terça-feira, 11 de agosto de 2009

a incoerência da realidade

Além do seu saudável índice de produtividade e do importante peso directo no produto regional (cerca de 12%), a lavoura é bem mais importante do que isso, gerando a montante e a jusante uma dinâmica económica e social específica nos Açores, da qual depende total ou parcialmente quase 50% da população. Proporciona ainda aos açorianos uma menor dependência alimentar do exterior, um menos mau e específico equilíbrio paisagístico e ambiental (potenciadores do turismo), e um equilíbrio invejável do seu viver entre o espaço rural e o aglomerado urbano, esbatendo a tendência para o abandono puro e simples das terras (isto é, do território) provocado pela migração massiva para as urbes.

Em boa verdade, para uma estrutura sustentável e minimamente autónoma do desenvolvimento regional no seu conjunto, o sector agro-pecuário constitui objectivamente um pilar fundamental, sem alternativa a médio prazo (justificando por isso mais do que palavras e simples constatação).

Assim sendo, ninguém, com responsabilidades governativas, pode ir para férias descansado, quando as ameaças ao sector desabam crua e friamente a partir da Comissão Barroso (o português tão desejado pelo Presidente da República e pelo Primeiro Ministro) e pela boca da Comissária de Bruxelas Marian Fischer-Boel, que esteve de visita (imperial?) aos Açores no mês passado.

Em termos absolutos o litro de leite pago ao produtor tem vindo a diminuir desde a liberalização provocada pela adesão de Portugal à UE, enquanto os custos de produção dispararam. O sector respondeu com a sua modernização, o aumento da produtividade e da qualidade do produto. Apesar de madrasto para os produtores, o sector não perdeu por isso importância, antes pelo contrário, cresceu economicamente. E se ainda há quem condene de forma apressada e superficial a chamada monocultura da vaca, a verdade é que a superfície agrícola útil ocupada pela produção leiteira tem diminuído e o espaço para a diversificação está aí para ser ocupado. O efeito da liberalização europeia do mercado tem sido sustido pelo regime de quotas leiteiras, o qual tem garantido a rendibilidade mínima dos produtores açorianos.

A Comissão Barroso com os seus ditames veio aos Açores colocar milhares em desespero ao reconfirmar a supressão do regime de quotas e apresentar medidas de compensação tão falaciosas que até o Secretário da Agricultura de imediato condenou.

Ao mesmo tempo as estatísticas sobre os restantes sectores económicos regionais choviam em paralelo: Treze pedidos de insolvência empresarial; números do Rendimento Social de Inserção a dispararem; venda de cimento e construção civil em descida acelerada e desemprego a chegar a valores (7%) só uma vez anunciados antes (quando em 1996, o recém formado Governo do PS se referia à situação herdada do PSD).

Da República o silêncio comprometedor. O Presidente do Governo sobre isto também nada disse e foi para férias descansado, anunciando que centenas de empresas já recuperaram da crise. Aliás como não poderia deixar de ser, para manter a coerência do discurso do fim da crise por ele anunciada (no início do ano) para finais de Julho.

Para mal dos nossos pecados, à incoerência da realidade de pouco serve porém, apesar de cair bem, a coerência do discurso...

Mário Abrantes

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