terça-feira, 13 de outubro de 2009

sobre os resultados no Faial

Tendo estado envolvido directamente na campanha para a reeleição de José Decq Mota, era incontornável que me referisse os resultados eleitorais do concelho da Horta.

E, da mesma forma, também não seria possível deixar de qualificar este resultado como extremamente negativo. A CDU deixa de estar representada na Câmara Municipal (onde antes tinha dois vereadores) e vê o seu grupo municipal reduzir-se de 4 para 2 elementos. Este resultado não deixou de surpreender todos, da esquerda à direita, quando ainda na semana anterior uma sondagem de um jornal local apontava para um resultado da CDU entre 15 e 19% dos votos.

Certamente muitíssimos factores contribuiram para este desfecho e, sem pretender ser exaustivo, enumero apenas alguns deles:

- A prolongadíssima campanha que, diariamente através dos meios comunicação social locais, procurou silenciar a obra dos vereadores da CDU e transmitir a ideia de que estes se tinham silenciado ou acomodado. A CDU não fez porventura a melhor gestão da comunicação nos últimos anos, ao contrário do que a situação de acordo pós-eleitoral com o PS exigia. Era preciso explicar detalhadamente aos faialenses o que é que se estava a fazer e para quê. E tal, infelizmente, não foi feito eficazmente e por múltiplas razões.

- A postura de lealdade perante o acordo firmado com o PS, que fez com fossem os vereadores da CDU a virem a terreiro defender o conjunto da obra camarária, assumindo esse ónus, enquanto os vereadores do PS se abstiveram de responder a críticas e se limitaram a reclamar como sua a obra da CDU.

- A forma como muitas das propostas que a CDU apresentou em Março passado, acabaram por ser adoptadas e reclamadas como suas por parte das outras candidaturas: a criação de um orçamento participativo, a reformulação do trânsito e estacionamento no centro da cidade, os programas de apoio à reabitação jovem do centro histórico, o trabalho em rede na área social e a criação de uma Casa das Artes no Banco de Portugal são apenas alguns exemplos.

- A gigantesca disparidade de meios, numa campanha em que PS e PSD "puxaram os cordões à bolsa" e encheram, desde há meses, a ilha de dispendiosos outdoors e cartazes. Durante a campanha houve de tudo: jantares gratuitos e porcos no espeto para centenas de pessoas, abundante distribuição de t-shirts e mais pronto-a-vestir, canetas, pens, e múltiplo merchandising, com o qual, naturalmente, a CDU nunca poderia competir e que terá tido impacto junto de algum eleitorado.

- Factores mais mediáticos também terão contribuído, como a intensíssima cobertura da pré-campanha do candidato social democrata, com silenciamento das restantes. A que se somou também a publicação de uma sondagem que dava como garantida a eleição de um vereador da CDU, o que poderá ter desmobilizado alguns eleitores. Um incidente grave foi a publicaçãode uma objectivamente notícia falsa, no último dia da campanha eleitoral e portanto sem possibilidade de ser desmentida antes do acto eleitoral, sobre uma putativa penhora sobre os bens da Câmara da Horta, que nunca existiu.

Outros factores ainda, internos, relacionados com a própria organização e opções políticas da CDU, existirão e deverão ser avaliados e reflectidos colectivamente, no seio da própria coligação. E a eles regressaremos neste espaço.

A bipolarização e a situação de maioria absoluta na Câmara Municipal não auguram nada de bom para o concelho nos próximos anos. Estamos perante um sério recuo em termos políticos que pode significar a paralização ou abandono de alguns dos projectos estruturantes para o nosso desenvolvimento e enfrentaremos um quase certo adiamento da necessária modernização do concelho da Horta. Certamente que muitos, dentro e fora da CDU, não deixarão de lutar pelo melhor para a ilha do Faial. Mas, com este panorama, trata-se de uma luta que se tornou extraordinariamente mais difícil.

9 comentários:

geocrusoe disse...

Fui um dos principais críticos sobre o silenciamento público e a imagem de subserviência da CDU perante um ps camarário que recolhia louros das obras de outros (já que sua nada tinha). Todavia, a CDU em vez de mudar de postura, optou sempre por negar tal situação. Confesso que conhecia o trabalho de MCB, com quem conversei, cheguei mesmo a comentar com ela o apagamento que o ps lhe impunha sem a oposição de JDM e abri as portas à divulgação da sua actividade cultural no meu blog. Sempre soube que JDM fora eleito pela sua capacidade de intervenção pública e não pelo seu trabalho de secretária. Mudou o estilo e todos nós (mesmo eu que ideologicamente estou noutro campo) perdemos com isso e os faialenses não lhe perdoaram. Poderia ter trabalhado mas nunca deixado de mostrar a sua vivacidade e força em mudar muitas coisas que o ps tinha de mudar

RD disse...

Concordo plenamente com o Geocrusoe. Conheço o trabalho da MCB e sei que ela trabalha. Ao JDM pedia-se que defendesse os seus e o seu partido, nunca o PS e foi aí que ele perdeu e muito. O Faial e a nossa democracia fica mais pobre com esses jogos todos de acordos e cegueiras partidárias. Temos pena, mas a política - segundo o que me dizem, é isso.
Quanto á cobertura da pré-campanha Mais Faial... trabalhámos com muita seriedade no campo 5 longos meses por isso não vejo o porquê da não cobertura. Não concordo de todo quando diz "com o silenciamento das restantes", foi sim apenas com o silenciamento da vossa e por opção vossa.
Até breve.

Tiago R. disse...

JDm teve uma postura de lealdade (já ouviu falar?) perante uma gestão camarária conjunta.

E essa é a única postura que podia ter, mesmo sabendo que isso abria espaço a algum oportunismo do PS.

Eu sei que para o PSD parece estranho mas, para nós, os valores valem mais do que os resultados.

É por isso que continuamos hoje de cabeça erguida a defender o nosso projecto. Ao contrário do PSD que, como habitual, passadas as eleições, esfumam-se as grandes ideias, as grandes obras e todo o projecto. Normalmente reduzindo-se a um mero papel de oposição rosnadora e destrutiva ou, o que ainda é mais habitual, simplesmente abandonando os órgãos e ausentando-se de todas as decisões. Quer exemplos?

geocrusoe disse...

concordo que JDM teve uma postura de lealdade com JCastro, o que correspondeu a uma postura de deslealdade para com os eleitores que o elegeram, que transferiram os seus votos do ps para a cdu e depois viram que esta resultou na lealdade focada.

Tiago R. disse...

Deslealdade para com os eleitores?

Mas, o que é que queria? Que a CDU não tivesse viabilizado o Executivo e tivesse feito cair a Câmara, há 4 anos atrás?

Isso é que dava um jeitão ao PSD...

RD disse...

Postura de lealdade perante uma gestão camarária CONJUNTA...?! Conjunta de conjunto?
Peço desculpa. Não tinha percebido isso.
(falta aqui um smile com os olhinhos esbugalhados)

Tiago.
Muito sinceramente e sem camisolas, deixemos os jogos de conversas de passado, de que fulano e sicrano fez isto e aquilo, de que o teu partido é melhor que o meu, etc. e vamos trabalhar para melhorar esta terra.
Há sempre lições a tirar do passado, mas o futuro por consequência do presente é irrepetível, portanto escusado será armarmo-nos em génios da bola.
Novas atitudes e debates de ideias precisam-se!
Até breve.

Tiago R. disse...

Demorou 4 anos, mas conseguiu finalmente perceber o que foi uma gestão camarária conjunta. Fico contente.

É claro que vamos continuar a trabalhar. Mas vai ser de certeza um trabalho muito mais difícil, até porque a "nova" equipa camarária, apoiada na maioria absoluta, se prepara já para paralisar alguns projectos e acções. E estou convencido que é essencialmente isso que fará durante o mandato.

Depois, daqui a 4 anos, haverá com certeza mais camisolas, caravanas e porcos no espeto para convencer os incautos e os que demoram a perceber!

RD disse...

O Tiago parece-me um pouco chateado. E com razão para estar! Então na sua opinião, como o povo é incauto e vcs não tiveram porcos no espeto não ganharam votos, mas todo o resto dos 4 anos foi muito bom.
Então quando ganharam mais 1000 e tal votos há 4 anos o que aconteceu? Tiveram porcos no espeto ou fizeram mais campanha?

Tiago R. disse...

Não digo que fosse tudo muito bom nestes últimos quatro anos. Mas foi suficientemente bom parra que as pessoas não fossem votar no PSD, mesmo com uma lista disfarçada de independentes. Não está certamente menos chateada do que eu.

O que se terá passado há 4 anos foi que se estava a terminar um mandato mesmo muito mau (contam-me) e os faialenses procuraram alguma coisa diferente. Até porque, ao contrário do PSD, efectivamente há 4 anos também não tivemos porcos no espeto.