quarta-feira, 26 de agosto de 2009

o problema

Sempre me ensinaram que, para resolver um problema, é meio caminho andado ser capaz de enunciá-lo primeiro.

E o problema da política norte-americana, perante os seus e perante o Mundo, tem sido o facto de nunca se ter apresentado como tal, isto é, como um problema, e antes como um modelo a copiar e a expandir além fronteiras…

Algo me parece estar, no entanto, a mudar a ocidente. Embora com poucos (e pouco temerários) afloramentos por parte dos nossos órgãos de informação, quem esteve mais atento apercebeu-se, por aquilo que neles ouviu e viu esta semana, que os EUA vivem momentos difíceis e de indignas revelações. Confirmam-nos internamente, por um lado, que o perigo do terrorismo no mundo foi empolado por George Bush…para se promover eleitoralmente! Entretanto, muitos estado-unidenses, tal como o seu procurador-geral, manifestam-se perturbados com as recentes confirmações da tortura e da crueldade praticados, não ocasionalmente por este ou aquele militar ou agente mais estressado, mas sistemática e deliberadamente pela CIA, a pretexto do combate ao terrorismo, junto dos detidos nas prisões internacionais controladas pelos EUA. E se se fala de comportamento sistemático e deliberadamente cruel da CIA, fala-se, bem entendido, de orientações oficiais ou oficiosas da administração norte-americana. É precisamente este reconhecimento que está a perturbar o norte-americano comum, bem como importantes instituições jurídicas do país. Obama que inicialmente não sancionou a destruição deliberada dos vídeos da tortura e manifestou vontade de manter estas revelações em segredo, viu-se forçado pelo próprio movimento que o suportou (e ainda suporta) a deixá-las assomar à luz do dia! Para a pátria que se julgava dos direitos humanos é o início da enunciação do problema. E é bom este sinal para os EUA, pois não são uns quaisquer anti-americanistas a acusar, é o próprio país a verificá-lo.

Igualmente bom é, sem dúvida, para um Mundo militarmente vigiado por 800 bases norte-americanas e mais umas tantas da NATO, quais dispendiosos super cruzados da democracia, verificar que algo de errado se passa no país dos seus creditados guardiães.

Uma Nação que se apresenta, em simultâneo com as consequências negativas da política de expansão militar, em pré-colapso financeiro derivado da política neo-liberal, é uma Nação que não orgulha certamente quem nela vive e nas suas virtudes acreditava. Mas depara-se-lhe entretanto outra verdade que a (agora desacreditada) bondade da posição militar dominante antes ofuscava: Em simultâneo com o colapso da banca e o domínio absoluto de dois ou três grandes grupos económicos, conforme nos relata Diniz Borges num interessante artigo do Correio dos Açores, a disparidade económica interna acentua-se e revela-se a níveis nunca antes atingidos, com os 400 norte-americanos mais ricos a possuírem mais rendimentos que um conjunto de 150 milhões de outros compatriotas seus (263 milhões de dólares) e a pagarem cada vez menos impostos, enquanto 90% da população vê baixar os seus rendimentos, sem aumentos salariais significativos desde 1979, endividando-se contínua e irremediavelmente até ao pescoço.

O sonho americano espalhado pelo Mundo parece estar a acordar para uma inesperada verdade que entretanto, bem longe do Iraque ou do Afeganistão, se foi enroscando ali mesmo aos pés da cama. Afinal há um problema! Esse problema é interno e é aí que deverá ser resolvido. Da lógica das coisas e das potencialidades positivas que sempre existiram entre o seu povo, brotarão sem dúvida, cedo ou tarde, soluções mais justas e duradouras para a vida dos cidadãos norte-americanos e da sua grande Nação.
Mário Abrantes

14 comentários:

Anónimo disse...

Problema é o que Jerónimo de Sousa foi dizer para a Madeira.

Como é que se confunde a realidade madeirense com a açoriana?

Tiago R. disse...

Não se confundem de forma nenhuma.

A Lei das Finanças Regionais repôs alguma justiça para os Açores? Ainda bem.

Falta agora fazê-lo também em relação à Madeira que também tem (outros) problemas específicos.

João Cunha disse...

Mal estaríamos nós se os Estados Unidos tivessem tido um papel menos interventivo na política mundial.

Os dois exemplos que temos de politica isolacionista americana resultaram em duas "quase" catástrofes mundiais, as duas grandes guerras.

Criticamos os Estados Unidos por terem a audácia de intervirem onde os restantes têm medo ou estão estagnados pela apatia. Enfim, não existem estados perfeitos, longe disso, mas a constante procura do bem comum, por muito que essa procura seja feita de modo imperfeito, é a lição que deveremos tirar.

Tiago R. disse...

Caro João:
Os EUA só intervieram na defesa dos seus próprios interesses. Nunca no dos resto do mundo.

Se quer exemplos de cataclismos resultantes da intervenção americana, sem pensar muito lembro-me do Japão (o maior genocídio simultâneo da história do homem!), Vietname, Coreia, Afeganistão, Iraque, Somália, Panamá, El Salvador, Chile (no apoio ao golpe de Pinochet). Chega?

João Cunha disse...

Estónia, onde perto de 20% da população foi morta, deportada, torturado ou presa pela ocupação soviética;

A Letónia, onde dezenas de milhar foram deportados para a Sibéria;

A Lituânia, onde se estima que 780.000 cidadãos terão sido “perdidos” para a ocupação Soviética.

A Polónia… palavras para quê?

A invasão da Finlândia;

A ocupação da Alemanha de Leste;

A repressão da Revolução Húngara de 1956;

A Eslováquia, o Afeganistão, a Manchúria…

Exemplos de um estado que procurou o bem comum dos seus cidadãos através da “igualdade” absoluta. Bem-intencionado mas no fim um falhanço total.

Não defendo a totalidade das acções americanas no mundo, mas o saldo final foi francamente positivo.

Muito por força dos Estados Unidos temos democracias fortes e livres por este mundo fora.

Continuo a defender que o mundo seria um lugar muito pior se o “Tio Sam” não olha-se sobre ele.

Tiago R. disse...

onde é que você foi desenterrar esses números? 20% da população da Estónia torturada e deportada??? Acredita nisso?

Mas naturalmente que a URSS intervinha na cena internacional sobretudo também para defender os seus interesses. Apenas punha uma tónica mais acentuada no papel da ONU e no Conselho de Segurança, como a via de resolver os conflitos internacionais.

Ao contrário dos EUA que ainda hoje não cumprem diversas resoluções da ONU, como sobre o bloqueio a Cuba ou sobre a venda de armas a Israel.

Tiago R. disse...

Ah! E quanto à "ocupação" da Alemanha de Leste, ela foi decidida na Conferência de Ialta e França, Inglaterra e EUA "ocuparam" também a Alemanha de Oeste.

A diferença é que o exército russo acabou por retirar da República Democrática da Alemanha, ao contrário dos EUA que ainda hoje lá mantêm bases.

João Cunha disse...

Vamos por partes:

Dados relativos à ocupação soviética da Estónia:

http://countrystudies.us/estonia/3.htm

Fonte: Biblioteca do Congresso Estados Unidos.

Condenas ou não com a mesma veemência que olhas para com os Estados Unidos, a invasão e ocupação de estados independentes por parte da União Soviética?

Relativamente ao pacto que mencionais, o que divide a Alemanha. Relembro o pacto nazi-soviético de 1939... o que dividiu a Europa de leste em parcelas a anexar por parte de ambas as potencias.

Mais ainda, bases militares e ajuda económica que levantaram o povo alemão das ruínas de um conflito que destruiu a quase totalidade do país. No entanto, enquanto a reconstrução a oeste foi feita com base na democracia, no leste a repressão e a policia politica eram factores com que os alemães tinham que lidar todos os dias.

Não quero passar a imagem de um apoio cego e imoral a todas as intervenções dos estados unidos, apenas olho para a geo-politica mundial como um jogo de compromissos, os quais temos que aceitar com vista ao bem da maioria.

Tiago R. disse...

Interessante essa ideia do progresso económico via bases militares...

João Cunha disse...

Relembro os milhões injectados na economia Terceirense todos os anos por parte da Base das, os milhares de empregos que essa assegura directa e indirectamente.

A Terceira, principalmente a Praia da Vitória não seria o que é hoje se não fosse a presença militar.

No caos do pós 2ª guerra mundial, os empregos e o dinheiro que as Bases americanas proporcionaram foi essencial para o desenvolvimento do país.

Actualmente o impacto económico directo na economia Alemanha cifra-se nos vários biliões de dólares.

Tiago R. disse...

E do ponto de vista ético não sente nem um pequeno sobressalto ao basear o desenvolvimento dum país naquilo que o seu povo produz, mas na guerra?

João Cunha disse...

Eticamente? Sim tenho sérias reservas em relação ao dinheiro que a guerra gera, neste caso as bases militares.

Mas a nível moral? Penso que a pobreza e a fome que muitos aqui na terceira, na Alemanha, Japão, Filipinas, etc, conseguiram evitar por culpa dos Americanos valeu a pena.

Tiago R. disse...

É um dilema, portanto.

João Cunha disse...

Um dilema que não invejo aos que detêm o poder.