perante uma imagem como esta é impossível ficar indiferente. Informar é isto.

(já me esquecia de agradecer a foto ao Tempo das Cerejas)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

da tolerância na livre Europa


Agora gerido pela Presidente de extrema-direita, Letizia Moratti, o município de Milão revela bem todos os velhos sinais de intolerância, de vontade de varrer os "indesejáveis" para debaixo do tapete, que eram característicos do fascismo italiano (do qual a Moratti se assume saudosista), bem como do racismo puro e duro, em qualquer parte. As vítimas? São as do costume, as que sempre estiveram mais à mão de semear da xenofobia na Europa Ocidental: os ciganos. Um povo sem pátria e, ao que parece, ainda sem direitos.

Sim, acontece bem no centro da moderna, desenvolvida e democrática Europa. Sim, o assunto o foi esquecido pelas principais redacções dos média europeus. Há aqui uma lição a ser aprendida sobre a forma como os velhos tempos podem voltar depressa.

liberdade de expressão doa a quem doer


O processo em causa foi movido pelo anterior Presidente da ALRAA, Fernando Menezes. Em causa, a utilização da expressão "corrupção oficial" num editorial da autoria deste jornalista. Também por cá ainda há muita gente e muitos polí ticos que não percebem nem respeitam o conteúdo do direito à liberdade de expressão.

É que ela é isso mesmo: Liberdade. E portanto não condicionada. Falamos, então, também de liberdade de erro, de liberdade de falta de gosto, de liberdade de má educação, liberdade de escrever tolices, mesmo. Ainda para mais num artigo que é claramente assumido como sendo de opinião. Fazia-nos falta um Supremo Tribunal como o americano que, no famoso caso Larry Flint, consagrou esta liberdade de maneira muito clara e total. Doa a quem doer. Pessoalmente tenho as minhas opiniões sobre este jornal, mas estas questões não se relativizam.

O actual Presidente da Assembleia deveria retirar a queixa. A continuação deste caso envergonha o Parlamento. Pior: envergonha a Democracia Açoriana.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cândido ou os títulos do jornal Público

Ao ler o título da secção de economia do Público, onde nos afirmam que a "Economia acentua recuperação em Outubro", fiquei aliviado. Ufa! Estamos a ultrapassar a crise, pensei.

Imaginem, então a minha decepção quando ao ler a notícia, que se referia à Síntese Económica de Conjuntura do INE, descubro que a tal recuperação afinal era apenas uma "uma variação negativa menos acentuada do investimento".

Isto é: continuamos a rolar encosta abaixo, embora tenhamos abrandado ligeiramente. Ou seja, nem recuperação, nem acentuada. Com títulos destes se enganam os leitores e assim se vai fazendo o jornalismo optimista militante do Jornal Público. Lamentável!

a peça-chave

“…O empreendedorismo é peça-chave do progresso económico e social…”, em contrapartida, “…o conceito de emprego torna-se cada vez mais obsoleto…”! De um lado a “ousadia e a ambição”, que é necessário incentivar e premiar, do outro as estruturas arcaicas das relações de trabalho, que revelam “conformismo”, e é preciso rejeitar. Expressões e pensamento do Sr. Presidente da República, esta semana noticiados. Expressões e pensamento que nos assolam os ouvidos todas as semanas, vindos de muitas outras fontes, em especial daquelas que pretendem formar opinião e modelar consciências. Portanto, empreendedorismo e ambição, sim! Emprego, não! Lógica arrasadora…

Quem vai então tratar da educação, da saúde, do combate ao crime, da prevenção e combate às dependências, da fome ou dos idosos acamados, dos reformados ou das pensões de sobrevivência, das crianças desprotegidas (Já para não falar dos desempregados, que esses, segundo a tese, deixarão automaticamente de existir assim que acabarem os “empregos”…). Naturalmente, está-se mesmo a ver, vão ser os ambiciosos e ousados empreendedores, acometidos de súbita vontade autónoma de trabalhar para os outros e para o bem comum!!!

Quem vai tratar de acartar pedra, de construir casas, de recolher e tratar do lixo, de tratar das vacas, das matas e dos jardins, de semear e plantar as terras, de cozer o pão, de levar a água, a electricidade ou a televisão por cabo a casa de cada um, de arranjar as ruas e os passeios, de servir os clientes, de fazer as limpezas, de ir buscar o peixe ao mar? Está-se mesmo a ver, os ambiciosos e ousados empreendedores, que se satisfazem com quaisquer 350 euros por mês, acometidos de súbita vontade para praticar desportos radicais!

E assim, apenas subsistirão aqueles “empregos”, que até à data nenhum Presidente da República considerou obsoletos, reservados ao Banco de Portugal, aos Governos ou aos Conselhos de Administração da banca e das grandes empresas públicas e privadas. Com salários e reformas adequados, é claro…

Sim, porque (segundo a Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada - CCIPDL) ter de pagar mais 5% de acréscimo ao salário mínimo a quem ganha em média menos 10% que os seus pares do Continente - os “empregados” açorianos - é um desastre para os ambiciosos e ousados empreendedores que, volto a lembrar, são “peça-chave” do progresso económico e social. É indispensável, portanto, acabar rapidamente com isso, sob risco de vermos totalmente sufocado o tecido empresarial regional.

Mas se, pela boca do próprio Presidente da CCIPDL: “…o que acontece neste momento é que as condições económicas estão degradadas porque a procura agregada está degradada…”, então somos forçados a concluir, pelo absurdo, que se dermos mais uma machadada nos salários, curamos o doente e resolvemos o problema da tal “procura agregada”(?).

Acabe-se com os salários e os empregos, substitua-se cada trabalhador por um ambicioso e ousado empreendedor (a recibo verde, por exemplo), e aqui está a chave para acabar com as condições económicas degradadas (tipo fazer sair o euromilhões a cada um dos apostadores)…

Quanto aos ambiciosos e ousados empreendedores já instalados no mercado, como a hotelaria e a construção civil, o Casino ou o BANIF (herdeiro bastardo da banca regionalizada), agradecem uma ajudinha do orçamento público e, seguindo os bons preceitos geradores do progresso económico e social, dos quais são religiosos adeptos, vão atrasando ou mesmo esquecendo o pagamento dos salários, ou livrando-se dos seus “obsoletos empregados”.

Mário Abrantes

terça-feira, 17 de novembro de 2009

a juventude de Saramago

José Saramago, 87 Anos from Fundação Jose Saramago on Vimeo.



No dia do seu 87º Aniversário, Saramago continua jovem na obra, no espírito e nos seus leitores. Por muito que custe aos Sousa Laras deste mundo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

mar

(foto de Pedro Casquilho)
Todas as manhãs da minha janela vejo o mar. Vejo o mar e sinto, como tantos outros, esse chamamento selvagem, essa água salgada que nos corre nas veias. Vejo o mar, mais do que abismo, mais do que viagem. Vejo o mar-promessa. Vejo o mar donde viémos, mar onde fomos e onde se esconde ainda muito do nosso futuro. Não o Mar Português, mas o Mar-Portugal. País líquido onde infelizmente desleixamos tanto da nossa riqueza. Pátria azul que vendemos, milha a milha, por dez reis de mel coado de benesses europeias. Mar que não conhecemos, não estudamos, não aproveitamos, não protegemos, mas que nunca é esquecido nos discursos de ocasião de tantos dos nosso políticos. Discursos em dias como hoje, Dia Nacional do Mar, em que a auto-satisfação da promessa ou projecto anunciados, tentam apagar a ausência de medidas, de políticas, de visão. Discursos para obliterar as últimas décadas que vivemos, onde a estratégia europeísta destruiu a pesca, desmantelou a construção naval, demoliu a capacidade mercante, virou-nos, estranhamente, de costas para o nosso país azul, deixando-nos de mão estendida na periférica porta da europa longínqua. Todas as manhãs da minha janela vejo o mar e queria ver um mar diferente deste abandono que vejo. Queria ver um mar-recurso, parceiro protegido da nossa riqueza, estrada da nossa ambição, um mar que nos unisse, onde circulassem, acessíveis, os frutos do trabalho da nossa gente. Um mar-tesouro, onde os nossos cientistas, bem apoiados e equipados, estudassem as múltiplas formas da vida donde viémos e onde todos aprendessemos esta nossa dupla natureza sólida-líquida, de termos os pés na terra e o mar nos olhos. Todas as manhãs da minha janela vejo o mar.

é pura autocrítica

O artigo de opinião do Secretário Geral da JSD, Rómulo Ávila, hoje publicado no AO é, como habitual, bem escrito e escorreito, mas revelador do percurso habitual dos jotas dos partidos do centrão.

Porventura contra a intenção do autor, a história que nos conta assenta que nem uma luva não apenas aos que pretende criticar, mas também a muitos membros da sua própria organização.

E é um problema estrutural de PS e PSD: É-lhes absolutamente necessário criticar o adversário, mas a crítica, habitualmente, acaba sempre por denunciar o que eles próprios são: duas faces da mesma moeda, dois modos da mesma política.

sábado, 14 de novembro de 2009

anti-social


O facto de acharem que o seu principal problema é o facto dos trabalhadores que nos Açores recebem o salário mínimo receberem um complemento de 5% (22,5€ actualmente. Que fortuna!) mostra que muitos dos nossos empresários nada aprenderam com esta crise e que continuam como sempre foram: pouco informados, renitentes à mudança e à inovação, eternamente dependentes do subsídio e da obra-pública. Ao que ainda poderíamos somar pouco inteligentes. É que se se reduzir ainda mais o poder de compra dos açorianos, o que é que acham que vai acontecer às empresas? Aliás, a começar pelas pequenas e médias, aquelas que são afinal o suporte das Câmaras do Comércio que os seus dirigentes deveriam defender...

Mas, sobretudo, demonstra a gigantesca insensibilidade e egoísmo anti-social de uma classe protegida que foi sempre habituada à ideia de que sacrifícios são só para os outros. Com capitalistas destes é que de certeza não há caapitalismo que funcione!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

todos amigos

Fumo branco na Câmara de Angra


Como se previa, o fait-divers político na Câmara de Angra depressa ficou resolvido a contento de todos os participantes.

O PSD consegue um lugarzinho nos serviços municipalizados e o CDS outro, na CulturAngra. A salomónica decisão de Andreia Cardoso demonstra bem como estes três partidos, se entendem rapidamente e com facilidade, quando se trata de repartir as benesses do poder. Afinal, o seu único objectivo.

obviamente demita-se


As recentes revelações do jornal Sol, com base nas escutas a Armando Vara, vêm mostrar a face oculta do nosso Primeiro-Ministro. Não apenas as mentiras no Parlamento, mas também os escuros financiamentos da campanha socialista, envolvendo bancos, grupos empresariais e celebridades.

Em qualquer outro país do mundo, o PM já se teria demitido. É que o facto de ter havido legislativas recentemente não lhe devolve as condições políticas que já não tem para o cargo que ocupa. Nem esse cenário obrigaria a novas eleições. Tivesse Sócrates uma gota de dignidade ou coluna vertebral e teria entregue hoje mesmo a demissão. Caso não o faça, a possibilidade de uma moção de censura ao governo impõe-se com toda a justiça.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

e não se pode exterminá-las?

Quebra na produção de queijo dos Açores

Enquanto cai a quantidade do nosso produto de maior especialização e valor acrescentado, aumenta a quantidade de leite embalado e leite em pó (!!!), produtos indiferenciados, para consumo em massa, nos quais pouco importa se a origem é dos Açores, da Polónia ou do Burkina Faso.

Porquê? É a ditadura do comprador e das enormes centrais de compras das grandes superfícies. Seria caso para perguntar, como Karl Valentin, "e não se pode exterminá-las?"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

muros

Celebração da Europa reunificada. 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim. Vá-se lá saber porquê, mas foi uma festa desproporcionada, bem superior e mais internacionalmente emoldurada que aquela outra, já corriqueira (?) e humilde, da celebração do armistício que pôs fim à mais violenta, sangrenta e mortífera guerra suportada pela humanidade (e pela Europa em particular): a 2ª Guerra Mundial...

A festa foi grande e bem publicitada, apesar de comemorar resultados bem mais discutíveis e abstractos, para a Paz e para o futuro da Europa, que os da Grande Guerra. Gente importante mostrou-se aos olhos do Mundo, mas o povo não se lhes juntou nas ruas a comemorar esta outra paz proclamada…

Bem pelo contrário, no mesmo dia do festim da queda dos dominós gigantes em Berlim, uma sondagem (segundo notícia insuspeita de um correspondente da TSF) concluía que os alemães de Leste consideravam a reunificação como um logro, confessando, a esmagadora maioria, que se sentiam bem na antiga Alemanha Democrática e (pasme-se), numa percentagem significativa, até defendiam a reconstrução do muro!

E o correspondente remata sem hesitações: No Leste da Alemanha, grassa hoje o desemprego, os salários são mais baixos e o PIB é apenas 1/3 do registado no lado ocidental do País.

Mas a surpresa maior ainda ficou por vir, tanto para este correspondente português, como para qualquer outro cidadão. Um seu colega, do Jornal o Público, captou da Chanceler alemã, em pleno afã comemorativo dos 20 anos da queda do Muro, um desabafo capaz de fazer gelar o sangue a qualquer maniqueísta, comum a tantos outros que por aí persistem a agitar a maldade do comunismo contra as virtudes do capitalismo: “Nem tudo era preto no branco na antiga RDA”…”Eu era feliz e não tenciono esquecer os 35 anos de vida que ali passei”. Palavras de Ângela Merkel, cuja família se mudou do lado ocidental para a RDA em 1954. Não, não me enganei, caro Leitor. A actual Chanceler alemã não foi mais uma das vítimas do regime que, ambicionando alcançar “o paraíso da liberdade”, saltou desesperada o muro para o lado de cá. Ela mudou para lá, para a boca do lobo, e sentiu-se bem durante 35 anos…

Adquirido que está que o sistema implantado na RDA e noutros países, ditos do socialismo real, apresentava erros estruturais e por isso mesmo fraquejou e sucumbiu às investidas do império ocidental, cheiram-me no entanto a balofas (ideológicas?) estas ganas de sobredimensionar a festa da queda do Muro. Cheira-me a aproveitamento demagógico para ofuscar os erros estruturais de um outro sistema, que alguns até entendem representar o fim da história, mas que se tem revelado padrasto da Paz e da Harmonia entre os Povos e as Nações, padrasto do progresso socialmente justo que merecemos e porfiamos.

Exemplos não faltam e veja-se apenas mais um: Os glorificadores da queda do muro na Europa, como símbolo de reconciliação e reunificação, não hesitaram, entretanto, em promover posteriormente a construção de outros muros tão ou mais insanos e cristalizadores de divisões como aquele. Falo-vos daquele que foi erguido entre Israelitas e Palestinianos, na Faixa de Gaza, e, chamando-lhe fronteira, daquele outro, construído entre o México e os Estados Unidos da América do Norte.

Para lembrar que existem, e para que caiam depressa…

Mário Abrantes

Angola

Em dia de efemérides, não podia deixar de assinalar hoje o 34º aniversário da independência de Angola. A 11 de Novembro de 1975 Portugal perdeu um povo escravizado e ganhou um país irmão de homens livres.

E, a propósito da data, nada mais adequado do que um poema do seu primeiro Presidente, o grande Agostinho Neto:

Havemos de voltar

Havemos de voltar
Às casas, às nossas lavras

às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

Às nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar

Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente

Agostinho Neto

jota

Imperdoavelmente (devo estar a ficar velho...), deixei escapar ontem o 30º Aniversário da JCP.

Aprendi (aprendo), na JCP, coisas tão importantes como a amizade, a entrega, o trabalho, a organização, a camaradagem indefectível e inquebrantável. Encontrei (encontro) gerações de jovens que dão o melhor de si próprios, o melhor da sua juventude a uma causa que é maior do que nós. É neste trabalho de crescer, de aprender e transformar, que nos transformamos e transformamos a vida. Parabéns JCP!

pôr os bancos na ordem (actualizado)

PCP propõe proibição de taxas nos levantamentos Multibanco

De tempos a tempos, lá vêm os responsáveis das instituições bancárias falar sobre a necessidade de cobrar taxas sobre as operações multibanco, para "compensar o custo de um serviço prestado". Muitos média, obedientemente, apresentam aos portugueses como um facto consumado e inevitável.

O nível de dependência dos portugueses do multibanco e o volume das operações tornam muito tentadora a imposição de uma taxa. Falamos afinal de muitos milhares de milhões de euros por ano. Se não a conseguiram aplicar ainda foi porque, afinal, precisam de unanimidade no sector, sob pena dos bancos que a aplicassem verem fugir os seus clientes. Como já por aqui se escreveu, tal só não aconteceu porque o maior banco português é público e não o tem permitido.

Mas é tempo de o estado assumir a importância que a rede multibanco tem para a nossa economia e relembrar que os portugueses são dos europeus que mais pagam pelas suas diversas operações bancárias e que, por fim, com crise ou sem ela, os nossos bancos sempre mantiveram lucros fabulosos.

É tempo de meter os bancos na ordem.

Actualização:
Via Ardemares, fiquei a saber que o PS Açores se prepara para apresentar uma proposta no mesmo sentido para a Região. Esperemos que seja um sinal de coerência política e signifique que, na AR, o PS aprove a proposta do PCP, sob pena de termos um país e um PS com dois pesos e duas medidas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Saramago sobre o desemprego


N'O Caderno de Saramago.

isto é política


PS, PSD e o seu pequeno satélite, o CDS-PP não parecem conseguir entender-se na Câmara de Angra do Heroísmo.

O que é que os divide? O projecto para o Concelho? A visão do futuro da cidade? As prioridades, os investimentos, as obras?

Nada disso! Este quase-incidente político tem apenas a ver com a repartição dos bem remunerados lugares nos conselhos de administração das empresas municipais.

Para estes partidos, política é isto.

construir a casa pelo telhado


Como se previa, o esforço de investimento público feito pelo Governo Regional na aquisição de habitações de pouco ou nada serviu, porque as empresas de construção usaram esses fundos directamente para amortizar dívidas. Portanto, como se esperava, 26 milhões de Euros seguiram directamente do bolso dos contribuintes para os cofres dos bancos, deixando as empresas basicamente na mesma.

Trata-se uma questão de estrutura produtiva. Desde os anos negros do cavaquismo que Portugal criou um sector de construção civil perfeitamente macrocéfalo. O desenvolvimento que tivemos foi de betão, integralmente dependente do investimento público e do financiamento bancário. E continua a ser assim, infelizmente, com o novo Governo a preparar-se para tentar alimentar a economia à base de obras públicas.

A existência de um sector da construção forte e activo seria um belíssimo sintoma de uma economia forte e saudável, se estivesse apoiado num consumo interno dinâmico e numa estrutura produtiva sólida que garantisse efectivamente emprego e rendimentos aos portugueses. Mas a realidade não é assim. Temos um sector sem base económica que o sustente, vivendo apenas do endividamento bancário e do financiamento público.

E enquanto não se alterar este paradigma, enquanto não se introduzirem mudanças muito significativas na estrutura do nosso sector produtivo, estas empresas continuarão a ser insustentáveis. É que, como os trabalhadores da construção bem sabem, não se constroi uma casa pelo telhado.

a banca

O contribuinte pagou pela nacionalização do BPN e vai pagar agora pela respectiva reprivatização, sem que tenha tido uma palavra sobre o assunto. Armando Vara, arguido, quiçá envolvido nalgum braço do polvo “face oculta”, esteve até agora no Millennium BCP. É esta a face de uma banca que o actual sistema político sustenta. Mas há uma face provavelmente mais oculta ou potencial da banca que nos passa despercebida (propositadamente?). Caro leitor sabe por acaso porque razão ainda não é obrigado a pagar uma taxa pelas operações que realiza com o seu cartão multibanco, apesar da cobrança dessa taxa constituir de há muito uma ambição para toda a banca privada portuguesa? Simplesmente porque existe uma instituição pública no sector - a CGD – que não alinha no esquema!

Choramingando, desejosa de cobrar aquilo a que chama um serviço, mas que só a ela traz ganhos, a banca privada vê-se forçada a reconhecer que a eventual cobrança dessa taxa deveria constituir uma decisão de TODA a banca, e que essa decisão teria de ser politicamente aceite. Ou seja, para falar claro: Enquanto uma só instituição bancária forte não alinhar no roubo, o roubo não se poderá concretizar. E como essa instituição ranhosa, além de forte, é pública, então só resta, como último recurso aos ladrões: pressionar o poder político…

Temos assim, e aqui, um exemplo flagrante e directo, embora infelizmente excepcional, de como pode ser vantajoso para o cidadão comum, que exista um sector bancário forte em que o capital esteja maioritariamente nas mãos (e sujeito às regras…) do poder público! E de que este poder, em lugar de capitular diante das pressões do poder económico, se deve (e, com este instrumento, se pode) sobrepor a ele, quando está em causa o interesse público.

Muitos economistas que analisam as causas da actual crise mundial, consideram milagroso o facto de, apesar da queda profunda das exportações e de os seus outros reflexos negativos se fazerem igualmente sentir na China, a economia deste país estar, mesmo assim, a crescer actualmente a uma taxa de 8%. Na tentativa de encontrar explicações para o milagre, alguns desses especialistas ocidentais referem uma característica diferente no sistema chinês: trata-se de um caso em que a maioria da banca é controlada pelo Estado e está a emprestar às pessoas, e aos pequenos negócios produtivos, em tempo recorde e com o mínimo de encargos, enquanto, a Ocidente, apesar das injecções massivas de capital público na banca privada, a crise do crédito aprofunda-se e os jogos financeiros renascem, falseando uma recuperação que ninguém sente…

Pense-se o que se quiser do actual modelo chinês, no caso concreto da banca como instrumento político e público de desenvolvimento e de combate à crise, o seu sucesso relativo está, no entanto, bem à vista, se analisarmos, em comparação, o que se está passando no modelo capitalista neo-liberal vigente a ocidente.

E bem melhor faria Sérgio Ávila se, em lugar de (locubrando), nos iludir sobre o carácter exclusivamente psicológico da crise nos Açores; sobre os montes de liquidez existente nas empresas açorianas, ou sobre o alto poder de compra das pessoas, para anunciar uma coisa sobre a qual o poder político regional pouco ou nenhum controlo actualmente possui, qual seja, a ultrapassagem da crise, nos anunciasse antes medidas suficientes de recomposição do sector bancário na Região com vista à restauração da sua componente pública, como medida efectiva, esta sim, de combate à crise que, por mais psicológica que seja na cabeça deste governante, realmente se mantém instalada e radicada nos Açores.

Mário Abrantes

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

igualdade


Não basta falar sobre a igualdade. É preciso agir para a pôr em prática. Veremos agora o valor das promessas eleitorais do PS.

a coluna que vai à frente

Continuo a seguir diariamente com grande interesse a 1ª Coluna do Diário Insular. Coragem, visão, lucidez e responsabilidade são atributos que ali encontro e que gostava de encontrar mais em mais espaços da nossa imprensa regional.

A Coluna de hoje
recoloca bem e com todas as letras a necessidade do regresso a políticas proteccionistas. Políticas que na prática estão a ser aplicadas por muitos países do mundo, a começar pelos EUA, mesmo que não se fale muito do assunto, para não chocar os dogmáticos do mercado. Mas é tempo de começar a chamar as coisas pelo seu nome.

mente livre



Abriu o Mente Livre, um blog do Carlos Faria, também responsável pelo interessante Geocrusoé. Boas notícias.

Trata-se de um espaço dedicado a discutir questões importantes com um bocadinho mais de profundidade do que é costume.

Um sítio e uma ocasião raros na nossa blogosfera, a não perder.

estágio em trabalhos forçados


PS, PSD e CDS uniram-se para chumbar a proposta do PCP para atribuir alguns direitos aos jovens dos programas estagiar.

Foram direitos tão básicos como faltas justificadas, estatuto de trabalhador estudante, férias (e convém lembrar que estes estágios chegam já a durar 2 anos) e, mesmo, o direito a licença de maternidade e paternidade (Sim. É verdade. Uma estagiária que engravide verá o seu estágio cancelado), que o PS, PSD e CDS reprovaram.

A JS e a JSD ficam mesmo muito mal nesta fotografia. Quanto aos jovens socialistas, contradizem a posição que o Conselho Regional da Juventude assumiu por unanimidade e terão agora de explicar a sua atitude perante este órgão. Quanto à JSD, acabou por contradizer as posições públicas do seu próprio Secretário-Geral, ao em vez de mudanças positivas se contentar com um oco "relatório de avaliação". Os respectivos líderes têm muito que explicar aos seus correligionários

A atitude foi a de quem gosta de usar a juventude para servir de decoração nos comícios, um crachá bonitinho para se usar na lapela, mas que, quando se trata de efectivamente fazer alguma coisa pelos jovens, demonstra ter outras preocupações e outras prioridades. As propostas do PCP acabam muitas vezes por ter este mérito: contra elas unem-se com naturalidade aqueles cujo único objectivo é que tudo fique na mesma.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

embargo ao direito


São já quase duas dezenas de resoluções a condenar a agressão dos EUA contra o estado cubano, a diferença é que, desta vez, foi aprovada com o número recorde de 187 votos a favor e 3 contra (os habituais EUA, Israel e o Palau) e duas abstenções, das Ilhas Marshal e da Micronésia. Vale a pena ler relato da sessão e as declarações de voto dos delegados, e ver a forma como os EUA displicentemente ignoram todas as regras do direito internacional.

Os EUA estão cada vez mais isolados numa posição que Barack Obama parece querer manter, apesar das promessas sobre um novo fôlego nas relações diplomáticas entre os EUA e o resto do mundo. Coerência, exige-se.

uma mão contra quem trabalha (actualizado)


Alguns factos:

- os processos disciplinares que conduziram aos despedimentos dos trabalhadores tiveram por base o facto de, alegadamente, estes não terem cumprido os serviços mínimos.

- A competência para estabelecer quais são os serviços mínimos durante uma greve incumbe só e apenas ao Governo central.

- Apesar de saber isso muito bem, o Secretário Regional da Economia, resolveu dar uma mãozinha à administração da ICTS e estabelecer, ilegalmente, serviços mínimos em que o número de trabalhadores era igual a um dia normal de trabalho. Portanto, pretendendo, objectivamente, anular a greve.

É caso para perguntar: Afinal para quem trabalha e a quem serve o Governo Regional? Actuações destas, independentemente de quem as faz se dizer de esquerda ou de direita, mostram bem qual é a opção preferencial do nosso governo.

Actualização:
Para que se torne clara a forma como estes casos de repressão dos trabalhadores pela via do despedimento, vale a pena ler este post do Ladrões de Bicicletas. E depois acham mal que se exija a revogação do Código do Trabalho? Uma lei destas está muito para lá de reformável.

parabéns, por Toutatis!

Os irredutíveis gauleses que marcaram a nossa infância, adolescência e juventude surgiram pela primeira a 29 de Outubro de 1959, na Revista Pilote.

Fazem, assim, hoje 50 anos e estão de boa saúde, continuando a contar histórias que, mais do que histórias da França, são verdadeiramente histórias do Mundo. E, ao reler os meus velhos álbuns, apercebo-me que Astérix e Obélix têm certamente muito a ver com o meu gosto pela História. Não serei com certeza o único.

Parabéns, por Toutatis!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

um blasted mundo melhor


Os Blasted Mechanism, para além de serem uma das mais inovadoras e interessantes bandas nacionais, demonstram também a forma integral como abordam a sua condição de músicos, artistas, participantes activos e conscientes na mudança social.

É isto que distingue os artistas-comerciais-de-um-sucesso-só de quem pretende, através da sua arte, fazer um mundo melhor.

Os Blasted fazem-no. Uma excelente iniciativa!

era só o Ministro?

Com razão se levantam as vozes críticas que arrasam o ex-ministro da agricultura do Governo da República, responsabilizando-o por uma aliança estabelecida contra-natura com a reforma liberal da PAC, suportada pelos principais países produtores de leite da Europa, com efeito perfeitamente asfixiante sobre a produção leiteira em Portugal e particularmente nos Açores.

Com razão Luís Paulo Alves, deputado europeu eleito pelo PS, afirmou categoricamente que é necessário manter o sistema de quotas leiteiras como condição básica para a subsistência do sector na maior parte dos campos da Europa.

Com razão também Maria do Céu Patrão Neves, deputada europeia eleita pelo PSD, de visita à Região na semana passada, conclamou a necessidade da continuação do mecanismo das quotas, contrapondo-o criticamente à linha liberal e desreguladora actualmente preconizada pela Comissão Europeia.

Com razão ainda, Carlos César esta semana, em nome das RUP, confrontou o Presidente da Comissão Europeia – Durão Barroso com a vantagem para as RUP da preservação das quotas leiteiras.

Digo com razão, porque tais posições sancionam a realidade da importância fundamental, sem alternativa num horizonte de curto e médio prazo, do sector agro-pecuário para a economia regional.

Digo com razão, porque se a política neo-liberal em que assenta a Comissão Europeia não se reflecte como justa para o sector (sectores?) em cerca de 20 países da UE, o que poderá dizer-se então, continuando a falar de justiça, do reflexo dessa política sobre uma região ultraperiférica e limitada (in-competitiva, portanto) como os Açores, mas actualmente responsável por cerca de 30% do abastecimento em leite e derivados para a totalidade de um desses países?

Mas, meus “amigos-agora-unânimes-defensores-da-importância-do-sector-leiteiro-dos-Açores”, por onde andáveis distraídos há uns tempos atrás?Então isto tudo não começou com Ricardo Rodrigues, enquanto Secretário Regional do Governo de César, através do (antes) garrote instrumental das quotas, a defender o fim da depreciativamente apelidada monocultura da vaca em nome de uma revivalista diversificação produtiva turística e pseudo- ambientalista?

Isto tudo não continuou com o alinhamento tácito do Secretário Regional Noé Rodrigues (secundado até por alguns dirigentes associativos do sector) com a Reforma da PAC, congratulando-se com as medidas compensatórias que, APESAR do fim previsível do sistema das quotas, vinham por aí abaixo?

Isto tudo não chegou até aqui porque o Presidente da Comissão Europeia – Durão Barroso e os principais grupos políticos europeus seus apoiantes (que englobam o PS e o PSD portugueses), decidiram o fim das quotas leiteiras, com o consentimento passivo (impotente?) dos seus pares nos Açores, e portanto decidiram (implicitamente) colidir mortalmente com o sector leiteiro da Região?

Afinal, era só o sr. ex-Ministro da Agricultura que andava a “m… fora do penico”?

Pois seja, se estão agora verdadeiramente arrependidos e se tornaram unânimes na defesa da manutenção do sistema das quotas, e se o novo ministro de Sócrates alinhar também, só vejo razões para ter esperança! Já agora e nesse sentido (com tal força e unanimismo por trás) César escusava de ter dito a Durão Barroso aquela conversa mole que se ouviu: “Não sendo possível evitar o fim das quotas leiteiras…”

Mário Abrantes

terça-feira, 27 de outubro de 2009

coisas que não mudam

Trabalhadores dos aeroportos de Ponta Delgada, Horta e Flores despedidos por terem feito greve



Perante um facto destes não resta muita coisa a dizer, senão assinalar que são este tipo de casos que mostram bem qual é a verdadeira dimensão e limites da nossa euro-democracia modernaça. Há coisas que demoram muito tempo a mudar...

heranças e maus começos


Concretizando um sonho antigo da cidade da Horta, formalizou-se finalmente a aquisição do edifício do Banco de Portugal, há muito desactivado, para a instalação de um centro de artes / equipamento cultural.

Por muitas voltas que se tente dar ao texto, a realidade é iniludível: foi necessário ter na Câmara da Horta vereadores da CDU para enfrentarem as velhas e arreigadas resistências e desconfianças do PS e PSD para que este antigo projecto se concretizasse.

A nova Câmara recebe assim uma herança que terá de saber dinamizar. Importa agora dar uso ao edifício e pô-lo ao serviço dos faialenses. Teremos uma vereação capaz de o fazer? É que se Rui Santos é um homem com créditos firmados e obra consolidada na área do desporto, do qual foi Director Regional até ser eleito vereador, a verdade é que na cultura ainda tem tudo para provar. Os faialenses cá estarão para observar e exigir.

Uma nota negativa para o site da Câmara Municipal da Horta: 5 dias depois da tomada de posse ainda não tem disponível informação sobre os vereadores eleitos. Posso perceber que os pelouros ainda não tenham sido distribuídos, mas não percebo que não se publique, pelo menos, a sua identificação. Não basta ter "Confiança no futuro". Também é preciso acção no presente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

referendos e coerências

Francisco Louçã opõe-se à realização de um referendo sobre a legalização dos casamentos homosexuais porque "Isso seria retirar a essas pessoas a possibilidade da escolha sobre si próprias".

Estou de acordo. A sério. acho que matérias fundamentais relacionadas com direitos liberdades e garantias não devem ser referendadas.

Agora, o que lamento é que em relação à interrupção voluntária da gravidez o Bloco não tenha tido a mesma coerência e não se tenha importado com o facto desse referendo poder roubar às mulheres portuguesas o direito de decidir sobre si próprias.

Lamento ainda mais que a coerência do Bloco de Esquerda continue a ser feita apenas com base na tática política imediata e não com base no programa e nos valores de esquerda de que passam a vida a reclamar-se como exclusivos proprietários.

sábado, 24 de outubro de 2009

lucidez em tempos de crise

O artigo de opinião de José Manuel Monteiro da Silva hoje no AO é um brilhante exercício de lucidez e seriedade.

Retenho duas frases importantes:

JMMS não é certamente uma pessoa com quem partilhe a postura ideológica, mas é sempre um prazer dar razão áqueles com quem, em princípio, não concordaríamos. Perante a dimensão da crise que atravessamos, os diagnósticos e as soluções começam a ser claros. E afirmados por muitos da esquerda à direita.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

política à média luz


É positivo que o Presidente do Governo Regional pretenda transmitir um sinal de abertura e cooperação institucional depois de uma campanha eleitoral dura e tensa e a velha tática do charme do jantar à luz de velas tem resultados comprovados pelo tempo.

Agora, o que é de admirar é esta estranha discriminação de convidar apenas os autarcas do PSD, excluindo os do seu próprio partido, com os quais, qual namorado enganador, promete jantar noutra ocasião, em separado.

A abertura institucional é importante, ainda para mais conhecendo o que tem sido a actuação do governo em relação aos municípios de outra cor partidária. Agora, ao separar assim as cores partidárias dos autarcas, o Presidente transformou uma acção institucional numa iniciativa política. E, para essa, não tem qualquer direito de utilizar nem meios nem fundos públicos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

navios em águas paradas


Fica também claro que a grande prioridade do Partido Socialista nunca foi (e talvez ainda não seja) o esclarecimento do assunto, mas evitar que se fizesse muito barulho em torno desta questão antes das eleições. Agora já não há tanto problema, até porque a maioria absoluta na Comissão permitirá certamente abafar as descobertas mais incómodas.

Mas o PS não é, de facto, o único responsável por estas delongas. Vários partidos da oposição resolveram também protelar a criação da comissão de inquérito (que até poderiam ter imposto, desde logo), ao sabor dos seus calendários políticos. Mais uma vez, também para estes, o importante não era (e talvez ainda não seja) esclarecer o assunto, mas sim produzir uns quantos soundbytes de crítica em tempos pré-eleitorais. Essa estratégia, desastradamente conduzida, falhou rotundamente como se previa.

Enquanto os dois maiores partidos do nosso Parlamento Regional continuarem a pôr as suas pequenas maquinações e artimanhas à frente das soluções que os Açores precisam, continuaremos, sem rumo nem decisão, a vogar em águas paradas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

lutar pela liberdade ou perdê-la







Liberdade de imprensa recua em Portugal


No Relatório anual da ONG Reporters Sans Frontieres, Portugal caiu de 16º para 30º lugar, ficando ao nível do Mali e da Costa Rica, no que diz respeito à liberdade de imprensa. Ninguém fica com certeza surpreendido.

Se há enormes culpas dos políticos que ameaçam, das empresas de comunicação social que pressionam e dos cidadãos que se calam, a primeira responsabilidade vai direitinha para os profissionais da informação que não arriscam ou não se preocupam em defender o seu primeiro e mais fundamental direito.

as eleições acabadas, o resultado previsto


Terminado o ciclo eleitoral, durante o qual as confederações patronais mantiveram um estratégico silêncio, ei-las agora com a sua exigência do costume: congelar os salários.

Estes nossos empresários, tão habituados à protecção estatal e à subsídio-dependência, não conseguem perceber que é justamente este modelo económico assente em baixos salários que nos colocou nesta posição fragilizada. Negam a evidência estatística de que Portugal é um dos países da Europa onde o custo do trabalho é dos mais baixos, pela sua lógica, seríamos já um dos mais competitivos.

No que não falam é na falta de investimento de muitas empresas nas especialização tecnológica, preferindo continuar a apostar em produtos e serviços de baixa qualidade e baixo valor acrescentado. E, afinal, é mais barato contratar operários não especializados do que engenheiros. No que não falam é nos baixos níveis de reinvestimento dos lucros que prontamente desviam para actividades financeiras especulativas. No que não falam é na ausência de uma procura interna dinâmica que o maior poder de compra dos trabalhadores poderia trazer.

Na altura em que se assinalam 80 anos sobre a grande depressão, estes nossos capitalistas portugueses demonstram que nada conseguiram aprender. Nem com essa crise, nem com a actual. Perante a sua boçal e mecânica reivindicação o novo governo terá de tomar opções. Opções que serão decisivas para o rumo que queira dar ao país.