quarta-feira, 29 de julho de 2009

colorações de cinzento

Um amigo que não via há anos, com quem me encontrei há dias, e com o qual me acostumara a bater papo a propósito das coisas da política, deu-me o mote.

Afirmava ele que, com esta crise sistémica global (desencadeada a partir dos EUA, e que foi até onde sabemos…ou sentimos), a Europa nada aprendeu, procurando para ela precisamente as mesmas (e velhas) soluções que originaram os problemas, e ficando à espera que o mercado responda por si e se encarregue da recuperação. Ao vanguardismo histórico e intelectual que caracterizou desde sempre a velha Europa, responde a nova Europa de forma tolhida e manietada pela senilidade sócio política a que o poder económico e monopolista, em nome do liberalismo, a condenaram.

Da velha Europa para a União Europeia de hoje, ignora-se o livre pensamento, vão-se as “luzes”, e resta um cinzentismo impotente e economicista tanto ao nível da resposta interna como na vertente da sua influência externa. O uniformismo cinzentão do pensamento único está perfeitamente cristalizado na coincidência de posições das duas maiores formações políticas que dominam as nações europeias (em processo induzido de desagregação federalista). As mesmas que dominam o Parlamento Europeu, que dominam a Comissão Europeia e que apontam a um novo mandato de Durão Barroso.

Com as formais instituições unionistas, em processo artificialmente acelerado de construção a partir do Tratado do Carvão e do Aço até à actual União, parece estar a perder-se a identidade duma Europa vanguardista, dialecticamente capaz de procurar e produzir soluções ideológico-políticas a partir de cada abalo conjuntural da evolução dos povos e nações. Em contrapartida parece deslocar-se o centro de gravidade da ebulição filosófica e sócio-política mundial para o continente americano, dando até a noção que algo está a acontecer de novo neste domínio, mesmo nos EUA, algo que os campeões do capital financeiro e monopolista, bem como o próprio Obama (já de si uma resultante desta ebulição), não controlam.

Entretanto, definitivamente de comboio perdido para as suas ambições políticas além-Madeira e em defesa mal pensada do cinzentismo uniformizante e castrador europeu, dá nota caricata o Presidente do Governo da Madeira quando se mostra (retoricamente) preocupado pelo facto de em Portugal, ao contrário do resto da UE, se assistir à “vergonha” duma evolução eleitoral “desconforme” dos partidos de esquerda (PCP e BE). Quando atribui a responsabilidade desse facto ao Governo do PS e ao actual Primeiro-Ministro, Jardim ensaia (por conveniência eleitoralista) uma explicação subjectiva e bacoca do problema, tentando desviar a atenção dos incautos para a questão profunda e determinante que consiste no facto de a chamada esquerda moderada europeia (de que a política do Governo Sócrates é uma expressão) estar tanto como a direita liberal e conservadora (de que o PSD e o CDS fazem parte) amarrados de mãos e pés aos interesses dominantes, no quadro institucional da UE, do capital monopolista e financeiro transnacional.

Infelizmente para João Jardim (e outros) é ele próprio que, sem querer e enrolando-se nos seus raciocínios verborreicos, dá nota de que o cinzentismo europeu e os interesses que o determinam não controlam tudo, nem controlarão sempre, apesar da força com que actualmente (e, desta feita, infelizmente para todos) se manifestam.

Mário Abrantes

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