domingo, 31 de maio de 2009

igualdade, claro


Sendo um problema demasiado importante para que seja usada em jogos de política partidária, não posso esquecer que se não fosse o PS a questão já poderia estar resolvida.

Importa que o seja, de vez, lá como for. A qualidade da nossa democracia mede-se, em muito boa medida, pela capacidade de criar igualdade entre os seus cidadãos.

E você? Já subscreveu?

quantos mais serão precisos?

Ontem foram mais 70.000.

Quantos mais serão precisos para fazer entender a este Governo que não se pode reformar a Escola Pública sem os professores?

sábado, 30 de maio de 2009

diferenças

Ilda Figueiredo abdica de duplicação de salário de eurodeputado e desafia outros candidatos a optar

Então? Alguém mais está disposto a ter a mesma atitude? Ou preferem que se imponha um imposto europeu para financiar os salários (base) de 8.000 Euros?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

berluscada


A Editorial Einaudi, de Sílvio Berlusconi resolveu censurar o novo livro de Saramago "O Caderno", que reune diversos textos publicados no seu blogue.

Berlusconi não terá gostado das críticas que Saramago aí lhe dirige e proibiu a publicação, reagindo com a tolerância habitual dos medíocres tiranetes deste mundo.

Atitudes que nós portugueses conhecemos bem. Lembram-se das actuações de Sousa Lara e Santana Lopes durante o Governo de Cavaco Silva?

Berlusconi mostra a mesma parca inteligência de todos os ditadores: quando for publicado por outra editora "O Caderno" vai ser um sucesso de vendas!

Paz


Pese embora, por vezes, a política a mais, nas operações internacionais, o corpo de capacetes azuis, civis, policiais e militares, ainda representa a única esperança para muitas vítimas de conflitos em todos os continentes.

Desenvolvem não só programas de monitorização de cessar-fogos, actos eleitorais, operações de acantonamento e desarmamento, como também programas de desenvolvimento local, ajuda humanitária, formação, criação de infraestruturas, etc.

No ano de 2008, 132 homens e mulheres deram a sua vida
por este objectivo. Não temos o direito de os esquecer.

A arrogância das superpotências tem demasiadas vezes, ignorado, obliterado ou posto de parte a ONU, optando, como por exemplo no Iraque ou no Afeganistão, pela intervenção unilateral. Deixam, assim, por resolver problemas como a Somália, o Darfur, ou mesmo o esquecido Sahara Ocidental.

Mas, como a experiência destes últimos 50 anos prova à saciedade, só no âmbito de uma instância internacional como a ONU, através do diálogo e no respeito pelas regras do direito internacional é que é possível construir a paz entre as nações do mundo. Um obrigado aos homens e mulheres que andam por aí a construí-la.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

mar nosso


Na batalha pela gestão dos nossos mares, ao contrário de outras forças e vozes que derrotadas à partida, até porque aprovam o Tratado de Lisboa, e que vão prometendo tudo o que sabem que não irão cumprir, a CDU avança com a proposta arrojada de exigir o alargamento da nossa zona exclusiva.

Só partindo de uma exigência elevada, poderemos conseguir compromissos e negociações vantajosas. Uma postura que marca a diferença.

salário mínimo

Não podia deixar de assinalar o 35º aniversário da publicação do Decreto-Lei 217/74 de 27 de Maio que, pela primeira vez na história criou um salário mínimo em Portugal.

Nume época de grandes avanços este foi talvez um dos maiores e mais importantes direitos criados nessa altura.

A existência de um salário mínimo, algo que hoje nos parece tão natural e óbvio, permitiu arrancar uma grande parte dos nossos trabalhadores da miséria, e dar um mínimo de dignidade ao trabalho, revalorizando-o enquanto componente essencial da construção da riqueza do país. Hoje, infelizmente, em relação ao custo de vida, os actuais 472€ valem menos do que os 3.300$00 da altura. Dá que pensar...

O facto tantas vezes ocultado: foi o Primeiro-Ministro da altura o grande impulsionador desta lei. O seu nome: Vasco Gonçalves
.

Apesar da propaganda que sempre tentou demonizar o seu Governo, acusando-o dos piores crimes, a verdade é que este, como outros avanços sociais, como a criação do subsídio de férias, são da autoria do seu Governo. E a propaganda nunca apagará os factos.

[fotografia de Henrique de Matos]

quarta-feira, 27 de maio de 2009

o 28 de Maio e os comícios

83 anos passados da chamada revolução do 28 de Maio, que através de um golpe militar, liquidou a Primeira República e instaurou a Ditadura Nacional e, depois de 1933, o Estado Novo (ou o fascismo, para os mais desprevenidos), cito a mais recente publicação sobre a matéria (de Fernando Rosas e Outros) intitulada Tribunais Políticos: “Entre 1926 e 1974, existiram e funcionaram ininterruptamente tribunais especialmente criados para julgar o que a Ditadura Militar e o Estado Novo consideraram crimes políticos e sociais ou crimes contra a segurança do Estado”. Enquanto funcionaram, estes tribunais políticos do regime julgaram (e condenaram, na maior parte dos casos) 14.041 portugueses, cujos nomes aparecem referenciados nominalmente, um a um, na mesma publicação. A esmagadora maioria destes julgamentos punitivos, hoje obviamente ilícitos à luz do direito democrático (mas de cujos prejuízos físicos, morais e até mortais causados, nunca as vítimas ou seus familiares foram convenientemente ressarcidos pela Democracia), constituíam o culminar da intervenção da polícia política e incidiam sobre o exercício de garantias fundamentais dos cidadãos, proibição de partidos, associações e sindicatos livres, censura e repressão das mais diversas formas de expressão e de manifestação.

83 anos passados, há quem, desencantado(a) com a democracia portuguesa, e tendo de facto (forçoso é reconhecê-lo) boas razões para tal, exorciza os partidos, os “políticos”, ou as eleições e, em jeito de desabafo, clama por um novo Salazar. A esses apenas me ocorre dizer, falando metaforicamente e lembrando o aniversário da instauração do fascismo, que não é pelo segundo casamento estar a correr mal que se anulam as razões do divórcio do primeiro…

83 anos passados, há quem, opte pelo alheamento activo da coisa política e procure influenciar outros no mesmo sentido, proclamando como boa a sua desvinculação (e sugerindo a dos outros) de quaisquer responsabilidades pelos destinos comuns da sociedade. A esses, e porque a sociedade pressupõe, pela sua própria natureza, um mínimo de organização, apenas direi que seriam bem mais honestos se proclamassem o que verdadeiramente lhes vai na alma, isto é: “Deixa estar no poleiro os que lá estão, que eu assim é que me vou safando…”

83 anos passados, há outra vez quem, com altas responsabilidades políticas no país e com alta cobertura mediática, estou em crer que inadvertido(a) da própria lógica intrínseca, proponha (a brincar?) a suspensão da Democracia por uns meses, ou decrete de forma perfeitamente descontraída a era do fim dos comícios (quem diz dos comícios, diz das manifestações, e doutras coisas proibidas que os Tribunais Políticos julgavam, antes de Abril de 74).

A era dos comícios acabou para esses porque simplesmente, de tanto enganarem os seus participantes nos comícios anteriores, se viram incapacitados de convencer quem quer que seja a comparecer livremente aos comícios de hoje. Para outros, só não acabou porque, estando no poder, isso possibilita compor a plateia com a participação “voluntária” de muitos daqueles que ocupam cargos nas instituições públicas ou dos que não passam sem certos favores institucionais.

Mas, não estando no poder, só junta (de forma aliás inédita em campanha eleitoral) o número incontestado de 85.000 participantes num comício de protesto e luta, quem traz alguma razão consigo e não engana os que nele participam… E estes, por sua vez, sendo cidadãos tal como os outros de que falei antes, apenas recusam quedar-se pelo abstencionismo desencantado ou pela conveniência de serem apolíticos.


Mário Abrantes

terça-feira, 26 de maio de 2009

federalismo esquerdista

Mais um brilhante artigo de Filipe Diniz no Diário.info a pôr o dedo na ferida, de que não resisto a citar um trecho:

Sempre tão diligente a deturpar posições do PCP em público quanto em decalcar as propostas do PCP em privado, o Bloco de Esquerda (BE) descobriu agora que o PCP tem um projecto de «socialismo nacionalista». É uma forma perversa de, jogando com as palavras, manifestar o seu anticomunismo e juntar-se, de forma mais ou menos dissimulada, ao pensamento único sobre os caminhos da Europa. É também uma outra maneira de caricaturar o que constitui uma diferença intransponível entre o que são as posições do PCP em relação à UE e aquilo que o BE defende.

Porque, por mais palavreado com que o BE queira envolver a questão, o BE é federalista, tal como o PS e o PSD também o são. E o que procura desviar com a caricatura do «socialismo nacionalista» é que quem no quadro desta EU for federalista não está a defender outra coisa que não seja o reforço do domínio da «internacional capitalista» sobre as suas instituições.

Há quatro anos, o BE defendia uma Constituição Europeia elaborada por um Parlamento Constituinte. Desta vez recuou na formulação, não porque desistisse dela, mas porque receia os «profundos anticorpos» que a questão gera.

O deputado Miguel Portas, tão inactivo na intervenção no PE quanto viajante infatigável, vem, no seu jornal de campanha, embrulhar o projecto federal do BE «numa articulação entre cidadania europeia, com respeito pela componente Europa das nações». No programa de candidatura do BE a coisa é formulada como «uma refundação democrática e social do projecto europeu» passando, entre outros «pactos» e «cartas», por «um novo Tratado Europeu elaborado pelo Parlamento Europeu».
Merece a pena repetir: «elaborado pelo Parlamento Europeu»!



segunda-feira, 25 de maio de 2009

mais com menos


Lamenta-se que a edição online tenha resolvido nem colocar a foto do entrevistado no artigo. Silenciamentos? Yo no creo en las bruxas...

Destaca-se a afirmação de que os deputados comunistas trabalharam mais em prol dos Açores do que os deputados açorianos do bloco central. Na edição em papel, fundamenta-se com o número de iniciativas directamente relacionadas com o nosso arquipélago, entre relatórios, pareceres e resoluções:

Ilda Figueiredo e Pedro Guerreiro: 14
Paulo Casaca e Duarte Freitas: 6 (2 pareceres, 1 resolução, 3 relatórios).

Sendo que a quantidade não será tudo, penso que fica demonstrado quais são afinal os deputados "dos Açores" ou que, sem o ser, na prática defendem os interesses da Região. Afinal, mesmo pertencendo a uma família política de menor dimensão no PE, é possível fazer mais com menos.

domingo, 24 de maio de 2009

música para a semana que começa

A bela Norah e a sua bela voz a apontar o caminho.


ouro


Um dia histórico para Portugal e para o cinema português, apenas dias depois da morte de um dos seus maiores. Cruel ironia...

Boa João!

diz o roto ao nu

Luís Paulo Alves acusa o cabeça de lista do PSD de ser um dos rostos do centralismo

É pelo menos uma declaração descuidada. O centralismo de Vital Moreira não pede meças a ninguém e é certamente muito mais exacerbado do que o de Rangel, que se limitou a um mero pedido de fiscalização de constitucionalidade, que em última instância acabou por reforçar a legitimidade do nosso Estatuto.

Em todo o caso, PS e PSD estão de acordo e ambos têm razão na análise dos respectivos cabeças de lista. Para centralista, centralista e meio!

85.000

A CDU inaugurou ontem, de maneira espectacular, uma nova forma de campanha política, nunca antes realizada em Portugal, que reuniu em Lisboa, de acordo com os números dados pela comunicação social, mais de 85.000 pessoas.

Este formato de acção de campanha permite potenciar o que a CDU sabe fazer melhor: juntar as pessoas, mobilizá-las em torno de causas. E, também do ponto de vista político, deu um sinal muito preocupante para José Sócrates. Ali estavam dezenas de milhares de pessoas dispostas a darem o passo seguinte, necessário e consequente, na demonstração de descontentamento contra a sua política: apoiar a CDU e continuar com o seu voto os protestos que têm juntado muitas centenas de milhares de pessoas de todo o país.

A CDU irá ganhar o voto de todas as pessoas que têm participado nas manifestações? Provavelmente não. Mas tem o mérito de recolocar na agenda política o poder das ruas, a soberania das multidões, que são a base da nossa democracia. Esta é que é a verdadeira sondagem.

Há mais algum partido, coligação ou coisa híbrida que consiga fazer o mesmo?

Veja também as fotos da Marcha.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

socialistas ao mar

Deputados do PS / Açores viajam em Corveta da Armada portuguesa

Para o Partido Socialista não parecem existir fronteiras entre aparelho partidário e aparelho de Estado. Nem limites para a instrumentalização do segundo ao serviço do primeiro.

Tanto se utiliza a Direcção Regional de Educação do Norte para recolher imagens de crianças para tempos de antena como se "manda parar" uma corveta da Armada Portuguesa, para transporte e animado passeio (adivinho) dos deputados socialistas no parlamento Regional.

Apesar das dúbias e titubeantes desculpas do líder parlamentar socialista sobre o facto de corveta nem se ter desviado da sua rota (era só o que faltava, mesmo!), ficam muitas perguntas e enormes perplexidades: quem é que contactou o comandante da embarcação? A que título? As chefias militares tiveram conhecimento do passeio? A viagem terá sido gratuita? Se sim, está então a via aberta para todos os deputados de todos os partidos utilizarem para os seus fins pessoais o equipamento das forças armadas? Se não, então a nossa Armada dedica-se agora também ao transporte de passageiros?

Muitas dúvidas, mas algumas certezas. Da parte da Armada: não duvido que o comandante da embarcação vá incorrer no respectivo processo disciplinar por andar a usar os nossos navios para "dar boleias".

Da parte do PS: tratou-se de mais um episódio vergonhoso de instrumentalização do aparelho de Estado, demonstrativo da forma antidemocrática como vêm o "seu" poder.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

organicamente portugueses

(foto de Leonardo Braga Pinheiro - www.olhares.com)

A propósito do debate sobre o movimento independentista nos Açores, e sem querer entrar na discussão das suas peripécias e vicissitudes - discussão para a qual não me sinto minimamente habilitado e sobre a qual, tal como acontece com as gerações de açorianos mais jovens, quase nada sei - quero partilhar algumas reflexões.

Parece iniludível que o eventual apoio internacional à independência açoriana, nos idos de 75, foi sempre muito maior do que o seu verdadeiro apoio popular, que não só foi sempre inconstante e dividido, como volátil.

E penso que a razão disso reside no facto de, no mais profundo do nosso inconsciente colectivo, nós açorianos sermos organicamente portugueses. No facto de não se entender a portugalidade sem a açorianidade. O difícil processo de adaptação e sobrevivência nas duríssimas condições das nossas ilhas trouxeram ao de cima muito do melhor - mas provavelmente também do pior - das características distintivas dos portugueses.

Entre essas características avultam a adaptabilidade e o sentido imediato da sobrevivência. Depressa a necessidade da subsistência ensinou o agricultor a ir ao mar, o pescador a plantar a sua horta, a passar do pastel, ao trigo, à laranja, ao leite, à carne, à baleia, ao atum, ao goraz. Com a sua adaptabilidade os portugueses, e os açorianos, demonstraram sempre ser trabalhadores incansáveis, e como tal reconhecidos, do calor tropical da América do Sul aos frios polares do Canadá.

Nestas e noutras viagens, - destino de romeiros - e também nas viagens dos que visitaram e visitam o nosso arquipélago-no-centro-do-mundo ganhámos a vocação do universalismo, a vontade de receber o estrangeiro, de o acolher como um igual, de encontrar na diferença o regozijo da fraternidade de todos os homens. Sabedoria espontânea, quase inata, das nossas gentes, colhida nos ensinamentos do pescador da Galileia a quem chamamos nas nossas festas Santo Cristo, mas confirmada na comunhão de perigos e trabalhos, essencial à sobrevivência no duro vento das ilhas isoladas, sob este céu sempre belo e sempre inclemente. A vontade e o trabalho da comunidade que, enfrentando unida os piores cataclismos que a natureza criou, encontra a abundância, ainda que simbólica num mesa do Espírito Santo.

Provavelmente muito do melhor da natureza do povo português foi sublimado na dureza vulcânica da rocha açoriana.

E, a verdade, é que a palavra Pátria vai muito mais ao emocional do que ao racional e ao político. Portanto, deixo para outra ocasião o balanço materialista de ganhos e perdas num processo de independência açoriana, para dizer apenas que não se pode separar o que é um. Conservamos nos Açores parcelas estruturais da portugalidade. Não se pode entender o Povo Açoriano sem o que tem de genuinamente português.

E vice-versa...

desemprego para lá da crise

É já uma infeliz banalidade a lamentação sobre o crescimento dos números do desemprego, nomeadamente sobre os que acabam de ser publicado na estatística mensal do IEFP.

Deles, no entanto, destaco um número que, creio, merece reflexão: O facto de 39,7% dos desempregados alegaram que perderam o emprego por "fim de trabalho não permanente". Na prática, não renovação de contratos a prazo.

O que também significa que estes postos de trabalho continuam lá, só que agora ocupados por um novo trabalhador precário. E essa é a questão. Não desvalorizando a intensa destruição de postos de trabalho causados pela crise, uma parte significativa destes números têm a ver com a generalização (que se aproxima da absolutização) do trabalho precário. E essa, não começou em Setembro de 2008!

As empresas sabem assim que podem contar com uma multidão de trabalhadores desempregados, muitos deles altamente qualificados, que vão fazendo passagens breves e sucessivas pelo mercado de trabalho (veja-se também a percentagem de desempregados de curta duração). Isto permite-lhes, na prática, pagar sem preocupações os salários mais baixos possíveis e retirar quaisquer direitos laborais ou capacidade de reivindicação a estas pessoas.

É nesta camada pobre, sem perspectivas, poupanças, direitos ou influência social que estão a cair cada vez mais portugueses. É melhor começarmos a pensar na sociedade que estamos a criar, para lá do nevoeiro informacional da crise.

escravos da humanidade

"É usual esgrimir-se que só pode ser “do contra”quem não percebe a mística da Sorte de Varas e de todo o cerimonial envolvido. Como se para avaliar o bem do mal ou o mau do bom, fosse necessário ter certificado. Este solipsismo que exorta a ignorância alheia, refugiando-se na fidelidade a uma expressão performativa, artística, esquece que a fidelidade ao absurdo representa apenas outro absurdo. Admita-se que o acto de picar, de sangrar ferozmente o touro numa praça, possa ter uma sustentação artística, do mesmo modo que uma instalação plástica que expõe um cão faminto aos visitantes, com um aviso para o não alimentar. Em qualquer caso não estamos perante sofrimento retratado ou simulado, mas tormento vivo, vivido e a três dimensões, no momento em que o homem tira “férias em sê-lo” para em acto contínuo recostar-se no sofá, condenar a violência no mundo e clamar contra imoralidade dos jovens de hoje. Se uns classificam isto de arte, eu, pobre ignorante, dou dois nomes: no máximo, voyeurismo sádico; no mínimo, hipocrisia velada."
Não planeava retomar aqui o tema das touradas picadas, mas o texto de Paulo Jorge Gomes, publicado hoje no diário Insular é demasiado brilhante para ser ignorado.

Uma reflexão profunda, a recordar nos futuros debates sobre esta matéria.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

no pelotão da frente

Portugal entre os maiores exportadores do vírus


Ora finalmente um sector em que as nossas exportações dominam! Perante esta realidade e perante a evolução da epidemia no nosso próprio país, como é que é possível estar contra (ou hesitar, ou ter dúvidas) sobre a distribuição de preservativos nas escolas?

Estes números deveriam fazer empalidecer de vergonha as forças e partidos retrógados atrasaram durante décadas a introdução da educação sexual nas escolas e a distribuição de preservativos gratuitos. Daqui a muitos anos a Igreja Católica e estes movimentos ainda terão de fazer uma dolorosa reflexão sobre o seu papel no combate à difusão desta epidemia.

O atraso nas ideias de uns trouxe-nos o avanço na doença de muitos.

eles

Se um desempregado inscrito no fundo de desemprego, na semana das Festas do Senhor Santo Cristo e na anterior, não provou à Segurança Social que procurou emprego activamente, ou melhor, mesmo que o tenha feito, ou mesmo que tenha arranjado um gareto na instalação das luzes no Campo de S. Francisco, deixou de se apresentar na Segurança Social e de comprovar perante ela que continua desempregado, cessa de contar oficialmente para o número de desempregados, e a estatística de imediato dá conta disso mesmo, afirmando que o número de desempregados diminuiu (só este ano, além do número crescente dos apresentados, já há mais de 115 000 desempregados “desaparecidos” em todo o país...)

São assim as contas do nosso desemprego oficial. Mas as contas do nosso desempregado que começa a desesperar de procurar e por isso desiste de correr à procura do nada durante uns tempos, ou que, depois de muito procurar, apenas consegue garetos momentâneos aqui ou ali, são outras…bem diferentes dos números oficiais.

Somemos a estes os que têm trabalho precário ou a tempo parcial, os que vão à pesca, os que se vêem obrigados a vender a lavoura por tuta e meia, os que fecham a loja porque de um dia para o outro lhes nasceu um casino e um novo centro comercial ao lado, ou os que, concluída a obra, não sabem quando é que a firma para quem trabalham contratará uma nova (ou sequer se continuará a existir), e digam-me lá se convencem algum Deles a votar nas eleições para o Parlamento Europeu do próximo mês?

E por mais que as actuais orientações de política económica e social da União Europeia sejam, embora imperceptivelmente, as responsáveis pelo estado de degradação a que se chegou nessas áreas, qual Deles tem tempo, fé ou disposição para acreditar que vale a pena votar neste ou naquele partido para o Parlamento Europeu, estrutura esta que, além do mais, pouco se tem afirmado perante as pessoas (e na realidade) como agente efectivo na (re)orientação útil de políticas comunitárias?

Lá por ser um centralista (como os há também no PSD) que foi inscrito no Partido Comunista, o Dr. Mota Amaral escusava de ter mencionado preconceituosamente esta ex-condição partidária de Vital Moreira, pois no país, como o Sr. Dr. muito bem sabe, há muitos bons comunistas, como por exemplo Ilda Figueiredo, que não são centralistas. Mas será por Eles ouvirem o Dr. Mota Amaral, recomendar que nenhum açoriano deve votar no PS do centralista Vital Moreira, que Eles decidem afinal ir todos a correr votar no PSD?

Será por ouvirem dizer, como fez o 1º candidato do BE em visita à Região, que é necessário acabar com as vacas, que Eles vão mudar de opinião e tomar a iniciativa de votar BE?

Será por terem ouvido o Primeiro-Ministro a trocar tintas e renegar a consulta em referendo ao povo português sobre o Tratado de Lisboa, que Eles vão deitar para trás das costas os seus graves problemas e lembrar-se de ir votar PS?

Se a intenção de votar, da parte Deles, já não era muita, certamente que, com tais incentivos, vindos da boca e das acções de tão proeminentes responsáveis partidários, será quase nenhuma…

Dos ditos proeminentes, virão depois as lágrimas (de crocodilo) a propósito das abstenções, que Eles (os abstencionistas) apenas de relance eventualmente verão jorrar, enquanto mudam de canal televisivo…
Mário Abrantes

do optimismo eleitoral


Nunca percebi bem estes governantes que julgam ser sua missão pregar com toda a cegueira o optimismo mais serôdio e descabido. Será que julga assim instilar a tal "confiança", esse ingrediente metafísico e milagroso das nossas modernas economias?

No momento em que todos os indicadores são mais negativos do que nuca, talvez Teixeira dos Santos anseie que tenhamos finalmente batido no fundo e, de acordo com a lógica mecanicista que hoje se aprende e se ensina nas universidades, se siga a inevitável recuperação. Talvez repetindo-o frequentemente, o Ministro das Finanças tenha a esperança de eventualmente um dia acertar.

Até Outubro, vamos certamente ouvir ainda muitas vezes esta mesma profecia.

terça-feira, 19 de maio de 2009

a coisa complica-se

Empordef avança com providência cautelar

A empresa detentora dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo não se vai limitar a ficar de braços cruzados em relação à devolução dos 32 milhões de Euros já pagos pelo Atlântida.

Apesar das declarações optimistas do Secretário Regional da Economia no parlamento, este é um cenário que se esperava. A isto seguir-se-à, provavelmente, um longo e atribulado processo judicial de resultado incerto.

Não sei bem, como o resto dos açorianos também não sabe, de quem são as maiores responsabilidades, se de quem não construiu o que estava no projecto, se de quem fez um projecto inexequível, se de quem devia ter acompanhado e fiscalizado a obra e não o fez. E este é o esclarecimento que continua a faltar...

os Açores no centro do mundo

No dia 17 de Maio de 1919, o Capitão Albert C. Read e a sua tripulação de cinco homens a bordo do Curtiss NC-4, aterravam na cidade da Horta, naquela que viria a ser a primeira travessia aérea do Atlântico Norte.

Abriam assim caminho para o estabelecimento de rotas aéreas regulares que faziam escala obrigatória no nosso arquipélago. A bordo destes aviões chegaram e partiram pessoas, ideias, desenvolvimento, cultura e uma parte incontornável da nossa história.

o fim dos bairros sociais


Finalmente os nossos governantes começam a perceber que empilhar centenas ou milhares de pessoas com problemas sociais graves e baixos rendimentos em blocos de apartamentos, tantas vezes de baixa qualidade, normalmente isolados das cidades, é uma receita para o desastre. Partilho da opinião expressa na lúcida 1ª coluna do Diário Insular.

Se os fundos utilizados na construção de habitação social nova passarem a servir para adquirir e reabilitar imóveis degradados no centro das nossas cidades e vilas, poderemos estar perante uma mudança importante.

Uma mudança do ponto de vista urbano, mas também social, mais do que tudo importa acabar com a criação de guetos e permitir a diversidade social, a diversidade de estratos sociais, no centro das cidades. Ganha a reabilitação e protecção do património construído, ganham os pequenos comerciantes, ganha a segurança urbana.

Mas o realojamento em meio urbano é sempre um processo complexo, por causa da disponibilidade dos fogos, tipologias adequadas, etc. Esperemos que este anúncio não vá apenas no sentido de distribuir cheques-habitação, demitindo-se o Governo Regional de garantir directamente a reabilitação das habitações necessárias. Seria a maneira rápida de estragar uma boa ideia...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

actual

Poema de José Gomes Ferreira - Música de Fernando Lopes Graça

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


Há poemas e músicas que o tempo não esgota

assim já é democrático

Depois das críticas às faltas de transparência, seriedade e democracia no referendo irlandês que ditou a morte do Tratado de Lisboa, Luís Amado considera que agora, sim, o referendo em que os irlandeses serão mais uma vez convidados a aprovarem o tratado, será correcto e democrático, pois as sondagens dão vantagem ao sim.

Se as coisas não correrem bem e os irlandeses votarem errado, quantos vezes mais irão referendar o tratado? E, já agora, será que o PS voltará a prometer um referendo aos portugueses? Não acredito. Como diz Vital Moreira, tratam-se de matérias muito complicadas e o nosso povo, ignorante como sempre, ainda fazia asneira e rejeitava o belo desígnio europeu de Sócrates-Barroso.

Ainda vamos ver Luís Amado e José Sócrates, de mãos dadas em torno duma mesa de pé-de-galo a tentar ressuscitar o defunto Tratado de Lisboa!

nós europeus


Estamos definitivamente no pelotão da frente dos países que mais sofrem com a crise económica. Somos mesmo europeus!

Cai, com estrondo, o mito sempre propagandeado de que a integração europeia protegeria a nossa economia.

Torna-se incontestável, também a dimensão do erro que foi tentar orientar a nossa capacidade produtiva apenas para as exportações, em vez de se ter dinamizado a procura interna e lançado as bases de um sólido mercado interno.

Será que ainda vamos a tempo de mudar de rumo?

polemiko


Um projecto polémico, a todos os níveis, mas que pretende estudar, compreender, traçar rumos possíveis para a evolução da língua portuguesa, com a generalização deste tipo de linguagem estenografada das mensagens SMS. Não consegui evitar uma primeira reacção de algum choque perante a ousadia de "esseémizar" um dos grandes nomes da nossa literatura.

Desconfio sempre um pouco destas teoria que pretendem influenciar ou prever a evolução das línguas. Estas são organismos vivos e devem evoluir, com liberdade, claro. As recentes introduções de palavras de origem africana e brasileira são prova da vivacidade do português. As novas tecnologias certamente também terão contributos importantes para a evolução da nossa língua.

Mas lamentarei sempre todas as evoluções que nos façam perder partes importantes do nosso riquíssimo vocabulário, ou que tendam a uniformizar em demasia os estilos locais da utilização da língua.

Este é mais um campo onde a diversidade será sempre sinónimo de riqueza. Podemos orgulhar-nos do nosso português. Claramente uma das línguas do futuro.

sábado, 16 de maio de 2009

anedota

Afinal - e para grande e indisfarçável desgosto dos sectores da esquerda que obsessivamente ansiavam pela aproximação aos sectores mais "à esquerda" do PS - Manuel Alegre não sai do PS nem vai formar um novo partido.

Assume que há divergências e não vai integrar as listas para a AR (a reforma por inteiro como deputado já tem), mas fica-se pelo mero verbalismo crítico, pela crítica sem consequência. Alegre não passa dum ligeiro sorriso eleitoral no canto da boca de José Sócrates. Alegre é inofensivo. A sua atitude até cheira a medo de um mau resultado eleitoral!

Para uma determinada geração de jovens de esquerda é uma decepção. Para as gerações mais antigas, que conhecem Alegre há muito tempo, não é nenhuma surpresa.

pôr o mar a render

foto de Ricardo Alfredo Santos - www.olhares.com

Ernâni Lopes coordenou um estudo da empresa SAER sobre linhas de desenvolvimento estratégico para a economia portuguesa e propõe a criação de um Hypercluster do Mar, que pode ter potencial para vir a representar mais de 12% do nosso PIB.

Transportes, construção naval, pescas e mesmo exploração mineira poderão ser os sectores em que reside a chave do nosso desenvolvimento. A crise pode, apesar de tudo, ser uma boa oportunidade para abandonar a opção errada da orientação de Portugal como um paíse de serviços, para passarmos a ser muito mais um país de recursos.

Um estudo para se analisar atentamente. Parabéns ao Expresso pela sua disponibilização integral on-line.

democracia digital

Sem querer discutir quais foram os reais impactos da pressão exercida pelos blogues na discussão da questão da sorte de varas, penso que se lançou uma discussão muito interessante nalguma blogosfera açoriana sobre os papel dos blogues na participação democrática.

(alguns exemplos: no Açores SA, no Máquina de Lavar, no In Concreto ou no Fiat Lux)

É uma discussão que não é nova, que é realizada em muitos sítios e países, mas acho especialmente interessante que nos Açores a façamos não por importação, mas baseando-nos na nossa própria experiência de participação, que teve, pelo menos dois momentos altos nas mobilizações sobre a Fajã do Calhau e sobre a Sorte de Varas.

A discussão política na blogosfera tem vários pontos muito positivos. Como já por aí escrevi numa caixa de comentários, o facto de não conhecermos o autor, nem o seu contexto, em muitos casos, obriga-nos a pensar apenas nas ideias que defende, sem que os preconceitos que possamos ter sobre os seus posicionamentos e opções nos condicione. Como tal, pode corresponder a uma dose maior de racionalidade e, eventualmente, respeito mútuo.

Por outro lado, tende a nivelar os participantes. Aqui, somos de facto todos iguais. Não há autoridades reconhecidas, nem doutores, nem engenheiros e, uma vez mais, valemos apenas pela força das nossas opiniões. Por outro lado, ao divulgarmos a nossa opinião estamos a expor-nos à crítica, a abrir-nos ao debate.

Mas a questão central é a de recolocar a opinião individual do cidadão no centro do debate político. Porque, por trás do acto de criar ou frequentar um blog está o reconhecimento implícito de que todos têm direito a ter uma opinião e todas as opiniões são igualmente válidas. Há uma valorização da nossa própria opinião, que pensamos que merece ser ouvida. Isto é algo a que os partidos políticos, pela sua natureza colectiva e pela sua estrutura hierárquica têm dificuldade de se adaptar, mas que não podem definitivamente ignorar.

Agora, um dos grandes problemas, que provavelmente contradiz tudo o que atrás escrevi, é que a maior parte das pessoas não participa neste medium. A verdade é que os bloggers são apenas uma pequena parte da sociedade. E não podemos confundir a sua opinião com a opinião pública, no sentido clássico do termo.

E esta tem de ser a prioridade: pôr mais gente a aceder, pôr mais gente a participar. Para que a nova democracia digital de que estamos, objectivamente, a construir nunca se transforme numa oligarquia digital.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

bem pior do que se esperava

Ao contrário dos que diziam que a nossa "pequenez" económica nos protegeria dos vendavais económicos que assolam os países europeus, as novas previsões do próprio Governo assumem a esmagadora dimensão númérica da crise que atravessamos.

Os impactos sociais destes números já são claros para todos os que não se limitam a ver os telejornais das televisões oficiosas do Governo (a RTP, mas sobretudo a SIC) os encerramentos diários de empresas, as multidões nos centros de emprego, o abandono das actividades, a emigração.

Paradoxalmente, ou talvez não, os lucros da nossa banca continuam em alta. 533 milhões de euros no primeiro trimestre, qualquer coisa como 6 milhões de euros por dia. Sendo uma redução em relação a anos anteriores, pode-se dizer que não estão nada mal. Neste caso, ao contrário do título deste post, foram bem melhores do que se esperava!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

últimas varas



Quero terminar aqui esta série de posts sobre a sorte de varas com esta bela foto que mostra o touro, esse esplêndido e belo animal, no seu lugar próprio, no seu habitat, longe de faenas e crueldades, integrando harmonicamente o eco-sistema das nossa ilhas.

A minha primeira reflexão é numa nota positiva: a Autonomia cresceu, amadureceu, consolidou-se. Numa questão importante, que motivou paixões diversas não tivémos um resultado pre-definido por maiorias e lideranças. Podia ter havida mais, mas houve algum debate, a sociedade civil movimentou-se, tomou partido, organizou-se e manifestou-se. Isto é Democracia, e os Açores nalguns aspectos, não pede meças a ninguém.

Numa nota menos positiva, a existência de eventuais pressões menos claras e um peso grande da negociação de corredor, demonstram ainda tiques antigos no nosso parlamento. Por outro lado o resultado da votação demonstra que ainda há um longo debate para se fazer no seio da sociedade açoriana sobre os direitos dos animais. Esta é, se conheço alguma, uma questão fracturante e sobre a qual há uma divisão real de opiniões nos Açores. E esta divisão não me convida a efusividades insensatas.

varas quebradas

Finalmente! A proposta da sorte de varas acabou de ser chumbada no Parlamento com 26 votos a favor, 2 abstenções e 28 votos contra. Felizmente, ufa!
Se o resultado fosse ao contrário e a proposta passasse por apenas dois votos, seria sempre uma proposta derrotada. Este tema é demasiado fracturante para poder ser aprovado por vantagens marginais.
A democracia açoriana pode hoje andar de cabeça erguida.

um pouco menos açorianos

No debate na ALRA, ontem, os defensores da sorte de varas falaram de tudo menos do próprio conteúdo da proposta.

Ou seja, falou-se de touros de morte, de bandarilhas, de matanças do porco, de interrupção voluntária da gravidez e do crime ético de se comer carne, mas pouco se falou da própria sorte de varas.

Falou-se da idade média, de D. Maria II, da ditadura militar e do pós 25 de Abril, mas pouco se falou da actualidade.

Falou-se de Barrancos, Salvaterra de Magos, Sintra e Viana do Castelo, mas muito pouco se falou dos Açores.

A verdade é que, apesar dos verbalismos autonomistas, pouco se considerou a especificidade e a cultura próprias da nossa Região. E só podia ser esta a estratégia para quem pretende importar de fora modelos jurídicos e sortes de varas e tornar os Açores um pouco menos açorianos.

Esperemos que não seja mau presságio para a votação desta tarde.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

a incongruência, a gripe e outros agressores

Fugido de um laboratório norte-americano (provavelmente militar) o virus foi ao México e regressou a casa começando a vitimizar os seus próprios produtores. “A gripe suína já matou 53 pessoas no mundo”. Com este “já”, na notícia, está-se a contribuir para o pânico, universalmente lançado há cerca de um mês, o qual, por sua vez, fomenta a compra de vacinas aos milhões, num negócio altamente rentável para quem a produz (provavelmente também na América do Norte). Mas se dissesse: “Apesar do pânico lançado e do empolamento do perigo da gripe suína, esta, até agora, apenas provocou 53 mortes no mundo, enquanto a gripe comum já provocou, só este ano, mais de 1 500.” Esta outra notícia colocaria o problema de uma forma mais objectiva. No entanto, de entre as duas, como sabem, a escolha caiu sobre a mais incongruente...

Há outras notícias onde a incongruência, felizmente não colheria. Imaginemos esta: “O agredido matou a agressora na cama, com um martelo de pedreiro!”. Claramente o sucedido nesta semana foi antes o anúncio do julgamento de “um agressor que, com um martelo de pedreiro provocou a morte da agredida, enquanto esta se encontrava na cama”.

Todavia, quanto a agressões (particularmente militares), a congruência entre agredido e agressor, ao contrário do que aconteceu no caso anterior, nem sempre é facilmente detectável. Tal como foi noticiado: “Os terroristas do Hamas atacaram Israel com roquets, e os soldados israelitas, em legítima defesa, viram-se obrigados a entrar em território palestiniano para eliminar os atacantes”. Ou, como não foi noticiado: “Para se defenderem do cerco e do bloqueio israelita, os guerrilheiros palestinianos, a partir do seu reduto recorreram ao disparo de roquets artesanais contra Israel e estes, aproveitando-se do facto, invadiram toda a faixa de Gaza, ocupando-a militarmente, destruindo escolas e hospitais, e chacinando as populações.” Já a frio, um relatório independente feito por um grupo de peritos internacionais, esta semana divulgado, conclui que do lado palestiniano foram mortas 1400 pessoas, das quais 300 eram crianças e 100 eram mulheres, e do lado israelita morreram 4 civis. Este relatório conclui ainda que, além de crimes de guerra cometidos por ambas as partes, os israelitas cometeram crimes contra a humanidade e são suspeitos de crime de genocídio. Então em que ficamos? Quem é o agressor e o agredido? O criminoso e a vítima? Qual a notícia mais objectiva? E qual a mais incongruente? A que foi dada, ou a que não foi dada?

O Iraque é de momento a ilustração mais profunda e dramática das consequências da notícia incongruente e tendenciosa. Em nome duma mentira (que transformou convenientemente o agressor em agredido) um povo inteiro sofre o destino quotidiano da morte, da guerra e da fome, e os seus agressores mandados para o terreno (os jovens soldados norte-americanos), totalmente desorientados e sem convicções sustentáveis, acabam a matar-se uns aos outros, conforme notícia (bem objectiva…) de segunda-feira passada. Da incongruência inicial da notícia, passámos para a incongruência terrível da realidade.

Pelo país, em versão menos mortífera (felizmente), também se vão confundindo agredidos e agressores. Aproveitando a boleia do candidato socialista às europeias ter sido mimado no 1º de Maio, por vítimas da política do seu governo, com apupos e empurrões, vem agora outro agredido queixar-se, em entrevista ao Jornal de Notícias: “Também eu tenho sido vítima do PCP…” (José Sócrates)

Mário Abrantes

terça-feira, 12 de maio de 2009

liberdade de cobardia

Não consigo mesmo entender porque é que diversos grupos parlamentares na ALRA deram liberdade de voto aos seus deputados na questão da sorte de varas.

É porque, sendo uma questão sobre a qual as pessoas terão naturalmente diversas e pessoais sensibilidades, é também uma questão demasiado importante para que os partidos, enquanto organizações representativas, se demitam da maçada incómoda de terem de ter uma opinião.

Pois eu penso que, no nosso sistema democrático os partidos têm mesmo de ter uma opinião!

Quanto a PS, PSD e CDS, entendo que queiram preservar bases eleitorais de apoio, na Terceira e fora dela, tentando não se comprometer e, dentro da medida do possível, agradar a gregos e troianos.

Agora, a posição do BE ao conferir liberdade de voto aos seus deputados é que é perfeitamente inexplicável! Como é que um partido que se reclama de esquerda, que tem tido, nesta matéria, posições correctas e avançadas se demite assim de ter e emitir opinião?

É que amanhã, quando intervierem no Parlamento, Zuraida Soares e José Cascalho vão fazê-lo em seu nome individual. O BE enquanto tal, estará ausente da discussão.

Lamenta-se.

deselegâncias

Foi pelo menos deselegante a atitude de Luís Paulo Alves ao fazer uma intervenção de perfeita pré-campanha hoje no Parlamento.

Não querendo contestar o inalienável direito dos deputados se debruçarem sobre o que entenderem, também ninguém cai na inocência política de julgar que a sua intervenção sobre temas europeus nada tem a ver com o facto de ser candidato ao Parlamento Europeu nas listas do PS.

LPA não ficou muito bem na fotografia, até porque foi recordado, e bem, que afinal é o candidato lista de Vital Moreira que, como foi afirmado - e bem, mais uma vez - sempre foi um dos grandes inimigos da autonomia.

Também conseguiu que o recordassem que dificilmente a sua postura de defesa dos Açores poderá fazer vencimento perante o mesmo PSE que aplaude o Tratado de Lisboa que, entre outras maravilhas, fará com que os mares açorianos passem a ser geridos em exclusivo por Bruxelas.

A tudo isto, LPA pouco poderia responder e, inteligentemente, nem tentou. A coisa não correu bem...

touradas só na cama!


neste blog não picamos ninguém


E participamos do movimento lançado pelo In Concreto contra a sorte de varas nos Açores.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

o silêncio das varas

Tem sido elucidativo este estranho silêncio dos defensores da sorte de varas.

Para além da triste figura das assinaturas ilegíveis, que fazem com que ninguém saiba muito bem afinal quem são os subscritores da proposta, à excepção de Paulo Estêvão do PPM no seu blog, ninguém tem escrito uma palavra sobre o assunto.

Nenhum dos conhecidos apoiantes do projecto, como José Bolieiro do PSD, que há algum tempo escreveu sobre isto, ou Berto Messias do PS, voltaram a falar no assunto, desde o momento em que a proposta foi apresentada.

Imagino que seja difícil defender uma ideia contra a qual os açorianos estão esmagadoramente contra, ainda por cima a poucos meses de eleições, mas este assobiar para o ar, a ver se a coisa coisa passa discretamente, é verdadeiramente vergonhoso. Representa, para mim, o mesmo tipo de coragem de um toureiro que só toureia depois do touro picado, cansado e ferido. Nem merece mais adjectivos!

(imagem roubada ao In Concreto)

coragem, visão, coerência

Perante um défice de 1,84 biliões de dólares, a administração Obama reduz a carga fiscal sobre a classe média e as pequenas empresas, ao mesmo tempo que corta benefícios fiscais às grandes empresas e reintroduz um imposto máximo para as grandes fortunas.

A isto tem de se chamar justiça e cumprimento dos compromissos que assumiu com o povo americano.

A isto chama-se visão, pois só com a introdução de factores objectivos de justiça social e equilíbrio na distribuição de rendimentos é que se poderá vencer a crise.

Sobretudo, um gesto de profunda coragem aos enfrentar os interesses instalados que arruinaram a economia norte-americana.

Soubessem os nossos governos aprender com o exemplo...

a calúnia é grátis


Para Vital, a calúnia é gratuita e não precisa de provas. Com a normnal psicologia dos renegados, o seu único e principal alvo é, não podia deixar de ser, o PCP.

Mais valia ter dito: "Quero uma Marinha Grande só para mim!", porque o desespero em relação aos resultados eleitorais de 7 de Junho começa a ser notório e difícil de esconder.

domingo, 10 de maio de 2009

porque hoje é domingo: coisas que valem (mesmo) a pena

Ao domingo lembro-me das minhas responsabilidades: a minha sobrinha merece um mundo melhor do que este.

credibilidades

"Eu vou ao Parlamento Europeu só assinar o nome" disse Elisa Ferreira.

Com esta credibilidade das candidaturas, com esta solidez dos projectos, com esta quantidade de candidatos-fantasma e de candidatos-de-tem-de-ser-por-causa-das-quotas, ficarei surpreendido se a abstenção nas eleições para o PE for inferior a 80%.

Enganem-nos, estamos habituados, mas ao menos não insultem a nossa inteligência desta forma!

varas cravadas na autonomia

sábado, 9 de maio de 2009

alguém me explica?



Atlântico Line


Ponta Delgada - Horta: 270 kms - 98 Euros por passageiro, 111 Euros por automóvel.




Intertours


Funchal - Portimão: 900 Kms - 75 Euros por passageiro, 100 Euros por automóvel.


Por mais que me esforce não consigo compreender...

Europa são eles

O PSD Açores acaba de lançar um blogue sobre a candidatura ao Parlamento Europeu da Maria do Céu Patrão Neves chamado "Somos Europa" com a estilosa terminação .EU e tudo!

O blogue começa com uma breve e lacónica mensagem de encorajamento de Duarte Freitas. Será o famoso humor negro social democrata?

Acho também péssima esta forma de iludir os eleitores (na qual os média cooperam activa e entusiasticamente, diga-se) que é a de fazer crer que há candidatos dos Açores ao Parlamento Europeu. Tratam-se de listas nacionais e todos os deputados portugueses (que agora são só 22, com o acordo de PS e PSD!) representam os Açores. Quanto mais enganarmos as pessoas, menos vontade elas terão de votar nestas eleições.

Não consigo ignorar a semelhança óbvia com o "nós europeus" do PS, nem deixar de pensar que é significativa... Que obsessão esta a do centrão (ou será que já posso dizer bloco central?) em relembrar-nos da posição geográfica que ocupamos há nove séculos!

Na hora de os eleger para irem de férias (bem) pagas para Estrasburgo, somos europeus.

Na hora de privatizar as nossas empresas e serviços públicos e os entregar ao capital estrangeiro, somos europeus.

Quando se desregulam as relações laborais e se agrava a precariedade e insegurança no emprego, somos mais europeus que a maior parte dos europeus.

Ao desmantelar-se a nossa agricultura, ao acabar-se com as quotas leiteiras que protegiam os nossos produtores, somos europeus.

Na hora de vermos os mares dos Açores a serem geridos por Bruxelas, ao serviço das grandes frotas de pesca industrial dos países do norte, destruindo os recursos que são o sustento dos nossos pescadores, somos europeus.

Mas, quando chega o fim do mês e olhamos para o recibo de vencimento, percebemos que na verdade não passamos de açorianos!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Rangel

As sondagens valem o que valem, mas creio que a subida do PSD é inseparável da figura de Paulo Rangel.

Pese embora as enormes discordâncias ideológicas, tenho de reconhecer que Rangel já há bastante tempo se vinha afirmando como, um orador excelente, um político inteligente, credível, bem preparado sobre os assuntos, em suma: um parlamentar temível. E penso que tem conseguido com brilhantismo fazer a transição do discurso parlamentar para o discurso de candidatura, afastando-se do tom tecnocrático do hemiciclo e encontrando formas simples e inteligentes de comunicar mensagens que, creio, têm passado bem.

Talvez por isso os seus adversários, Manuel Pinho recentemente e Vital Moreira em pleno debate televisivo, se vejam forçados a recorrer ao insulto contra Rangel, que não conseguem vencer pela argumentação. O PS tem razões para estar preocupado. Há muito tempo que não saía de S. Caetano à Lapa ninguém com este nível.

Até onde é que Rangel poderá chegar? Junho dará pistas e Outubro o dirá.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

apoiar quem estuda

A proposta do PCP que visava criar um regime excepcional de isenção de propinas no ensino superior foi hoje chumbado no Parlamento. Também outras propostas semelhantes da restante oposição foram chumbadas pela maioria cega e obediente.

Era uma proposta que fazia todo o sentido até porque milhares de jovens estão a abandonar as faculdades devido a dificuldades financeiras. As propinas são uma gota de água no orçamento das Universidades, mas fazem muita diferença a quem está a estudar, ainda para mais nestes dias de crise e desemprego.

Mas, se calhar, mais perto das eleições legislativa o PS ainda aparece com um projecto igual...

Fica o registo da boa intervenção de Miguel Tiago, um dos mais jovens, senão o mais jovem, dos deputados na Assembleia da República.

amigos da águia


Para garantir que Portugal não iria reagir perante a invasão indonésia de Timor-Leste, os EUA não hesitaram em recorrer a todos os meios, entre os quais financiar grupos marginais independentistas, e usá-los como sinistra moeda de troca para garantir o silêncio português perante os crimes indonésios contra o povo de Timor-Leste. É o que já se sabia, mas agora com provas vindas dos próprios norte-americanos.

Uma lição para os que teimam em confundir a amizade com o povo americano, (que acolheu e acolhe milhares de açorianos), com subserviência à administração americana que, nesta como noutras matérias, não esteve objectivamente ao nosso lado e não hesitou em utilizar a nossa amizade para os seus próprios fins.

crueldade não é tradição

video

quarta-feira, 6 de maio de 2009

a cassete

O presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP) apontou hoje a moderação salarial como "uma exigência absoluta" em Portugal"

José António Barros Presidente da AEP não abandona a velha cassete da moderação salarial. Demonstra bem a cegueira de muitos dos nossos empresários que, num dos países da UE com salários mais baixos, pensa que só pela via da redução salarial pode aumentar a competitividade das suas empresas.

Modernização, especialização, aposta na qualidade, ou valorização tecnológica, não é com eles. Com capitalistas destes, não há mesmo capitalismo que funcione!