quarta-feira, 17 de junho de 2009

o pecado original

Como outras que abundam por esse país fora (e também por cá…), no passado fim-de-semana passou pelos Açores mais uma versão soft da voz de Vital Moreira. Não diabolizemos demais esta, só porque não é de um economista, mas de um tribuno (de formação), desculpabilizando assim aquelas outras que emitem uma linguagem mais recatada e objectiva. Os conselhos para-racionais e menos truculentos, ofertados por estas luzes do alto império (economistas muito europeus, federais e globalistas do mercado) que de quando em vez nos vêem alumiar, para a autonomia regional são tanto ou mais ofensivos que as diatribes “Vitalinhas”.

Antigo ministro da economia entre 1995/99 (o tal do “plano Mateus”), actual dono de uma empresa de consultadoria económica (ganha a vida a dar conselhos…) e convidado para uma sessão pública do Fórum Açoriano, Augusto Mateus “dixit” (em tom crítico): “O modelo económico seguido nos Açores privilegia mais a coesão e menos a competitividade, o emprego sustentado e a riqueza”. Veio portanto até cá advogar (mesmo sem ser tribuno) duas coisas: A primeira é que, ser-se arquipélago disperso por nove ilhas, sem massa crítica suficiente para o funcionamento normal de qualquer lei de mercado, e distante mil milhas marítimas do continente, não justifica que se conceda o privilégio à coesão! A segunda é que o emprego sustentado e a riqueza, em lugar de filhos dela, são inimigos dessa mesma coesão. Já estou a imaginar o Corvo e as Flores a competirem taco a taco com S. Miguel, e esta ilha por sua vez a competir taco a taco com o território continental…até ao último sobrevivente. Ah! Mas do afundamento do arquipélago brotaria, segundo este ilustre conselheiro, uma “grande e pujante cidade”, a cidade de Ponta Delgada”! Estão a ver como (para potenciais pategos…) é fácil esquematizar o radioso futuro destas nove ilhas?

Outro conselho interessante que veio dar: “O principal recurso natural dos Açores é o mar, não os prados”. Fico, desde logo a saber que os prados açorianos afinal são um recurso “natural” (pouco percebo de economia, mas Augusto Mateus, neste particular, demonstrou perceber tanto quanto eu). E o mar? Tem razão o sr. Prof. Doutor, é o principal recurso natural dos Açores…para outros virem explorar quanto baste a mando da União Europeia, e sob os conselhos de empresas em tudo iguais à do o sr., caso o (também seu) Tratado de Lisboa venha a ser aprovado da forma como está redigido!

Afirmando ser errado “…basear o desenvolvimento sempre na lógica da compensação dos custos da insularidade”, Augusto Mateus afirma ainda: “…um Portugal que valoriza o Atlântico é um Portugal que ajuda os Açores”. Portugal deve “ajudar” os Açores? Esqueceu-se que os Açores é Portugal? E que ajudar os Açores é ajudar Portugal? E que, após a integração europeia os direitos alfandegários deixaram de existir, e o poder sobre as taxas de juro deixou de ser português, quebrando o proteccionismo económico que, depois do 25 de Abril, estava em condições de romper com o isolamento e começar a garantir o escoamento a preço compensatório das produções dos Açores? Que os Açores, por isso mesmo, devem ser agora, e no futuro, legitimamente compensados, pela UE, de tal prejuízo continuado, através dum estatuto de ultraperiferia ou outro qualquer que elimine os handicaps permanentes da vivência nestas ilhas com a mesma dignidade de um qualquer europeu?

É sem dúvida este o pecado original do raciocínio centralista (ou simplesmente economicista) de muitos “Vitalinhos” que por aí andam, para quem, por fidelidade à sua coerência mercantilista, melhor seria que os Açores voltassem a ser desabitados…
Mário Abrantes

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