quarta-feira, 6 de maio de 2009

o 3º deputado pr'áqui e pr'áli...

Em fim de legislatura europeia, e em desabono do amor do jornalismo regional pela verdade (toda), lamento ter de ser eu, que sou suspeito (e por isso mesmo, a verdade dita por mim nunca será tão verdadeira…nem tão bem descrita), a dizer o que faltou dizer…Porque, verdade verdadinha, a verdade existe de facto, para além da vontade de cada um.

O meu caro leitor lê, ouve e vê provavelmente também a imprensa regional, as rádios regionais ou a RTP/Açores. Tem por isso a memória recente repisada pelo slogan de os Açores “terem” Paulo Casaca como o 3º melhor deputado português no Parlamento Europeu, e ainda o deputado Duarte Freitas, entre os que aí mais trabalharam. Efectivamente a sua quantidade de trabalho, entre os pares portugueses, foi boa, mas, na sequência da notícia repisada, terá por certo ocorrido ao leitor ficar com uma pergunta (sem resposta) na cabeça: E o 1º e o 2º, quem foram? Após a publicação, na imprensa nacional, de uma estatística oficial, que certamente os nossos editorialistas também leram tão bem quanto eu (até porque só assim descobriram o 3º), desvendo-lhe o mistério: Foram, no cômputo geral das perguntas, intervenções e relatórios, os deputados Ilda Figueiredo e Pedro Guerreiro…(os únicos deputados que a CDU elegeu para o PE).

Bom! Mas, em defesa do jornalismo regional, ocorre então perguntar o que interessa isso para a Região, já que esses dois não são representantes dos Açores no PE, enquanto os deputados Paulo Casaca e Duarte Freitas são?

Infelizmente, como se viu pelo “pontapé” que ambos levaram das suas direcções nacionais (contra a vontade dos líderes regionais do PS e PSD), tal pressuposto baseia-se essencialmente em engenharia retórica, já que, verdade verdadinha, como o círculo eleitoral para o PE é único e nacional, as listas candidatas de cada partido são também únicas e nacionais, e formalmente não existem portanto aí candidatos específicos eleitos pelos Açores. Ou, dito de outro modo, todos os deputados portugueses têm, por igual, o dever de defender no PE os interesses dos Açores, como parte integrante que é do país pelo qual são eleitos.

Assim sendo, a figura essencialmente retórica do dito “deputado dos Açores” no PE, por melhor que defenda a Região, não está livre de, por motivos alheios à sua vontade, se ver excluída das listas de candidatos dos seus partidos, além de que, como se verificou claramente no caso da perda de soberania da nossa Zona Económica Exclusiva, essa figura tem servido quase sempre de pretexto para desvincular os colegas de partido da defesa solidária dos Açores, porção territorial do país que afinal só ela representa no PE.

Por dizer, falta ainda algo. E quanto ao trabalho directamente relacionado com os Açores? Na ausência de uma tal figura retórica entre os deputados eleitos pela CDU no PE, o que se verificou foi, para além de um empate em perguntas, que a Região pôde afinal contar, quanto a Relatórios, Pareceres e Resoluções (de acordo com o insuspeito arquivo das sessões), com mais do dobro do trabalho apresentado por estes deputados (ditos sem interesse para a Região…) do que a soma do trabalho para o mesmo fim apresentado pelos dois denominados “deputados dos Açores”. E não consta que mais nenhum dos seus colegas de bancada do PS ou PSD, tenha, para além deles, tido a veleidade de querer intervir sobre os Açores para coisa alguma.

Factos são factos. Só aqui falei de quantidades de trabalho (mensuráveis estatisticamente) porque o jornalismo regional a isso me obrigou. Mas que me apetecia mais falar de qualidade, lá isso apetecia...
Mário Abrantes

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