quinta-feira, 21 de maio de 2009

escravos da humanidade

"É usual esgrimir-se que só pode ser “do contra”quem não percebe a mística da Sorte de Varas e de todo o cerimonial envolvido. Como se para avaliar o bem do mal ou o mau do bom, fosse necessário ter certificado. Este solipsismo que exorta a ignorância alheia, refugiando-se na fidelidade a uma expressão performativa, artística, esquece que a fidelidade ao absurdo representa apenas outro absurdo. Admita-se que o acto de picar, de sangrar ferozmente o touro numa praça, possa ter uma sustentação artística, do mesmo modo que uma instalação plástica que expõe um cão faminto aos visitantes, com um aviso para o não alimentar. Em qualquer caso não estamos perante sofrimento retratado ou simulado, mas tormento vivo, vivido e a três dimensões, no momento em que o homem tira “férias em sê-lo” para em acto contínuo recostar-se no sofá, condenar a violência no mundo e clamar contra imoralidade dos jovens de hoje. Se uns classificam isto de arte, eu, pobre ignorante, dou dois nomes: no máximo, voyeurismo sádico; no mínimo, hipocrisia velada."
Não planeava retomar aqui o tema das touradas picadas, mas o texto de Paulo Jorge Gomes, publicado hoje no diário Insular é demasiado brilhante para ser ignorado.

Uma reflexão profunda, a recordar nos futuros debates sobre esta matéria.

1 comentário:

Tibério Dinis disse...

Li o texto no DI, está verdadeiramente brilhante.
Também não está nos planos voltar ao tema, mas face a algumas reacções do sim, tenho sido muito tentado a escrever qualquer coizita.

Bom post, Haja Saúde