terça-feira, 14 de julho de 2009

É perfeitamente possível!


Depois se explica - a trabalhadora era delegada sindical duma empresa têxtil do norte do país; fora despedida, porque a empresa não estava habituada e não queria ter delegados sindicais a complicar a vida; o tribunal de trabalho obrigou a empresa a reintegrar a trabalhadora/delegada sindical; a empresa retaliou de várias formas, mas a mais original foi a do título - pagar a totalidade do seu salário em moedas, em vez da normal transferência bancária (dando a desculpa de que a empregada tinha conta noutra agência que não era a mesma da empresa, o que dá um total de 333 moedas de 1€ e 1 de 0,5€.

O que espantou e motivou a notícia não foi o despedimento, pelo facto da trabalhadora e as suas colegas terem exercido um direito constitucional - o direito à associação em sindicatos. Isso é normal.

O que espantou e motivou a notícia foi o invulgar pagamento (e de certa forma, para quem está de fora, cómico).

O que espantou não foi saberem bem que aquela empresa paga - e vive bem com esse facto - 333,5€ de salário mensal a uma trabalhadora (depois dos devidos e justos descontos). E espera que ela consiga viver dele. E os seus filhos. E pague a sua casa e respectivas contas. E despesas com saúde. E...

E também espera que ela não queira unir-se num sindicato.

O que espantou não foi o desrespeito pela lei, em particular pela Constituição, mas sim que a empresa, para lá de outros tipos de descriminações, abusos e pressões, tenha ainda tempo para se ocupar com a nova forma de gozar com a dignidade da trabalhadora.

Porque, de facto, é perfeitamente possível que ela(s) consiga(m) viver com dignidade e o mínimo de condições com o salário de 333,5€. Até porque, de certeza, os rendimentos que o seu patrão aufere devem ser próximos deste valor.

Há alguns
anos, em notícia de jornal, anunciava-se ao país uma nova causa de prostituição: operárias do distrito de Braga eram obrigadas a fazê-lo para conseguir sobreviver. Recebiam assim dois "salários", dos quais já conseguirão pagar as suas despesas mensais.

Ontem, ao fazer compras, reparei que um dos alimentos mais baratos e mais tradicionais no nosso país - o arroz - ocupava várias prateleiras cheias, excepto um, que já estava quase acabado: o chamado de "marca branca", o bastante mais barato que os restantes.

E, no entanto, é perfeitamente possível que os sucessivos governos que temos não queiram ver que este estado de coisas tem mesmo de mudar!

7 comentários:

Jordão disse...

Muito bem dito!

Anónimo disse...

Fizeram isso à pobre senhora só porque era delegada sindical?

Que horror!
Ao que chegamos.

joãozinho disse...

Sabes que há quem compre arroz desse e misture com comida de lata para animais e sobreviva assim metade do mês? Trabalhadores. Não estou a falar de desempregados.

Anónimo disse...

E uma enchada para plantar e semear a courela do avô?

Não foi assim que os nossos antepassados ultrapassaram os tempos dificeis da 1º e 2º Grandes Guerras e grande crise de 1929 aqui nos Açores?

Somos melhores porventura?

Querem que o governo nos esprema ainda mais de impostos, para sustentar malandros?

Diácono Remédios.

Anónimo disse...

Parece-me um ataque à empresa.
Se ela ganha assim tão mal, se os patrões ganham muito mais... então porque é que não monta uma empresa? Porque é que não é patrão também? Porque não corre os riscos que os patrões correm?
Não se pode ver só um lado. Além de que, 333,5 euros é bem melhor que 0.
O texto também é falacioso, pois não se sabe se ela é casada (2*333,5 = 667), se vive em casa dos pais, se não tem filhos nem outros encargos...
Deixem de desculpar quem não quer trabalhar mais ou arriscar. A vida não é fácil para ninguém.

Tiago R. disse...

O último anónimo tem razão!
Não deixes que os outros te explorem. Explora-te a ti mesmo!
Um dia vamos ser todos patrões e mais ninguém vai ter tempo para fazer comentários anónimos em blogues!

Anónimo disse...

Quem investe e cria emprego não tem valor porque é patrão.

Quem destabiliza as empresas, atirando-as para a falencia e desempregando os colegas, é heroi.