sábado, 16 de maio de 2009

democracia digital

Sem querer discutir quais foram os reais impactos da pressão exercida pelos blogues na discussão da questão da sorte de varas, penso que se lançou uma discussão muito interessante nalguma blogosfera açoriana sobre os papel dos blogues na participação democrática.

(alguns exemplos: no Açores SA, no Máquina de Lavar, no In Concreto ou no Fiat Lux)

É uma discussão que não é nova, que é realizada em muitos sítios e países, mas acho especialmente interessante que nos Açores a façamos não por importação, mas baseando-nos na nossa própria experiência de participação, que teve, pelo menos dois momentos altos nas mobilizações sobre a Fajã do Calhau e sobre a Sorte de Varas.

A discussão política na blogosfera tem vários pontos muito positivos. Como já por aí escrevi numa caixa de comentários, o facto de não conhecermos o autor, nem o seu contexto, em muitos casos, obriga-nos a pensar apenas nas ideias que defende, sem que os preconceitos que possamos ter sobre os seus posicionamentos e opções nos condicione. Como tal, pode corresponder a uma dose maior de racionalidade e, eventualmente, respeito mútuo.

Por outro lado, tende a nivelar os participantes. Aqui, somos de facto todos iguais. Não há autoridades reconhecidas, nem doutores, nem engenheiros e, uma vez mais, valemos apenas pela força das nossas opiniões. Por outro lado, ao divulgarmos a nossa opinião estamos a expor-nos à crítica, a abrir-nos ao debate.

Mas a questão central é a de recolocar a opinião individual do cidadão no centro do debate político. Porque, por trás do acto de criar ou frequentar um blog está o reconhecimento implícito de que todos têm direito a ter uma opinião e todas as opiniões são igualmente válidas. Há uma valorização da nossa própria opinião, que pensamos que merece ser ouvida. Isto é algo a que os partidos políticos, pela sua natureza colectiva e pela sua estrutura hierárquica têm dificuldade de se adaptar, mas que não podem definitivamente ignorar.

Agora, um dos grandes problemas, que provavelmente contradiz tudo o que atrás escrevi, é que a maior parte das pessoas não participa neste medium. A verdade é que os bloggers são apenas uma pequena parte da sociedade. E não podemos confundir a sua opinião com a opinião pública, no sentido clássico do termo.

E esta tem de ser a prioridade: pôr mais gente a aceder, pôr mais gente a participar. Para que a nova democracia digital de que estamos, objectivamente, a construir nunca se transforme numa oligarquia digital.

5 comentários:

geocrusoe disse...

Por vezes a blogosfera faz-me lembrar aquele espaço de liberdade que existe em Fahrenheit 451, onde cada um podeia ser um livro vivo. lá, como cá, também existem os que ameaçam este espaço, aqui sob a forma de comentadores anónimos do tipo troll e os espias do que se escreve... mas não há dúvida que mesmo com ideias divergentes, fazemos uma comunidade muito singular.

Anónimo disse...

E ja agora yambem este blog.

http://arkipelago.blogspot.com

Anónimo disse...

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009
a favor das convicções

O debate que se gerou em torno da sorte de varas serviu para mostrar que a democracia está doente. A intolerância, a demagogia e o insulto imperaram. Aquilo que é um dos valores fundamentais do nosso sistema democrático – o respeito pela opinião dos outros, concordemos ou não com ela – caiu por terra.

É triste e perigoso condenarem-se pessoas e retratá-las como criminosas só porque defendem uma prática cultural que não é do agrado de todos.

É triste e perigoso não tentar compreender os argumentos do próximo adoptando posturas fundamentalistas de negação daquilo que, muitas vezes por simples oportunismo mediático, não se conhece.

É triste e perigoso utilizar-se o argumento de que as maiorias é que sabem e que têm razão. Com este argumento, o mundo pára e as minorias terão que reduzir-se à sua expressão numérica, insignificante. Este é o caminho para o totalitarismo.

É triste e perigoso utilizar-se a pressão partidária sobre os eleitos do povo como forma de não comprometimento na ânsia do politicamente correcto e sempre no encalço do voto e na tentativa de perpetuar o poder pelo poder.

Sou a favor da sorte de varas.

Era mais fácil dizer o contrário. Era mais bonito e popular. Mais politicamente correcto e mais ao agrado de muita da opinião pública.

Sou do PSD. Dirigente, até.

Também era mais fácil dizer o contrário. Ficar do lado do poder. Ou nem emitir opinião para poder ficar bem com Deus e com o diabo.

Sou Católico.

Também seria mais “cool” dizer que não o era, mesmo que o fosse. Não é bem as pessoas “modernas” terem religião. Fica melhor na fotografia.

Sou contra o aborto.

Também poderia ter ficado calado. Mais um daqueles assuntos que não é bem um cidadão do século XXI ser contra.

Mas, acima de tudo, defendo aquilo em que acredito. Aquilo em que estou convicto ser o caminho certo para o desenvolvimento humano e da sociedade em que vivo. Sou pelas convicções e pela consciência individual. Sou contra a pressão psicológica, a intolerância e a manipulação.

Sou eu próprio e não aquilo que querem que eu seja ou pense.

Por isso, respeitando todos aqueles que têm opinião contrária à minha, quero dizer que não me revejo nas imagens apresentadas, nem nos comentários feitos relativamente a todos quantos defendem a sorte de varas.

Aquilo que poderia e deveria ter sido um debate sério e construtivo, transformou-se num triste exercício de retórica intolerante e de baixo nível argumentativo.

Por tudo isto, e passado isto, mobilizemo-nos com o mesmo empenho por outras causas. Sem medos, sem receios e, acima de tudo, sem oportunismos. Os Açores ficarão certamente melhores.

Publicado por Paulo Ribeiro
http://arkipelago.blogspot.com

Tiago R. disse...

Isso é que é auto-vitimização! Mas não convence...

Não convence porque a esmagadora maioria dos que se opuseram à sorte de varas não o fizeram a partir de nenhuma postura de superiorida, nem recorrendo ao insulto ou à intolerância.

Houve pequenos sectores radicais que o fizeram? Sim. Mas não foram esses os decisivos.

A ilha dentro de mim disse...

Concordo com as suas prioridades. Não serve de nada sermos cidadãos se não exercermos a nossa cidadania. E a cidadania constrói-se discutindo ideias e intervindo no nosso raio de acção.

A blogosfera é apenas uma amostra da vida real. Tal como o Parlamento é uma amostra dos cidadãos. Mas, mesmo à distância, pareceu-me que o debate na ALRA esteve mais baixo do que o do debate na blogosfera...

De qualquer forma, tirar os prós e os contras da experiência é a melhor forma de contribuir para o futuro da região e, portanto, de todos os açorianos.

Saudações do Tejo,
LB