quarta-feira, 13 de maio de 2009

a incongruência, a gripe e outros agressores

Fugido de um laboratório norte-americano (provavelmente militar) o virus foi ao México e regressou a casa começando a vitimizar os seus próprios produtores. “A gripe suína já matou 53 pessoas no mundo”. Com este “já”, na notícia, está-se a contribuir para o pânico, universalmente lançado há cerca de um mês, o qual, por sua vez, fomenta a compra de vacinas aos milhões, num negócio altamente rentável para quem a produz (provavelmente também na América do Norte). Mas se dissesse: “Apesar do pânico lançado e do empolamento do perigo da gripe suína, esta, até agora, apenas provocou 53 mortes no mundo, enquanto a gripe comum já provocou, só este ano, mais de 1 500.” Esta outra notícia colocaria o problema de uma forma mais objectiva. No entanto, de entre as duas, como sabem, a escolha caiu sobre a mais incongruente...

Há outras notícias onde a incongruência, felizmente não colheria. Imaginemos esta: “O agredido matou a agressora na cama, com um martelo de pedreiro!”. Claramente o sucedido nesta semana foi antes o anúncio do julgamento de “um agressor que, com um martelo de pedreiro provocou a morte da agredida, enquanto esta se encontrava na cama”.

Todavia, quanto a agressões (particularmente militares), a congruência entre agredido e agressor, ao contrário do que aconteceu no caso anterior, nem sempre é facilmente detectável. Tal como foi noticiado: “Os terroristas do Hamas atacaram Israel com roquets, e os soldados israelitas, em legítima defesa, viram-se obrigados a entrar em território palestiniano para eliminar os atacantes”. Ou, como não foi noticiado: “Para se defenderem do cerco e do bloqueio israelita, os guerrilheiros palestinianos, a partir do seu reduto recorreram ao disparo de roquets artesanais contra Israel e estes, aproveitando-se do facto, invadiram toda a faixa de Gaza, ocupando-a militarmente, destruindo escolas e hospitais, e chacinando as populações.” Já a frio, um relatório independente feito por um grupo de peritos internacionais, esta semana divulgado, conclui que do lado palestiniano foram mortas 1400 pessoas, das quais 300 eram crianças e 100 eram mulheres, e do lado israelita morreram 4 civis. Este relatório conclui ainda que, além de crimes de guerra cometidos por ambas as partes, os israelitas cometeram crimes contra a humanidade e são suspeitos de crime de genocídio. Então em que ficamos? Quem é o agressor e o agredido? O criminoso e a vítima? Qual a notícia mais objectiva? E qual a mais incongruente? A que foi dada, ou a que não foi dada?

O Iraque é de momento a ilustração mais profunda e dramática das consequências da notícia incongruente e tendenciosa. Em nome duma mentira (que transformou convenientemente o agressor em agredido) um povo inteiro sofre o destino quotidiano da morte, da guerra e da fome, e os seus agressores mandados para o terreno (os jovens soldados norte-americanos), totalmente desorientados e sem convicções sustentáveis, acabam a matar-se uns aos outros, conforme notícia (bem objectiva…) de segunda-feira passada. Da incongruência inicial da notícia, passámos para a incongruência terrível da realidade.

Pelo país, em versão menos mortífera (felizmente), também se vão confundindo agredidos e agressores. Aproveitando a boleia do candidato socialista às europeias ter sido mimado no 1º de Maio, por vítimas da política do seu governo, com apupos e empurrões, vem agora outro agredido queixar-se, em entrevista ao Jornal de Notícias: “Também eu tenho sido vítima do PCP…” (José Sócrates)

Mário Abrantes

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