segunda-feira, 30 de novembro de 2009

estratégia zero


Agora o que não é aceitável é termos de ouvir a líder do BE Açores, no debate realizado na 6ª feira à noite na RTP Açores, a discursar sobre as importantíssimas propostas que o BE fez para o Plano de 2009, mas que não se preocupou em repetir para o Plano de 2010. Como se para a pobre inteligência dos açorianos bastasse parecer que se faz alguma coisa, nada fazendo efectivamente. Com esta cortina de fumo comunicacional se tenta ocultar a nulidade política de quem pensa que bastam umas frases sonantes para se ir iludindo o número suficiente de eleitores para garantir um confortável posto parlamentar. Até quando?

Mas, afinal, para o Orçamento, o BE sempre apresentou uma proposta e foi aprovada e tudo! Trata-se de uma regra que permite ao Governo Regional privatizar empresas regionais sem que o tenha de discutir no Parlamento. A proposta do BE foi a de que o Governo só o possa fazer se não se tratar de um sector "estratégico" para os Açores. E quem é que define o que é que é um sector "estratégico"? Esse mesmo Governo! Profundíssima intervenção política, é mesmo o que se chama um fato por medida para a aprovação socialista.

Com este nível de intervenção parlamentar "estratégica", a esquerda nos Açores ainda tem mesmo um longo caminho a percorrer.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

mais longe, mais alto

Os artigos de Cláudia Cardoso no AO surpreendem sempre pela escrita escorreita e agradável, mas sobretudo pela lucidez apaixonada. O artigo de hoje (infelizmente ainda sem link) vai mais longe, mais alto, com palavras que para lá de nos falar, nos tocam fundo, tocam dentro, e fazem as diferenças políticas que me separam de CC parecer verdadeiramente pequenas e vãs. Obrigado.

odeio ter razão



Como escrevi no post anterior, outras empresas da construção civil dos Açores iam começar a passar rapidamente por dificuldades sérias. Só não esperava que a dimensão do problema se tornasse óbvia tão depressa.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

trabalhar nas obras


Numa semana em que soubémos que para além do Hotel das Furnas, há já mais duas empresas que pretendem reduzir a actividade, o DI anuncia que os trabalhadores de uma empresa do sector da construção na Terceira estão sem receber desde Agosto. Agosto!

Supostamente o problema relaciona-se com atrasos de pagamentos de Câmaras Municipais, mas tenho para mim que o fundo do problema é outro: temos nos Açores, como em Portugal, um sector da construção civil sobredimensionado que nasceu na senda quer dos processos de reconstrução após sismos, quer na de um modelo de desenvolvimento económico assente em grandes obras públicas, alimentadas com fundos europeus. Um modelo insustentável que teria, sempre, de resultar nesta situação mal se começasse a fechar a eurotorneira dos milhões.

Esse tempo acabou e agora temos um problema sério. A construção emprega uma parte muito significativa dos trabalhadores açorianos. E emprega-os normalmente mal: precários, sem direitos, com elevadíssimos níveis de sinistralidade, baixos salários, baixíssimas qualificações. As situações de falências e problemas financeiros graves nas empresas de construção vão continuar a suceder-se e vem aí mais uma horda de novos desempregados, a que não sabemos muito bem o que fazer.

Isto é verdadeiramente triste: não temos nada para oferecer àqueles que, com o seu duro trabalho, construiram esta modernidade que damos por garantida e de cujos braços nasceu muito do nosso progresso. Que raio do mundo andamos a criar?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

planear e orçamentar

“O crescimento da produção tem, nas actuais circunstâncias de recessão internacional, maior sustentação potencial em factores internos que própriamente na intensificação do comércio de bens e serviços…”;

“Acelerar o crescimento da produção potencial, é uma condição para reequilibrar a procura…”;

“A prioridade é para o fomento do emprego e o apoio à actividade empresarial…”;

“A promoção da competitividade das empresas e dos territórios, ao nível da agricultura, deve ser executada de forma ambientalmente equilibrada e socialmente estável e atractiva…”;

“Na saúde, prevê-se a consolidação da rede de cuidados continuados e nos transportes terrestres, a implementação de tarifas sociais, prosseguindo-se o objectivo de redução de tarifas em todas as vertentes do sistema de transportes marítimos e aéreos...”.

Linhas soltas, respigadas da proposta de Plano Anual, esta semana em discussão na Assembleia Legislativa da RAA, as quais primam pelo acerto do diagnóstico e de soluções que se impõem para os Açores.Todavia, “esmiuçando-as”, o que se nos depara?

A continuidade do investimento estratégico no comércio de bens e serviços, que persiste como suporte estrutural da economia regional, e o muito forte investimento previsto para a cessação da actividade agrícola (e piscatória), bem como para o resgate leiteiro, que compromete significativamente, a este nível, o potencial de produção, a atractividade e a estabilidade social no sector;

A diminuição acentuada do investimento previsto para o fomento do emprego e qualificação profissional, sem que, nesta área, esteja definida (e testada) uma política específica e sustentada pelo investimento directo da Região (exemplo flagrante: a dotação simbólica para o Plano Regional de Combate ao Trabalho Precário);

A Rede Regional de Cuidados Continuados, que afinal se fica pelo projecto, ou as tarifas sociais nos transportes terrestres, que se apresentam totalmente indefinidas. A mobilidade dos açorianos, em transportes aéreos mais acessíveis, que fica à espera de melhores dias, devendo eles (os açorianos) satisfazerem-se para já com a isenção das taxas aeroportuárias de escala;

O apoio às empresas, que entretanto está sendo muito útil à Banca, enquanto elas (as empresas) vão regionalizando o milagre do lay-off. O micro-crédito e o apoio às empresas artesanais, que se fica pelo símbolo…

Com estes exemplos apenas pretendi dar o meu fraco contributo (subjectivo, claro) para a distinção entre dois conceitos: Planear e Orçamentar! Fica-me apenas a dúvida se a distinção que fiz se trata de uma distinção canónica, ou simplesmente circunstancial…O Leitor dirá!


Mário Abrantes

terça-feira, 24 de novembro de 2009

trabalhar para aquecer


À primeira vista, óptimas notícias, e tinham obrigação de o ser. Só que, afinal, os estudantes vão trabalhar para as empresas "em regime de voluntariado", portanto sem receber um tostão. E, uma vez que o estágio é curricular, nem sequer têm grande escolha sobre serem "voluntários" ou não, nem onde. Para as empresas, um grande negócio: trabalhadores jovens e recém licenciados a custo zero!

O Reitor vai apelando à cooperação das empresas com a Universidade. Já se sabe que se pode sempre contar com essa boa vontade e elevada consciência social dos nossos empresários, desde que lhes traga mais lucros e não lhes custe um tostão. Aos jovens estagiários resta-lhes esperar por melhores tempos enquanto vão trabalhando para aquecer.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"wake up and smell the lay-off"


Primeiro lay-off nos Açores no Hotel das Furnas

Para os que eventualmente pensavam que a moda do lay-off não chegaria às ilhas, é tempo de abrir os olhos. Apesar de ter recebido benefícios e isenções fiscais, bem como incentivos directos, a empresa Asta, proprietária do Furnas Spa Hotel, que ainda nem foi inaugurado, pôs trinta trabalhadores em situação de lay-off.

Nesta situação, os trabalhadores verão o seu salário reduzido em trinta por cento. A partir daqui a empresa apenas paga trinta por cento desse valor, sendo os restantes suportados pela Segurança Social, ou seja, por todos nós. E ainda dizem se queixam os empresários de falta de facilidades!

Não se percebe muito bem como é que um hotel que ainda nem foi inaugurado pode ter uma redução temporária de actividade. Mas verdadeiramente inexplicável é que existam salários em atraso e, apesar disso, dá-se à empresa ainda mais esta benesse de poder por os seus trabalhadores por conta do Estado!

Afinal os apoios do Governo Regional servem para quê?

sábado, 21 de novembro de 2009

informar é isto

Mais um exemplo de grande fotojornalismo do Jornal Público, que tão frequentemente critico, mas a quem mais uma vez tiro o meu chapéu por ter publicado em primeira página esta foto de Nelson Garrido. Tenho a certeza que, nesta nescolha, não terá sido indiferente a opinião do meu bom amigo Sérgio Gomes.

A imagem consegue comunicar de maneira imediata, concreta e irredutível a dimensão do drama humano da situação dos trabalhadores da Rhode. Perante uma imagem como esta é impossível ficar indiferente. Informar é isto.

(já me esquecia de agradecer a foto ao Tempo das Cerejas)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

da tolerância na livre Europa


Agora gerido pela Presidente de extrema-direita, Letizia Moratti, o município de Milão revela bem todos os velhos sinais de intolerância, de vontade de varrer os "indesejáveis" para debaixo do tapete, que eram característicos do fascismo italiano (do qual a Moratti se assume saudosista), bem como do racismo puro e duro, em qualquer parte. As vítimas? São as do costume, as que sempre estiveram mais à mão de semear da xenofobia na Europa Ocidental: os ciganos. Um povo sem pátria e, ao que parece, ainda sem direitos.

Sim, acontece bem no centro da moderna, desenvolvida e democrática Europa. Sim, o assunto o foi esquecido pelas principais redacções dos média europeus. Há aqui uma lição a ser aprendida sobre a forma como os velhos tempos podem voltar depressa.

liberdade de expressão doa a quem doer


O processo em causa foi movido pelo anterior Presidente da ALRAA, Fernando Menezes. Em causa, a utilização da expressão "corrupção oficial" num editorial da autoria deste jornalista. Também por cá ainda há muita gente e muitos polí ticos que não percebem nem respeitam o conteúdo do direito à liberdade de expressão.

É que ela é isso mesmo: Liberdade. E portanto não condicionada. Falamos, então, também de liberdade de erro, de liberdade de falta de gosto, de liberdade de má educação, liberdade de escrever tolices, mesmo. Ainda para mais num artigo que é claramente assumido como sendo de opinião. Fazia-nos falta um Supremo Tribunal como o americano que, no famoso caso Larry Flint, consagrou esta liberdade de maneira muito clara e total. Doa a quem doer. Pessoalmente tenho as minhas opiniões sobre este jornal, mas estas questões não se relativizam.

O actual Presidente da Assembleia deveria retirar a queixa. A continuação deste caso envergonha o Parlamento. Pior: envergonha a Democracia Açoriana.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cândido ou os títulos do jornal Público

Ao ler o título da secção de economia do Público, onde nos afirmam que a "Economia acentua recuperação em Outubro", fiquei aliviado. Ufa! Estamos a ultrapassar a crise, pensei.

Imaginem, então a minha decepção quando ao ler a notícia, que se referia à Síntese Económica de Conjuntura do INE, descubro que a tal recuperação afinal era apenas uma "uma variação negativa menos acentuada do investimento".

Isto é: continuamos a rolar encosta abaixo, embora tenhamos abrandado ligeiramente. Ou seja, nem recuperação, nem acentuada. Com títulos destes se enganam os leitores e assim se vai fazendo o jornalismo optimista militante do Jornal Público. Lamentável!

a peça-chave

“…O empreendedorismo é peça-chave do progresso económico e social…”, em contrapartida, “…o conceito de emprego torna-se cada vez mais obsoleto…”! De um lado a “ousadia e a ambição”, que é necessário incentivar e premiar, do outro as estruturas arcaicas das relações de trabalho, que revelam “conformismo”, e é preciso rejeitar. Expressões e pensamento do Sr. Presidente da República, esta semana noticiados. Expressões e pensamento que nos assolam os ouvidos todas as semanas, vindos de muitas outras fontes, em especial daquelas que pretendem formar opinião e modelar consciências. Portanto, empreendedorismo e ambição, sim! Emprego, não! Lógica arrasadora…

Quem vai então tratar da educação, da saúde, do combate ao crime, da prevenção e combate às dependências, da fome ou dos idosos acamados, dos reformados ou das pensões de sobrevivência, das crianças desprotegidas (Já para não falar dos desempregados, que esses, segundo a tese, deixarão automaticamente de existir assim que acabarem os “empregos”…). Naturalmente, está-se mesmo a ver, vão ser os ambiciosos e ousados empreendedores, acometidos de súbita vontade autónoma de trabalhar para os outros e para o bem comum!!!

Quem vai tratar de acartar pedra, de construir casas, de recolher e tratar do lixo, de tratar das vacas, das matas e dos jardins, de semear e plantar as terras, de cozer o pão, de levar a água, a electricidade ou a televisão por cabo a casa de cada um, de arranjar as ruas e os passeios, de servir os clientes, de fazer as limpezas, de ir buscar o peixe ao mar? Está-se mesmo a ver, os ambiciosos e ousados empreendedores, que se satisfazem com quaisquer 350 euros por mês, acometidos de súbita vontade para praticar desportos radicais!

E assim, apenas subsistirão aqueles “empregos”, que até à data nenhum Presidente da República considerou obsoletos, reservados ao Banco de Portugal, aos Governos ou aos Conselhos de Administração da banca e das grandes empresas públicas e privadas. Com salários e reformas adequados, é claro…

Sim, porque (segundo a Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada - CCIPDL) ter de pagar mais 5% de acréscimo ao salário mínimo a quem ganha em média menos 10% que os seus pares do Continente - os “empregados” açorianos - é um desastre para os ambiciosos e ousados empreendedores que, volto a lembrar, são “peça-chave” do progresso económico e social. É indispensável, portanto, acabar rapidamente com isso, sob risco de vermos totalmente sufocado o tecido empresarial regional.

Mas se, pela boca do próprio Presidente da CCIPDL: “…o que acontece neste momento é que as condições económicas estão degradadas porque a procura agregada está degradada…”, então somos forçados a concluir, pelo absurdo, que se dermos mais uma machadada nos salários, curamos o doente e resolvemos o problema da tal “procura agregada”(?).

Acabe-se com os salários e os empregos, substitua-se cada trabalhador por um ambicioso e ousado empreendedor (a recibo verde, por exemplo), e aqui está a chave para acabar com as condições económicas degradadas (tipo fazer sair o euromilhões a cada um dos apostadores)…

Quanto aos ambiciosos e ousados empreendedores já instalados no mercado, como a hotelaria e a construção civil, o Casino ou o BANIF (herdeiro bastardo da banca regionalizada), agradecem uma ajudinha do orçamento público e, seguindo os bons preceitos geradores do progresso económico e social, dos quais são religiosos adeptos, vão atrasando ou mesmo esquecendo o pagamento dos salários, ou livrando-se dos seus “obsoletos empregados”.

Mário Abrantes

terça-feira, 17 de novembro de 2009

a juventude de Saramago

José Saramago, 87 Anos from Fundação Jose Saramago on Vimeo.



No dia do seu 87º Aniversário, Saramago continua jovem na obra, no espírito e nos seus leitores. Por muito que custe aos Sousa Laras deste mundo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

mar

(foto de Pedro Casquilho)
Todas as manhãs da minha janela vejo o mar. Vejo o mar e sinto, como tantos outros, esse chamamento selvagem, essa água salgada que nos corre nas veias. Vejo o mar, mais do que abismo, mais do que viagem. Vejo o mar-promessa. Vejo o mar donde viémos, mar onde fomos e onde se esconde ainda muito do nosso futuro. Não o Mar Português, mas o Mar-Portugal. País líquido onde infelizmente desleixamos tanto da nossa riqueza. Pátria azul que vendemos, milha a milha, por dez reis de mel coado de benesses europeias. Mar que não conhecemos, não estudamos, não aproveitamos, não protegemos, mas que nunca é esquecido nos discursos de ocasião de tantos dos nosso políticos. Discursos em dias como hoje, Dia Nacional do Mar, em que a auto-satisfação da promessa ou projecto anunciados, tentam apagar a ausência de medidas, de políticas, de visão. Discursos para obliterar as últimas décadas que vivemos, onde a estratégia europeísta destruiu a pesca, desmantelou a construção naval, demoliu a capacidade mercante, virou-nos, estranhamente, de costas para o nosso país azul, deixando-nos de mão estendida na periférica porta da europa longínqua. Todas as manhãs da minha janela vejo o mar e queria ver um mar diferente deste abandono que vejo. Queria ver um mar-recurso, parceiro protegido da nossa riqueza, estrada da nossa ambição, um mar que nos unisse, onde circulassem, acessíveis, os frutos do trabalho da nossa gente. Um mar-tesouro, onde os nossos cientistas, bem apoiados e equipados, estudassem as múltiplas formas da vida donde viémos e onde todos aprendessemos esta nossa dupla natureza sólida-líquida, de termos os pés na terra e o mar nos olhos. Todas as manhãs da minha janela vejo o mar.

é pura autocrítica

O artigo de opinião do Secretário Geral da JSD, Rómulo Ávila, hoje publicado no AO é, como habitual, bem escrito e escorreito, mas revelador do percurso habitual dos jotas dos partidos do centrão.

Porventura contra a intenção do autor, a história que nos conta assenta que nem uma luva não apenas aos que pretende criticar, mas também a muitos membros da sua própria organização.

E é um problema estrutural de PS e PSD: É-lhes absolutamente necessário criticar o adversário, mas a crítica, habitualmente, acaba sempre por denunciar o que eles próprios são: duas faces da mesma moeda, dois modos da mesma política.

sábado, 14 de novembro de 2009

anti-social


O facto de acharem que o seu principal problema é o facto dos trabalhadores que nos Açores recebem o salário mínimo receberem um complemento de 5% (22,5€ actualmente. Que fortuna!) mostra que muitos dos nossos empresários nada aprenderam com esta crise e que continuam como sempre foram: pouco informados, renitentes à mudança e à inovação, eternamente dependentes do subsídio e da obra-pública. Ao que ainda poderíamos somar pouco inteligentes. É que se se reduzir ainda mais o poder de compra dos açorianos, o que é que acham que vai acontecer às empresas? Aliás, a começar pelas pequenas e médias, aquelas que são afinal o suporte das Câmaras do Comércio que os seus dirigentes deveriam defender...

Mas, sobretudo, demonstra a gigantesca insensibilidade e egoísmo anti-social de uma classe protegida que foi sempre habituada à ideia de que sacrifícios são só para os outros. Com capitalistas destes é que de certeza não há caapitalismo que funcione!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

todos amigos

Fumo branco na Câmara de Angra


Como se previa, o fait-divers político na Câmara de Angra depressa ficou resolvido a contento de todos os participantes.

O PSD consegue um lugarzinho nos serviços municipalizados e o CDS outro, na CulturAngra. A salomónica decisão de Andreia Cardoso demonstra bem como estes três partidos, se entendem rapidamente e com facilidade, quando se trata de repartir as benesses do poder. Afinal, o seu único objectivo.

obviamente demita-se


As recentes revelações do jornal Sol, com base nas escutas a Armando Vara, vêm mostrar a face oculta do nosso Primeiro-Ministro. Não apenas as mentiras no Parlamento, mas também os escuros financiamentos da campanha socialista, envolvendo bancos, grupos empresariais e celebridades.

Em qualquer outro país do mundo, o PM já se teria demitido. É que o facto de ter havido legislativas recentemente não lhe devolve as condições políticas que já não tem para o cargo que ocupa. Nem esse cenário obrigaria a novas eleições. Tivesse Sócrates uma gota de dignidade ou coluna vertebral e teria entregue hoje mesmo a demissão. Caso não o faça, a possibilidade de uma moção de censura ao governo impõe-se com toda a justiça.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

e não se pode exterminá-las?

Quebra na produção de queijo dos Açores

Enquanto cai a quantidade do nosso produto de maior especialização e valor acrescentado, aumenta a quantidade de leite embalado e leite em pó (!!!), produtos indiferenciados, para consumo em massa, nos quais pouco importa se a origem é dos Açores, da Polónia ou do Burkina Faso.

Porquê? É a ditadura do comprador e das enormes centrais de compras das grandes superfícies. Seria caso para perguntar, como Karl Valentin, "e não se pode exterminá-las?"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

muros

Celebração da Europa reunificada. 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim. Vá-se lá saber porquê, mas foi uma festa desproporcionada, bem superior e mais internacionalmente emoldurada que aquela outra, já corriqueira (?) e humilde, da celebração do armistício que pôs fim à mais violenta, sangrenta e mortífera guerra suportada pela humanidade (e pela Europa em particular): a 2ª Guerra Mundial...

A festa foi grande e bem publicitada, apesar de comemorar resultados bem mais discutíveis e abstractos, para a Paz e para o futuro da Europa, que os da Grande Guerra. Gente importante mostrou-se aos olhos do Mundo, mas o povo não se lhes juntou nas ruas a comemorar esta outra paz proclamada…

Bem pelo contrário, no mesmo dia do festim da queda dos dominós gigantes em Berlim, uma sondagem (segundo notícia insuspeita de um correspondente da TSF) concluía que os alemães de Leste consideravam a reunificação como um logro, confessando, a esmagadora maioria, que se sentiam bem na antiga Alemanha Democrática e (pasme-se), numa percentagem significativa, até defendiam a reconstrução do muro!

E o correspondente remata sem hesitações: No Leste da Alemanha, grassa hoje o desemprego, os salários são mais baixos e o PIB é apenas 1/3 do registado no lado ocidental do País.

Mas a surpresa maior ainda ficou por vir, tanto para este correspondente português, como para qualquer outro cidadão. Um seu colega, do Jornal o Público, captou da Chanceler alemã, em pleno afã comemorativo dos 20 anos da queda do Muro, um desabafo capaz de fazer gelar o sangue a qualquer maniqueísta, comum a tantos outros que por aí persistem a agitar a maldade do comunismo contra as virtudes do capitalismo: “Nem tudo era preto no branco na antiga RDA”…”Eu era feliz e não tenciono esquecer os 35 anos de vida que ali passei”. Palavras de Ângela Merkel, cuja família se mudou do lado ocidental para a RDA em 1954. Não, não me enganei, caro Leitor. A actual Chanceler alemã não foi mais uma das vítimas do regime que, ambicionando alcançar “o paraíso da liberdade”, saltou desesperada o muro para o lado de cá. Ela mudou para lá, para a boca do lobo, e sentiu-se bem durante 35 anos…

Adquirido que está que o sistema implantado na RDA e noutros países, ditos do socialismo real, apresentava erros estruturais e por isso mesmo fraquejou e sucumbiu às investidas do império ocidental, cheiram-me no entanto a balofas (ideológicas?) estas ganas de sobredimensionar a festa da queda do Muro. Cheira-me a aproveitamento demagógico para ofuscar os erros estruturais de um outro sistema, que alguns até entendem representar o fim da história, mas que se tem revelado padrasto da Paz e da Harmonia entre os Povos e as Nações, padrasto do progresso socialmente justo que merecemos e porfiamos.

Exemplos não faltam e veja-se apenas mais um: Os glorificadores da queda do muro na Europa, como símbolo de reconciliação e reunificação, não hesitaram, entretanto, em promover posteriormente a construção de outros muros tão ou mais insanos e cristalizadores de divisões como aquele. Falo-vos daquele que foi erguido entre Israelitas e Palestinianos, na Faixa de Gaza, e, chamando-lhe fronteira, daquele outro, construído entre o México e os Estados Unidos da América do Norte.

Para lembrar que existem, e para que caiam depressa…

Mário Abrantes

Angola

Em dia de efemérides, não podia deixar de assinalar hoje o 34º aniversário da independência de Angola. A 11 de Novembro de 1975 Portugal perdeu um povo escravizado e ganhou um país irmão de homens livres.

E, a propósito da data, nada mais adequado do que um poema do seu primeiro Presidente, o grande Agostinho Neto:

Havemos de voltar

Havemos de voltar
Às casas, às nossas lavras

às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

Às nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar

Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente

Agostinho Neto

jota

Imperdoavelmente (devo estar a ficar velho...), deixei escapar ontem o 30º Aniversário da JCP.

Aprendi (aprendo), na JCP, coisas tão importantes como a amizade, a entrega, o trabalho, a organização, a camaradagem indefectível e inquebrantável. Encontrei (encontro) gerações de jovens que dão o melhor de si próprios, o melhor da sua juventude a uma causa que é maior do que nós. É neste trabalho de crescer, de aprender e transformar, que nos transformamos e transformamos a vida. Parabéns JCP!

pôr os bancos na ordem (actualizado)

PCP propõe proibição de taxas nos levantamentos Multibanco

De tempos a tempos, lá vêm os responsáveis das instituições bancárias falar sobre a necessidade de cobrar taxas sobre as operações multibanco, para "compensar o custo de um serviço prestado". Muitos média, obedientemente, apresentam aos portugueses como um facto consumado e inevitável.

O nível de dependência dos portugueses do multibanco e o volume das operações tornam muito tentadora a imposição de uma taxa. Falamos afinal de muitos milhares de milhões de euros por ano. Se não a conseguiram aplicar ainda foi porque, afinal, precisam de unanimidade no sector, sob pena dos bancos que a aplicassem verem fugir os seus clientes. Como já por aqui se escreveu, tal só não aconteceu porque o maior banco português é público e não o tem permitido.

Mas é tempo de o estado assumir a importância que a rede multibanco tem para a nossa economia e relembrar que os portugueses são dos europeus que mais pagam pelas suas diversas operações bancárias e que, por fim, com crise ou sem ela, os nossos bancos sempre mantiveram lucros fabulosos.

É tempo de meter os bancos na ordem.

Actualização:
Via Ardemares, fiquei a saber que o PS Açores se prepara para apresentar uma proposta no mesmo sentido para a Região. Esperemos que seja um sinal de coerência política e signifique que, na AR, o PS aprove a proposta do PCP, sob pena de termos um país e um PS com dois pesos e duas medidas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Saramago sobre o desemprego


N'O Caderno de Saramago.

isto é política


PS, PSD e o seu pequeno satélite, o CDS-PP não parecem conseguir entender-se na Câmara de Angra do Heroísmo.

O que é que os divide? O projecto para o Concelho? A visão do futuro da cidade? As prioridades, os investimentos, as obras?

Nada disso! Este quase-incidente político tem apenas a ver com a repartição dos bem remunerados lugares nos conselhos de administração das empresas municipais.

Para estes partidos, política é isto.

construir a casa pelo telhado


Como se previa, o esforço de investimento público feito pelo Governo Regional na aquisição de habitações de pouco ou nada serviu, porque as empresas de construção usaram esses fundos directamente para amortizar dívidas. Portanto, como se esperava, 26 milhões de Euros seguiram directamente do bolso dos contribuintes para os cofres dos bancos, deixando as empresas basicamente na mesma.

Trata-se uma questão de estrutura produtiva. Desde os anos negros do cavaquismo que Portugal criou um sector de construção civil perfeitamente macrocéfalo. O desenvolvimento que tivemos foi de betão, integralmente dependente do investimento público e do financiamento bancário. E continua a ser assim, infelizmente, com o novo Governo a preparar-se para tentar alimentar a economia à base de obras públicas.

A existência de um sector da construção forte e activo seria um belíssimo sintoma de uma economia forte e saudável, se estivesse apoiado num consumo interno dinâmico e numa estrutura produtiva sólida que garantisse efectivamente emprego e rendimentos aos portugueses. Mas a realidade não é assim. Temos um sector sem base económica que o sustente, vivendo apenas do endividamento bancário e do financiamento público.

E enquanto não se alterar este paradigma, enquanto não se introduzirem mudanças muito significativas na estrutura do nosso sector produtivo, estas empresas continuarão a ser insustentáveis. É que, como os trabalhadores da construção bem sabem, não se constroi uma casa pelo telhado.

a banca

O contribuinte pagou pela nacionalização do BPN e vai pagar agora pela respectiva reprivatização, sem que tenha tido uma palavra sobre o assunto. Armando Vara, arguido, quiçá envolvido nalgum braço do polvo “face oculta”, esteve até agora no Millennium BCP. É esta a face de uma banca que o actual sistema político sustenta. Mas há uma face provavelmente mais oculta ou potencial da banca que nos passa despercebida (propositadamente?). Caro leitor sabe por acaso porque razão ainda não é obrigado a pagar uma taxa pelas operações que realiza com o seu cartão multibanco, apesar da cobrança dessa taxa constituir de há muito uma ambição para toda a banca privada portuguesa? Simplesmente porque existe uma instituição pública no sector - a CGD – que não alinha no esquema!

Choramingando, desejosa de cobrar aquilo a que chama um serviço, mas que só a ela traz ganhos, a banca privada vê-se forçada a reconhecer que a eventual cobrança dessa taxa deveria constituir uma decisão de TODA a banca, e que essa decisão teria de ser politicamente aceite. Ou seja, para falar claro: Enquanto uma só instituição bancária forte não alinhar no roubo, o roubo não se poderá concretizar. E como essa instituição ranhosa, além de forte, é pública, então só resta, como último recurso aos ladrões: pressionar o poder político…

Temos assim, e aqui, um exemplo flagrante e directo, embora infelizmente excepcional, de como pode ser vantajoso para o cidadão comum, que exista um sector bancário forte em que o capital esteja maioritariamente nas mãos (e sujeito às regras…) do poder público! E de que este poder, em lugar de capitular diante das pressões do poder económico, se deve (e, com este instrumento, se pode) sobrepor a ele, quando está em causa o interesse público.

Muitos economistas que analisam as causas da actual crise mundial, consideram milagroso o facto de, apesar da queda profunda das exportações e de os seus outros reflexos negativos se fazerem igualmente sentir na China, a economia deste país estar, mesmo assim, a crescer actualmente a uma taxa de 8%. Na tentativa de encontrar explicações para o milagre, alguns desses especialistas ocidentais referem uma característica diferente no sistema chinês: trata-se de um caso em que a maioria da banca é controlada pelo Estado e está a emprestar às pessoas, e aos pequenos negócios produtivos, em tempo recorde e com o mínimo de encargos, enquanto, a Ocidente, apesar das injecções massivas de capital público na banca privada, a crise do crédito aprofunda-se e os jogos financeiros renascem, falseando uma recuperação que ninguém sente…

Pense-se o que se quiser do actual modelo chinês, no caso concreto da banca como instrumento político e público de desenvolvimento e de combate à crise, o seu sucesso relativo está, no entanto, bem à vista, se analisarmos, em comparação, o que se está passando no modelo capitalista neo-liberal vigente a ocidente.

E bem melhor faria Sérgio Ávila se, em lugar de (locubrando), nos iludir sobre o carácter exclusivamente psicológico da crise nos Açores; sobre os montes de liquidez existente nas empresas açorianas, ou sobre o alto poder de compra das pessoas, para anunciar uma coisa sobre a qual o poder político regional pouco ou nenhum controlo actualmente possui, qual seja, a ultrapassagem da crise, nos anunciasse antes medidas suficientes de recomposição do sector bancário na Região com vista à restauração da sua componente pública, como medida efectiva, esta sim, de combate à crise que, por mais psicológica que seja na cabeça deste governante, realmente se mantém instalada e radicada nos Açores.

Mário Abrantes