domingo, 16 de agosto de 2009

a dinâmica do centralismo

Rolando Lalanda Gonçalves escreve hoje no Açoriano Oriental (sem link directo) sobre a "dinâmica autonómica".


Parte, no entanto de um pressuposto errado, ao caracterizar "tout court" a cultura política portuguesa como centralista. É, desde logo, uma perigosa generalização, que passa ao lado do que sãos as tensões e os conflitos dinâmicos na política nacional.

E, desde o nascimento de Portugal, desde o século XII, que assitimos ao conflito permanente e sempre renovado entre tendências centralistas e tendências descentralizadoras.

No século passado essa tensão foi vivida de forma muito clara durante os tempos do regime fascista centralizador, a quem os Açores devem boa parte dos seus atrasos estruturais e subdesenvolvimento. Só a ruptura fulminante do 25 de Abril permitiu contrariar essa tendência e construir novas e modernas formas descentralizadoras, entre as quais o conceito da Autonomia, como hoje o entendemos.

Mas este não foi (nem é) um processo unânime, de forma alguma. Constituiu - como todos os conflitos políticos - um processo de luta social, em que camadas sociais com interesses divergentes se degladiaram para impôr um modelo político. Por um lado, as que sempre dependeram da protecção paternalista do estado central e autoritário. Por outro, os que viam e vêm nos processos descentralizadores e democratizantes a única via para a modernização e progresso do país. E, no essencial, foram sempre as forças de esquerda que mais pugnaram pela consagração de soluções de descentralização, como a Autonomia ou a Regionalização. Foi a correlação de forças, em termos políticos, que emergiu do 25 de Abril de 1974 que permitiu a criação do caminho autonómico que hoje trilhamos.

Este conflito continua e as idiotices proferidas por Medina Carreira são apenas um sintoma dessa contenda. A natureza desta luta política também não mudou. A sua raiz continua a ser social. Estamos ainda não perante um choque entre concepções abstractas, mas sim entre grupos e camadas sociais com interesses antagónicos. E é nessa medida que o problema deve ser observado, nomeadamente pela complexa resposta a estas perguntas simples: a quem interessa o centralismo? A quem interessa a democratização e a Autonomia?

7 comentários:

geocrusoe disse...

"o essencial, foram sempre as forças de esquerda que mais pugnaram pela consagração de soluções de descentralização, como a Autonomia" discordo de todo no caso dos açores.
Nunca assisti no nascimento da Autonomia dos Açores nas décadas de 70 e início de 80 do século XX a esquerda liderar movimentos pró autonomia dos Açores (excepto se considera o psd de mota amaral de esquerda e talvez seja uma esquerda próxima da igreja).
Vi, algumas vezes com dureza, confrontos ideológicos entre os autonomistas liderados pelo psd e a desconfianção sentida no modelo autonómico proposto, vinda do ps e pcp/apu/cdu que contra argumentavam muito com a unidade nacional e o estado central como garante de liberdades que temiam não existir nos açores, e um receio de participação dos USA no processo.

Anónimo disse...

Nada como aprender com o caminho percorrido pelos outros.

É ver como se processam as relações entre a Dinamarca e as regiões autónomas da Groenelandia ilhas Faroe.

É ver com se entendem a Escócia e os seus arquipélagos com Londres.

É ver como a Córcega se relaciona com Paris e a Sardenha com Italia.

É ver como as Canarias se enquadram nas autonomias espanholas.

Temos sempre a mania de inventar a pólvora.

Tiago R. disse...

Lamento discordar, caro Crusuoé:

Mas a descentralização de poderes, a democratização, sempre foi uma causa defendida pelas forças de esquerda. Ao contrário da direita que conserva como referência ideológica a estrutura centralizada e centralista do estado autoritário. Converse com Paulo Portas e verá.

Fernandinho Egas Moniz disse...

Caro Tiago R.,
Está a fazer 40 anos que os tanques "descentralizaram" os poderes em Praga.
Tenha vergonha.

Tiago R. disse...

Explique-me lá outra vez o que é que isso tem a ver com os Açores? Ou sequer com o que se discute no post?

Fernandinho Egas Moniz disse...

arma-se em paladino da descentralização e da União Soviética. Algo contraditório. Aprenda história, nomeadamente da Primavera de Praga, em livros que não saiam das edições Avante.

Tiago R. disse...

Caro Fernandinho:

Claro que deixou por responder a minha pergunta sobre o que é que a história da Checoslováquia, tem a ver com os Açores, ou comigo, o com o PCP, já agora.

Não se deixe entalar na porta da ignorância. Estude as nossas posições.