quinta-feira, 21 de maio de 2009

organicamente portugueses

(foto de Leonardo Braga Pinheiro - www.olhares.com)

A propósito do debate sobre o movimento independentista nos Açores, e sem querer entrar na discussão das suas peripécias e vicissitudes - discussão para a qual não me sinto minimamente habilitado e sobre a qual, tal como acontece com as gerações de açorianos mais jovens, quase nada sei - quero partilhar algumas reflexões.

Parece iniludível que o eventual apoio internacional à independência açoriana, nos idos de 75, foi sempre muito maior do que o seu verdadeiro apoio popular, que não só foi sempre inconstante e dividido, como volátil.

E penso que a razão disso reside no facto de, no mais profundo do nosso inconsciente colectivo, nós açorianos sermos organicamente portugueses. No facto de não se entender a portugalidade sem a açorianidade. O difícil processo de adaptação e sobrevivência nas duríssimas condições das nossas ilhas trouxeram ao de cima muito do melhor - mas provavelmente também do pior - das características distintivas dos portugueses.

Entre essas características avultam a adaptabilidade e o sentido imediato da sobrevivência. Depressa a necessidade da subsistência ensinou o agricultor a ir ao mar, o pescador a plantar a sua horta, a passar do pastel, ao trigo, à laranja, ao leite, à carne, à baleia, ao atum, ao goraz. Com a sua adaptabilidade os portugueses, e os açorianos, demonstraram sempre ser trabalhadores incansáveis, e como tal reconhecidos, do calor tropical da América do Sul aos frios polares do Canadá.

Nestas e noutras viagens, - destino de romeiros - e também nas viagens dos que visitaram e visitam o nosso arquipélago-no-centro-do-mundo ganhámos a vocação do universalismo, a vontade de receber o estrangeiro, de o acolher como um igual, de encontrar na diferença o regozijo da fraternidade de todos os homens. Sabedoria espontânea, quase inata, das nossas gentes, colhida nos ensinamentos do pescador da Galileia a quem chamamos nas nossas festas Santo Cristo, mas confirmada na comunhão de perigos e trabalhos, essencial à sobrevivência no duro vento das ilhas isoladas, sob este céu sempre belo e sempre inclemente. A vontade e o trabalho da comunidade que, enfrentando unida os piores cataclismos que a natureza criou, encontra a abundância, ainda que simbólica num mesa do Espírito Santo.

Provavelmente muito do melhor da natureza do povo português foi sublimado na dureza vulcânica da rocha açoriana.

E, a verdade, é que a palavra Pátria vai muito mais ao emocional do que ao racional e ao político. Portanto, deixo para outra ocasião o balanço materialista de ganhos e perdas num processo de independência açoriana, para dizer apenas que não se pode separar o que é um. Conservamos nos Açores parcelas estruturais da portugalidade. Não se pode entender o Povo Açoriano sem o que tem de genuinamente português.

E vice-versa...

1 comentário:

El Greco disse...

Estou de acordo! Gostei!