segunda-feira, 7 de setembro de 2009

jovens doutores

Animado por uma evidente e substancial dose de anti-comunismo, Daniel Oliveira deu à estampa nas páginas online do Expresso um texto intitulado "jovens turcos". Disfarçando a intenção menorizadora sob a terminologia de quem conhece algumas generalidades sobre a vida interna do PCP, DO procura insultar toda uma geração (ou mesmo várias?) de militantes e dirigentes comunistas. Filho de boa gente como me presumo ser, sinto-me e, reconhecidamente, acuso o toque.

Mas procurando pôr de parte a emocionalidade que as palavras de DO me geram, importa analisar com mais cuidado alguns dos seus argumentos.

Diz DO que "desde que Jerónimo de Sousa e um grupo de quadros comunistas que até então se mantinha na segunda linha tomaram a liderança do PCP" o Partido "estancou a queda eleitoral e empobreceu drasticamente a qualidade dos seus quadros." Passe a avaliação que DO faz sobre o que nitidamente pouco conhece, importa relembrar que o PCP não apenas estancou a queda eleitoral, como tem experimentado um vigoroso crescimento eleitoral que há muito não experienciava, como é comprovado pelo aumento de 70.000 votos nas últimas eleições europeias.

Continuando na senda do insulto gratuito, DO procura em seguida invocar o nome de grandes parlamentares comunistas (de entre os quais estranhamente se esqueceu de mencionar Luís Sá ou Carlos Carvalhas), para tentar menorizar a intervenção de parlamentares da qualidade técnica e política de António Filipe, Honório Novo ou Bernardino Soares e ignorar o valor que os novos e jovens deputados do PCP, como Miguel Tiago ou Bruno Dias, trouxeram ao hemiciclo e o contributo que acrescentam à bancada comunista.

DO, como alguma gente dentro do Bloco de Esquerda, tem muita dificuldade em perceber como é que um Partido Comunista possa ter uma liderança que não seja composta exclusivamente por intelectuais. Essa dificuldade não é de estranhar num partido (ou coligação?) que há mais de dez anos é conduzida pelo mesmo reduzido directório cujo único prestígio reside nos seus incontestáveis méritos académicos. Mas, a dificuldade advém, sobretudo, do facto de laborar num erro: o de confundir o grau de escolarização, erudição diletante ou cultura pessoal com o grau de consciência social e política.

Da mesma forma, laboram em erro idêntico os que identificaram o Sector Intelectual com o sector que tem a incumbência da produção teórica dentro do PCP. Trata-se, de uma estranha e velha distorção do pensamento marxista que tenta separar o que por natureza é inseparável: a teoria e a prática. Como se tivesse sido apenas pela contemplação teórica do capitalismo que os trabalhadores se armaram com a doutrina revolucionária que conduzirá à sua superação! DO menciona os nomes de Lenine, Gramsci, Carrilho, Castro ou Cunhal. E seria bom que os lesse não como sistemas abstractos e acabados, mas sim nas pistas e nos desafios que lançam para a acção.

Ao contrário do que pensa DO, no PCP, todos os militantes constroem teoria, através do seu estudo e experiência pessoal e mútua, partindo da análise dos problemas reais, na discussão e construção da opinião colectiva: a síntese que, solidamente ancorada na realidade, permite ao PCP entender os problemas e propor soluções para os problemas do nosso tempo, sem perder de vista os objectivos fundamentais no horizonte.

Não nego, como poderia?, que alguns militantes, porventura, subvalorizam os deveres consignados na alínea i) do artigo 14º dos Estatutos do PCP ("procurar elevar o seu nível cultural, político e ideológico"), ou os da alínea e) do mesmo artigo ("aprofundar o conhecimento do meio em que se desenvolve a sua actividade e transmiti-lo ao Partido, reforçar a sua ligação com os trabalhadores, com outras camadas laboriosas e as populações, defendendo as suas justas reivindicações e aspirações;"). E que essa é uma atitude que deve ser criticada. Mas não parece intelectualmente honesto que se tente confundir a árvore a árvore com a floresta. Até porque este dever, mais nenhum partido (ou coligação?) o tem inscrito nos seus documentos fundamentais.

A já longa sobrevivência PCP deve-se ao contributo de gerações de homens e mulheres que generosamente dão o melhor da sua experiência e conhecimentos a uma causa de séculos. E, nesse contributo, todos são iguais. Sejam doutores ou não.

2 comentários:

João Cunha disse...

Muita boa gente em Portugal estabelece uma relação directa entre grau académico e validade da mensagem.

Somos um país de Doutores e Engenheiros, um país onde parte dos recém licenciados corre ao banco para mudar o nome do MB/Cheques para Dr., sinto-me envergonhado Às vezes de ter tirado uma licenciatura, não vá alguém me associar a tais disparates.

samuel disse...

Belo texto!

Abraço.