quinta-feira, 30 de abril de 2009

por isso é que...

O cidadão comum não pode dizer o que pensa e o que sente. Por maior que seja a sua razão, não se pode afirmar descontente. Pelo menos no local de trabalho não pode. Qual nova pide instalada, há quase sempre, ao seu lado, um “amigo” que (às vezes nem sequer por delatória conveniência, mas antes, e até, por confrangedora boa fé) o aconselha à moderação ou mesmo ao silêncio puro e simples. E infelizmente as pessoas, apreciando-o ou não, precisam que o trabalho lhes providencie o rendimento, e por isso se remetem ao silêncio, se coíbem de emitir opiniões, se esquecem praticamente de que são alguém, num sufoco (egoísta, porque solitário) do seu sofrimento ou revolta. Manter o bico fechado (ou fingir) é estratégia de sobrevivência, e esta, como todos sabem, constitui o principal instinto dos animais, sejam eles racionais ou não.

Em suma, e admitindo ser verdadeiro aquilo que disse, existirá então de facto, nos dias que correm, para além de um grave problema de desemprego, sub-emprego, ou precariedade laboral crescentes, um grave problema com a liberdade de expressão.

Atrevo-me até a dizer, sem grande risco de engano, que um problema influencia o outro e vice-versa. Quanto mais desemprego e menos trabalho seguro e digno, menos liberdade.

Por isso é que, em geral por motivos de ordem laboral, há descontentes e revoltados que acompanham com fé, no dia 25 de Abril (em acto provocatório), a inauguração de uma praça com o nome de António de Oliveira Salazar ou, em concursos televisivos (pouco inocentes), elegem o ditador como maior português de sempre. Simplesmente perderam, em conjunto com o emprego ou outros direitos sociais e laborais, a capacidade individual de serem livres...

Por isso é que é importante lembrar o 25 de Abril. Os que penaram. Os que morreram. Os que foram torturados. Para que, no país onde o 25 de Abril se deu, ninguém se atreva a desejar, na sua secreta esperança, que algum dia se voltarão a viver as mesmas aberrações.

Por isso é importante confirmar, em vésperas de 1º de Maio, que os trabalhadores não se libertam da ameaça do desemprego, e da perda de condições de trabalho, silenciando a sua voz e o seu descontentamento ou refugiando-se na esperança de que, para salvar o seu próprio destino, chegará de novo o homem forte e omnipotente para impor a lei e a ordem. Essa lei e essa ordem não são hoje, não foram ontem, nem serão amanhã, as suas. E o silêncio, esse, será sempre o penhor da sua liberdade.

Foi exactamente no dia 1º de Maio de 1974, 5 dias depois da revolta militar vitoriosa, que uma impressionante manifestação juntou de mãos dadas em Lisboa, cerca de um milhão de pessoas, para assinar com o país renascido um novo contrato social. Para além do fim da guerra colonial, as reivindicações expressas na manifestação, como o salário mínimo, as reformas e a segurança social, as férias, a igualdade e a segurança no trabalho, a regulamentação dos seus horários, a liberdade sindical, o subsídio de desemprego, o direito à saúde e à educação, de imediato passaram à lei, e à prática. Em liberdade e unidade, de viva voz se ouviram as grandes reclamações populares, o país emergiu das catacumbas, assinou o contrato, e andou para a frente.
É entretanto à quebra progressiva deste contrato aquilo que estamos hoje assistindo, por imposição de uma lei e uma ordem que, novamente nos são estranhas, e por isso o país anda para trás e somos hoje menos livres.
Mario Abrantes



[Inaugura-se hoje e aqui uma mais que benvinda colaboração regular do Mário Abrantes, que muito enriquece a Política. Benvindo, Mário!]

2 comentários:

Miguel J. disse...

Que belo texto, gostei de ler. Um abraço

Legoman disse...

O que vc escreve, serve perfeitamente para guardar nos arquivos e postar por ocasião dos festejos do 25 de abril que se seguem. Pouparia muita tinta de tolices que se escrevem por esta altura.
Muito bem escrito, mto bem sintetizado, Parabéns!