quarta-feira, 20 de maio de 2009

eles

Se um desempregado inscrito no fundo de desemprego, na semana das Festas do Senhor Santo Cristo e na anterior, não provou à Segurança Social que procurou emprego activamente, ou melhor, mesmo que o tenha feito, ou mesmo que tenha arranjado um gareto na instalação das luzes no Campo de S. Francisco, deixou de se apresentar na Segurança Social e de comprovar perante ela que continua desempregado, cessa de contar oficialmente para o número de desempregados, e a estatística de imediato dá conta disso mesmo, afirmando que o número de desempregados diminuiu (só este ano, além do número crescente dos apresentados, já há mais de 115 000 desempregados “desaparecidos” em todo o país...)

São assim as contas do nosso desemprego oficial. Mas as contas do nosso desempregado que começa a desesperar de procurar e por isso desiste de correr à procura do nada durante uns tempos, ou que, depois de muito procurar, apenas consegue garetos momentâneos aqui ou ali, são outras…bem diferentes dos números oficiais.

Somemos a estes os que têm trabalho precário ou a tempo parcial, os que vão à pesca, os que se vêem obrigados a vender a lavoura por tuta e meia, os que fecham a loja porque de um dia para o outro lhes nasceu um casino e um novo centro comercial ao lado, ou os que, concluída a obra, não sabem quando é que a firma para quem trabalham contratará uma nova (ou sequer se continuará a existir), e digam-me lá se convencem algum Deles a votar nas eleições para o Parlamento Europeu do próximo mês?

E por mais que as actuais orientações de política económica e social da União Europeia sejam, embora imperceptivelmente, as responsáveis pelo estado de degradação a que se chegou nessas áreas, qual Deles tem tempo, fé ou disposição para acreditar que vale a pena votar neste ou naquele partido para o Parlamento Europeu, estrutura esta que, além do mais, pouco se tem afirmado perante as pessoas (e na realidade) como agente efectivo na (re)orientação útil de políticas comunitárias?

Lá por ser um centralista (como os há também no PSD) que foi inscrito no Partido Comunista, o Dr. Mota Amaral escusava de ter mencionado preconceituosamente esta ex-condição partidária de Vital Moreira, pois no país, como o Sr. Dr. muito bem sabe, há muitos bons comunistas, como por exemplo Ilda Figueiredo, que não são centralistas. Mas será por Eles ouvirem o Dr. Mota Amaral, recomendar que nenhum açoriano deve votar no PS do centralista Vital Moreira, que Eles decidem afinal ir todos a correr votar no PSD?

Será por ouvirem dizer, como fez o 1º candidato do BE em visita à Região, que é necessário acabar com as vacas, que Eles vão mudar de opinião e tomar a iniciativa de votar BE?

Será por terem ouvido o Primeiro-Ministro a trocar tintas e renegar a consulta em referendo ao povo português sobre o Tratado de Lisboa, que Eles vão deitar para trás das costas os seus graves problemas e lembrar-se de ir votar PS?

Se a intenção de votar, da parte Deles, já não era muita, certamente que, com tais incentivos, vindos da boca e das acções de tão proeminentes responsáveis partidários, será quase nenhuma…

Dos ditos proeminentes, virão depois as lágrimas (de crocodilo) a propósito das abstenções, que Eles (os abstencionistas) apenas de relance eventualmente verão jorrar, enquanto mudam de canal televisivo…
Mário Abrantes

3 comentários:

Pedro Ferreira disse...

Errado!

Está a fazer confusão entre dois conceitos distintos de desemprego. Os números oficiais do desemprego são os publicados pelo INE e nada têm que ver com o registo nos Centros de Emprego.

Quanto a ter arranjado um "gareto" e contar como empregado, é verdade. E é verdade nos Açores, é verdade no País, é verdade em qualquer outro país da UE, e é verdade numa série de outros países fora da UE, como os EUA ou o Japão. E é por ser verdade em todos estes países que é possível comparar níveis de desemprego em diversas regiões ou países.

No fundo, a taxa de desemprego tenta quantificar a mão-de-obra que não está a ser usada apenas devido à ineficiência dos mercados de trabalho. É portanto uma medida de ineficiência nos mercados de trabalho.

O conceito de "desempregado", é usado por todos os países que mencionei em sentido estrito. Segundo este conceito, desempregado não é apenas quem não trabalha. É quem, simultaneamente, não trabalha no momento actual, está ACTIVAMENTE à procura de trabalho e está disponível para começar a trabalhar imediatamente.

Mas há outras medidas de ineficiência nos mercados de trabalho, isto é, recursos de mão-de-obra que não estão a ser usados de forma eficiente. As mais usuais, e que são publicadas pelo INE, é o "subemprego" (pessoas que trabalham menos que uma jornada usual de trabalho de forma involuntária e que estariam dispostas a trabalhar mais tempo) e os "desencorajdos" (pessoas que não estão activamente à procura de trabalho por desmotivação ou por acharem que não conseguem obter trabalho).

Se quiser entrar em linha de conta com estes factores adicionais de ineficiência, basta procurar as estatísticas respectivas no INE.

Terá é de ter algum cuidado com o subemprego. Como é considerado subemprego alguém que trabalha involuntariamente apenas 90% do tempo ou apenas 10% do tempo, terá de ter em conta o primeiro conta apenas com 1 décimo de desempregado (10 pessoas nestas condições prefazem 1 desempregado) e no segundo caso, a pessoa conta como 90% de um desempregado (10 pessoas nesta condição prefazem 9 desempregados).

O trabalho precário em nada afecta os números do desemprego. Apenas aumenta a probabilidade de achar uma pessoa que, quando entrevistada, está a transitar de um emprego para outro.

Por exemplo, comete um erro quando diz "somemos o trabalho a tempo parcial". Isto é errado, pois pode haver muita gente que trabalha apenas a tempo parcial porque quer. Na Holanda, 75% das mulheres trabalham a tempo parcial e a maioria delas porque querem (e porque podem) dedicar tempo aos filhos. Neste caso, não há nenhuma ineficiência no mercado de trabalho, pois a força de trabalho está a ser (quase) totalmente aproveitada.

Esta é a forma correcta de falar de desemprego: interpretar os números com atenção e não misturar as coisas.

Tiago R. disse...

Já tinha ouvido falar de falácias, mas isto aproxima-se do cúmulo: "os números do INE nada têm a ver com os desempregados inscritos no centro de emprego??? Só pode estar a brincar.

Mas, para lá do blá-blá estatístico, a questão de fundo é que 99,9% das pessoas prefeririam estar a trabalhar a tempo inteiro, se pudessem.

E esse direito ao trabalho, à realização pessoal, à retribuição e a uma vida digna, este sistema social já provou que não consegue garantir a todos os cidadãos. E por isso é que é um sistema social falhado.

Pedro Ferreira disse...

Tiago R.,

"os números do INE nada têm a ver com os desempregados inscritos no centro de emprego??? Só pode estar a brincar."Não. Não estou a brincar. Os números do INE nada têm a ver com os desempregados inscritos.

Se alguém no IEFP decidisse dividir o número de registados por dois ou por 20, o impacto que isso teria nas "estatísticas oficiais" do desemprego seria zero. Mais: o impacto que isso teria nas estimativas mensais feitas pelo Eurostat para Portugal, onde se cruza os dados oficiais do desemprego com o número de registados, seria zero ou teria impactos mínimos mas completamente imprevisíveis (tanto podia aumentar 0.1 como diminuir, sem ser possível prever à priori qual a direcção desse impacto). E mesmo havendo algum impacto, ao fim de três meses as estimativas anteriores seriam (tal como são) revistas para os valores correctos.

Posso descrever-lhe de forma detalhada, se quiser, as metodologias usadas num caso e noutro. Mas em resumo, o INE vai a casa das pessoas averiguar a sua situação perante o mercado de trabalho enquanto que o IEFP aproveita os registos das pessoas que vão aos centros de emprego. Há desempregados que não estão registados, assim como à empregados que estão registados como desempregados. Os conceitos são diferentes, a forma de medir é diferente.

(Só por aqui dá para ver que, caso o Tiago fosse entrevistado sobre a sua situação perante o trabalho, diria o seu estado, independentemente de alguém dentro do IEFP ter dividido o número de registados por 2 ou por 20)

O caso dos Açores dava até um case study. Se se der ao trabalho de comparar os valores do INE e do IEFP ao longo do tempo, vai verificar que a correlação entre as duas séries é não significativa mas negativa: há uma tendência, se bem que é uma tendência não significativa, de, quanto maior é o número do INE, menor é o número do IEFP. Isto prova aquilo que estou a dizer: as duas formas de medir o desemprego são não comparáveis, sendo as oficiais, as do INE.

Eu não estou a emitir uma opinião, estou a relatar um facto.

Quanto ao "blá-blá estatístico", é fundamental entendê-lo minimamente para não se estar a falar de cor. Como é que sabe que 99,9% das pessoas que trabalham a tempo parcial o fazem de forma involuntária? Eu acho que é uma grande percentagem, mas qualquer número que eu disser será um mero palpite. Assim como o seu número é um mero palpite.

"E esse direito ao trabalho, à realização pessoal, à retribuição e a uma vida digna, este sistema social já provou que não consegue garantir a todos os cidadãos. E por isso é que é um sistema social falhado."E o que é que isto tem que ver com o meu comentário? O que é que esta sua frase melhora aquilo que disse de errado (assumir que o número de desempregados registados são estatísticas oficiais)?

Para além de (tentar) clarificar o que são efectivamente as estátisticas oficiais e porque é que são assim e não de outra forma, até lhe dei uma pista sobre como complementar a informação sobre o desemprego em sentido estrito com outros tipos de ineficiências no mercado de trabalho.

O meu comentário é apenas técnico. Há muito mal entendido quanto às estatísticas do emprego o que cria um terreno fértil para opinar a torto e a direito. Provavelmente, porque não querem entender ou ouvir o "blá-blá estatístico"

PS: Peço também que repare que eu não estou a fazer juízo de valor algum sobre os níveis de desemprego (se são altos ou baixos) e muito menos estou a dizer que o trabalho não é um direito ou que o o sistema social que temos é bom ou mau.