sexta-feira, 18 de setembro de 2009

coup d'État


As suspeitas agravaram-se na Madeira, onde Sócrates nomeou um dos membros do seu Gabinete para ir recolher informação sobre a visita presidencial, infiltrando-se na sua comitiva.

Perante os factos, o PR teve a pior das actuações possíveis: ir "encomendar" uma notícia ao Público, com um claro objectivo de prejudicar eleitoralmente o PS. Se tinha provas, tinha outras atitudes que poderia ter tomado. Não o fez, lamentavelmente.

Mas nada disto apaga a enorme gravidade do facto de o Governo andar a espiar o órgão máximo da República. Mais do que um desrespeito ao prestígio devido ao PR (gostemos ou não dele. E eu não gosto, como é sabido), estamos perante a violação dos princípios basilares do nosso sistema democrático. Este novo "incidente" coloca-nos a um passo de um golpe de Estado.

A centralização dos serviços de informações e segurança sob controle governamental só poderia resultar nisto: é uma ferramenta demasiado tentadora para não ser usada em proveito político próprio. Estas alterações já vêm do tempo em que o próprio Cavaco Silva era Primeiro-Ministro. Na altura, houve quem alertasse e, como costume, não foi escutado. A criação da sinistra figura do Secretário-Geral do sistema de Informações e Segurança da República Portuguesa, em 2006, foi mais um passo nesta direcção. Como afirmou António Filipe, na altura: "O poder que é conferido ao Secretário-Geral do SIRP, sobre todos os serviços de informações, não tem precedentes na República Portuguesa. Nunca ninguém deteve tanto poder em matéria de informações estratégicas e de segurança."

Recoloca-se assim ainda mais alta a fasquia da importância das eleições de 27 de Setembro: trata-se não só de substituir um mau governo. Trata-se defender a Democracia.

4 comentários:

geocrusoe disse...

Várias coisas ainda não percebi neste embróglio entre DN/Publico/PR/PSD/PS, quem lucra e quem perde, que trama e quem é tramado, quem é inocente e quem é culpado.
Mas um certeza já tenho: este escândalo mostra que este país e a sua democracia estão doentes e gravemente, correndo-se o risco de se estar a seguir uma via de desacreditação progressiva do sistema e da degradação das liberdades e garantias dos cidadãos.
Vendo as notícias admiro-me como muitos ainda brincam e entram em jogo com isto em vez de se preocuparem.

João Cunha disse...

Só confirma que este país ainda se move sobre os tiques do fascismo. A instrumentalização das forças de segurança e a crescente tendência da classe politica em se envolver em jogos de bastidores quase maçónicos...

Anónimo disse...

Como é que nos podemos rever num presidente que se mete em politiquices destas?
Como é que nos podemos rever num presidente que enche o palácio de Belém de acessores laranja?
Como é que nos podemos rever num presidente que se move na politica assim?

Hoje este, amanhã outro.
A questão é estrutural.

Quando é que nos reconciliamos com 8 séculos de história e repomos no trono o nosso rei?

Tiago R. disse...

concordando com o caro anónimo (excepção feita ao monárquico retrocesso civilizacional que propõe), acrescento duas perguntas:

- Como nos revemos num Governo que espia os outros órgãos de soberania?

- como é que algum democrata se revê num partido que recorre seja a que meios forem (legais ou ilegais) para se manter no poder?