terça-feira, 21 de julho de 2009

gerir a doença ou promover a saúde? (actualizado)

O início do processo de discussão pública do Plano Regional de Saúde seria uma boa oprtunidade para um debate que arejasse algumas das ideias tradicionais e erradas sobre o sistema nacional de saúde.

E, desde logo, o primeiro problema é que temos um Plano Regional da Doença e não um Plano Regional de Saúde. Todo o enfoque é posto no tratamento e nas suas unidades e meios, deixando como parente simpático, mas secundário e pobre, aquele que deveria ser o ponto principal: a prevenção.

E a medicina preventiva vai muito mais longe do que umas campanhas de sensibilização nas escolas e uns folhetos coloridos. A promoção de estilos de vida saudáveis implica com muitíssimas áreas sociais, que o Plano prefere deixar em omissão.

Desde logo, o trabalho: Ritmos de trabalho intensos, horários irregulares e que não reservam tempo para outras actividades, condições de higiene e segurança no trabalho deficientes ou mesmo impróprias, são um dos primeiros inimigos da nossa saúde colectiva.

Outro aspecto são os bastos incentivos à indústria automóvel, os incontáveis milhões gastos em estradas, auto-estradas e estacionamentos, para que possamos passar semanas sem ter de andar mais do que 50 metros a pé.

Também poderíamos falar da política desportiva orientada essencialmente para apoiar as modalidades de alta competição e especialmente o futebol, esse coveiro do desporto saudável e para todos.

Mas, o aspecto mais fundamental de todos tem directamente a ver com a desigualdade social, que se reflecte, também, gravemente, sobre a saúde. Existe uma relação directa estatisticamente comprovada entre o rendimento e determinadas doenças. Não só pela maior dificuldade que os que auferem menores rendimentos têm em fazer escolhas saudáveis (na alimentação, por exemplo, onde os piores alimentos são sempre mais baratos. Mercado dixit), como também por factores que se relacionam com stress (e tantas vezes depressão, mesmo) relacionado com ritmos de trabalho, emprego precário ou desemprego.

Na nossa sociedade desiquilibrada, o fosso entre ricos e pobres abrange já todas as dimensões humanas, incluindo natalidade, fertilidade, saúde e, obviamente, esperança de vida. Há até quem teorize que a continuação deste estado de coisas levará, no futuro, ao aparecimento de duas espécies de seres no planeta, economicamente relacionados, mas biologicamente distantes: ricos e pobres. Esperemos que não chegue a tanto...

É aqui que reside a razão das resistências da direita em relação às despesas com o Serviço Nacional de Saúde. É que esse é dinheiro que é gasto em primeiro lugar com as camadas mais desprotegidas da população. Por que a verdade é que só a melhoria da distribuição dos rendimentos pode trazer poupanças acrescidas em termos de despesas de saúde.

Enquanto não abordarmos seriamente e de forma integrada este problema, não passaremos de um simples plano de gestão financeira da doença.


Actualização:

Sendo este um post já longo, penso que o assunto o justifica. Não posso deixar de assinalar a verdadeira situação de ruptura nos centro de saúde por causa da falta de médicos de família. É perfeitamente sintomática da falta de aposta na medicina preventiva que é, também, em muito boa medida uma competência destes médicos. Precisamos de inverter este paradigma. E com urgência!

1 comentário:

João Cunha disse...

Bom post. Ultimamente tenho a sensação de que os médicos estão a fazer-me um grande favor sempre que me atendem no centro de saúde da Praia ou no hospital de Angra...