domingo, 7 de junho de 2009

más notícias, boas notícias


Três frases que julgo serem absolutamente fundamentais e alguns comentários que penso serem oportunos:

Sobre os consumidores de informação:
"Há um elemento que, para mim, define muito o conceito de consumidor de informação português: as pessoas querem ver pontos de vista em que já acreditam. Odeiam ser contraditadas com elementos que lhes sugerem novas avenidas, novas hipóteses. Isto porque, intrinsecamente, o ser humano é conservador. Tem receio da aventura ideológica e de explorar conceitos que vão radicalmente contra a nossa maneira de ver o mundo, seja ela de acordo com um ideário político ou religioso. Noto, nesta perspectiva, que há uma certa reacção das pessoas quando lhe apresentam coisas diferentes."

Este é talvez o factor que mais contribui para a definição das diferentes linhas editoriais dos diversos OCS. É que, quer o assumam, quer não, todos eles partem de uma determinada visão, de uma determinada construção do que é que o seu público-alvo pensa, ou se interessa. Temos, por isso, OCS mais "alinhados" ou mais "alternativos". Não existe uma postura "neutral" nem "objectiva" no sentido puro. Existe, certamente, seriedade no cumprimento de uma determinada agenda jornalística que, com base no conceito que se tem à priori do leitor (ou ouvinte, ou espectador), selecciona o que interessa e o que não interessa.

O problema é a reciprocidade do sistema. É que se o público influencia aquilo que os média publicam, os média também influenciam, por sua vez, público que os lê, ouve ou vê. E corremos o risco de se criar uma espiral, um círculo vicioso de conservadorismo que vai estreitando os limites da realidade "que interessa", excluindo o resto. Roubando aos média o seu papel de agentes da mudança e progresso sociais.

Sobre os jornalistas:

"Sou da geração em que era raro um jornalista com formação superior em Portugal, era raro um jornalista com formação em Jornalismo. Tínhamos muita gente de letras, bons médicos. Mas não formados em Jornalismo. Portanto, melhoramos nesse aspecto. Contudo,as circunstâncias laborais degradaram-se muito. Hoje, o Jornalismo é uma tarefa precária, na maior parte dos casos. E isso não abona em favor da qualidade. (...)
Vai haver um problema na classe muito grande: desemprego. Já começamos a notar isso. Há muita gente com contratos cada vez mais precários. Há muita gente a viver de biscates e isso é muito mau. Porque se começa a procurar produtos cada vez mais exóticos, a tentar vender coisas cada vez mais esquisitas. E isso não pressagia nada de bom. A curto prazo, vejo isto. A longo prazo, acredito que a tecnologia nos consiga redimire tornar os custos mais baratos.
"

Esta é uma realidade bem conhecida de toda a gente. Perante esta situação que condições damos aos jornalistas para que possam ser independentes? Quando a continuação do emprego depende do arbítrio do director ou da administração, que espaço estamos a dar aos fenómenos de censura e, pior ainda, de auto-censura? Nestas condições abrimos todas as portas para que o jornalista passe de intérprete independente da realidade para mera correia de transmissão de quem o pode despedir no fim do mês.

Sobre a verdade nos média:
"Acho que nenhum consumidor de informação consciente se informa num só órgão de comunicação social. É impossível. A busca tem que ser por várias fontes. E tem que ser uma busca pró-activa."

E esta, sim a questão de fundo. Verdade nos média? Nem pensar! Há verdades. Construções parcelares da realidade que ganham validade quando em confronto com outras visões. Exige-se, assim, também uma nova proactividade do consumidor. Tem de procurar em vários média, tem de escolher, acabando por ser forçado a construir a sua própria visão crítica dos acontecimentos. Este é um fenómeno importantíssimo e potencialmente revolucionário no nosso entendimento da informação e mesmo do conhecimento.

O valor da auctoritas na informação é sistematicamente questionado e a proliferação das fontes garantem a impossibilidade do seu controlo político ou ideológico. O consumidor de informação perde as suas referências seguras e vê-se forçado a construir as suas próprias noções.

Tal só pode corresponder a um importantíssimo progresso. Uma sociedade de informação que, embora mais dispersa, fragmentada, mesmo, procede muito mais de uma construção colectiva do que de ditames políticos ou ideológicos. Numa palavra: mais liberdade.
Boas notícias.

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