segunda-feira, 16 de novembro de 2009

mar

(foto de Pedro Casquilho)
Todas as manhãs da minha janela vejo o mar. Vejo o mar e sinto, como tantos outros, esse chamamento selvagem, essa água salgada que nos corre nas veias. Vejo o mar, mais do que abismo, mais do que viagem. Vejo o mar-promessa. Vejo o mar donde viémos, mar onde fomos e onde se esconde ainda muito do nosso futuro. Não o Mar Português, mas o Mar-Portugal. País líquido onde infelizmente desleixamos tanto da nossa riqueza. Pátria azul que vendemos, milha a milha, por dez reis de mel coado de benesses europeias. Mar que não conhecemos, não estudamos, não aproveitamos, não protegemos, mas que nunca é esquecido nos discursos de ocasião de tantos dos nosso políticos. Discursos em dias como hoje, Dia Nacional do Mar, em que a auto-satisfação da promessa ou projecto anunciados, tentam apagar a ausência de medidas, de políticas, de visão. Discursos para obliterar as últimas décadas que vivemos, onde a estratégia europeísta destruiu a pesca, desmantelou a construção naval, demoliu a capacidade mercante, virou-nos, estranhamente, de costas para o nosso país azul, deixando-nos de mão estendida na periférica porta da europa longínqua. Todas as manhãs da minha janela vejo o mar e queria ver um mar diferente deste abandono que vejo. Queria ver um mar-recurso, parceiro protegido da nossa riqueza, estrada da nossa ambição, um mar que nos unisse, onde circulassem, acessíveis, os frutos do trabalho da nossa gente. Um mar-tesouro, onde os nossos cientistas, bem apoiados e equipados, estudassem as múltiplas formas da vida donde viémos e onde todos aprendessemos esta nossa dupla natureza sólida-líquida, de termos os pés na terra e o mar nos olhos. Todas as manhãs da minha janela vejo o mar.

5 comentários:

Rogério Paulo Pereira disse...

Caro Tiago,

Ao ler este texto fiquei na dúvida se seria um poema.
Concordo com quase tudo e é verdade que ainda não entendemos nem interiorizámos que 1/3 do Atlântico Norte é português.
Somos de facto um imenso país, de mar e por cumprir.

João Cunha disse...

Adorei a foto, excelente mesmo.

João disse...

Grande texto, as saudades das ilhas vieram à tona.
Só escreve uma coisa assim quem se deixou envolver pela bruma, pela magia e encanto dessas 9 ilhas.

geocrusoe disse...

A foto é espectacular e o texto diz grandes verdades... infelizmente, todo o potencial do mar de Portugal que desaproveitámos ou abandonámos a troco de migalhas europeias é um espelho do que fizémos em terra de Portugal

alsg disse...

Gostava de ter uma janela assim...