quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

emissões de hipocrisia

A época está eivada de religiosidade e, mesmo os menos atreitos a esta, têm dificuldade em vivê-la sem que tal religiosidade os envolva. Quanto mais não seja apenas por fora, como papel de oferta (que, não só do ponto de vista comercial, diga-se de passagem, também abunda por esta altura…).

Talvez por isso, apesar de simpatizar mais com as de João XXIII, me tenha lembrado de respigar de Bento XVI uma interessante ideia-tese, enunciada na recente cimeira da FAO que decorreu no mês passado em Roma: “É preciso contestar o egoísmo que permite à especulação penetrar mesmo no mercado dos cereais, colocando a comida no mesmo plano que todas as outras mercadorias”. Diria que com esta ideia (em tese pelo menos) o Papa estabeleceu involuntariamente uma aliança objectiva com o pensamento marxista quando este, por seu lado, opina que só no socialismo é possível imaginar a existência da mercadoria tendo como fim imediato a satisfação das necessidades e não a obtenção do lucro. De facto, e sendo possível restringir a aplicação de uma economia socialista apenas à área alimentar, teríamos então o Papa a defender (e da forma mais rigorosa) o seu uso, para acabar com a fome no mundo. Simultaneamente, e por força de razão, porque a economia capitalista/monopolista é de momento global, compulsiva e militarmente dominante no planeta, teríamos o Papa a afirmar, e bem, que este tipo de economia é a responsável directa pelo alastramento da fome no mundo.

Ora, tendo em conta a gravidade relativa dos grandes problemas que afectam os humanos (particularmente a fome) é pelo menos de estranhar porque é que os dirigentes da comunidade internacional se estão empenhando na Dinamarca em sobrepor a todas as outras, as preocupações climáticas… Desconfio que seja porque, afugentando a consciência da gravidade do problema da fome e da miséria, e ao invés de procurar assumir, como dizia o Papa, que “a comida não deve estar no mesmo plano que as outras mercadorias”, os lideres internacionais estarão, sim, mais empenhados em enquadrar os gases com efeito de estufa, onde antes não se enquadravam, isto é, na categoria de mercadoria, em tudo igual às outras (produção de cereais incluída), como potencial geradora de lucros refrescados...

Mas fiquemos por cá onde a instabilidade social cresce, sendo detectáveis casos recentes de fome, miséria e perda de abrigo, ou índices elevados de mortalidade infantil, de marginalidade compulsiva, de desigualdades exclusivas (geradoras do aumento verificado da criminalidade), evidentes como um cúmulo assente em falências, desemprego, salários e trabalho inseguros e incertos (na construção civil ou na hotelaria), ou em endividamentos familiares, incentivados pela banca, mas agora irresolúveis.

Fiquemos pelo garrote à produção; pela criação de um fundo para o leite negada aos Açores pela União Europeia ou pela mais recente decisão da mesma entidade visando restringir a quota do chicharro. Fiquemos também pelos malbaratados dinheiros públicos; pelas doses imensas de vacinas contra a gripe A deitadas ao lixo, depois de pagas a preço de luxo; pela evasão e fraude fiscal, na ordem dos 40% da matéria colectável, e concluamos:

Num sistema, cuja própria crise actual serviu para revelar ao mundo a sua prioritária e desmesurada sustentação num curso contínuo de “dinheiro que corre para o dinheiro”, em que as funções do Estado só se alargam para prover a que a fonte desse curso não seque (enquanto se retraem em todos os outros sentidos mais necessários à satisfação das necessidades humanas), por melhor boa vontade que haja, nem a fome acaba nem há espírito de Natal que resista intocável à hipocrisia dos seus dirigentes que se preparam para daqui a uns dias o vir re-invocar em mensagens televisivas de final de ano…

Mário Abrantes

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

vai tu!

As declarações do Sr. Horácio Roque mostram também a forma desumana como os nossos capitalistas encaram os portugueses: se dão lucro, tudo bem. Senão, rua! Nada de ficarem por aí a gastar o dinheiro do estado em prestações sociais! Ideias ou rumos para superar a crise: zero.

Um país deixa de ser viável quando não consegue garantir aos seus cidadãos o direito de viverem condignamente no seu próprio território. Um banco também, quando tem um presidente deste calibre.

E se sugeríssemos ao senhor Horácio Roque que desse o exemplo e se pusesse rapidamente a andar?

na linha da frente


Entre os 30 países analisados no relatório da OCDE, com maior desemprego que Portugal, só mesmo Irlanda, Eslováquia e Espanha.

Um resultado inevitável da abertura imponderada da nossa economia e das "apostas estratégicas" de abandono dos nossos sectores produtivos tradicionais, em prol de supostas especilizações que nuca chegaram a acontecer. Com uma economia frágil e dependente como a nossa, que outra coisa seria de esperar? Os partidos políticos que nos governaram nos útimos 30 anos têm pesadas responsabilidades históricas para assumir.

Catalunha


Se, por um lado os esmagadores 95% do sim são reveladores, por outro, a abstenção superior a 70% também mostra o distanciamento de muitos cidadãos em relação ao tema.

Numa situação de relativa prosperidade económica, com um estatuto autonómico muito avançado, vendo os seus direitos respeitados e a sua cultura viva e valorizada, muitos catalães devem-se ter interregado sobre que sentido faria abrir velhas feridas e reacender um conflito político de consequências e resultados difíceis de adivinhar. No entanto, fica um sério aviso para os defensores da velha Espanha centralizada. Espanha tem ainda um caminho a percorrer para conviver saudavelmente com a sua própria pluralidade. Um caminho que terá de percorrer, ou desintegrar-se.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ainda se lembram de Portugal?

Muita coisa mudou na Europa com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa.

A data escolhida, 1 de Dezembro, dia da Restauração da Independência é cruelmente irónica. 369 anos depois de termos recuperado a nossa soberania integral, a nova aristocracia euro-histérica e eucrocrata dá vivas à entrega de partes fundamentais da nossa independência a organismos supra-nacionais.

Especialmente perigoso é o tal mito da legitimidade do Parlamento europeu por via da sua eleição directa. Fico preocupado quando ouço Luís Paulo Alves dizer que "de uma maneira geral, o parlamento reflecte melhor o interesse das populações do que o Conselho Europeu" porque, afinal, no Conselho têm assento os governos nacionais eleitos directamente pelos seus cidadãos. No Conselho o governo português tem de defender os interesses de Portugal, enquanto no Parlamento os eurodeputados acabam na maior parte das vezes por ir seguindo o sentido de voto das suas grandes famílias políticas, na qual os portugueses têm, obviamente, um peso marginal.

Portugal é mais do que uma ideia, uma história e um povo. É triste vê-lo a ser vendido desta forma.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

definitivamente, estamos mal servidos

A informação, quando não é isenta, releva (ou não releva) factos e acontecimentos segundo critérios jornalísticos que escapam à deontologia da profissão, visando, sob as vestes da sua simples condição, atingir capciosamente algo mais do que informar. Talvez por isso, sendo notícia aparentemente obrigatória e corrente, a das eleições que se vão passando pelo mundo, poucos terão sido aqueles que, assoberbados a digerir a informação relativa às eleições promovidas pelos golpistas das Honduras, se deram conta das eleições presidenciais ocorridas quase em simultâneo em outro país da América Latina, o Uruguai, bem como daquelas outras que, uma semana depois, atribuíram quase 2/3 dos votos descarregados (63%) a Evo Morales, na Bolívia.

De Evo Morales, defensor declarado do socialismo e o primeiro índio sul-americano a ser eleito Presidente, apenas se guarda, nesta Europa da livre informação, a imagem de um estadista debilitado, com uma forte e influente oposição, num país à beira de um golpe de estado. Os resultados de dia 6 do corrente, por revelarem um “status quo” bem diferente do anteriormente anunciado, constituiriam (julgo eu) informação de relevo, no entanto praticamente passaram despercebidos…

Quanto ao Uruguai, de facto, no passado dia 29 de Novembro, um ex- “Tupamaro” (movimento guerrilheiro dos anos 60), chamado José Pepe Mujica, actualmente com 74 anos e candidato de uma formação de esquerda, a “Frente Ampla”, venceu as presidenciais à 2ª volta.

Para lá de comentar o sussurro quase inaudível que nos chegou deste acontecimento, prefiro salientar, excertos do discurso subsequente do vencedor, na senda, aliás de outro ex-guerrilheiro - Nelson Mandela, após a sua vitória presidencial: “Não há nem vencidos nem vencedores, apenas elegemos um governo que não é dono da verdade, que precisa de todos. Ter votos a mais não significa que sejamos donos da sociedade, muito menos que a nossa verdade seja imaculada. O meu reconhecimento aos outros candidatos, nossos irmãos de sangue, a quem peço desculpa se em algum momento o meu temperamento de combatente fez a minha língua ir longe de mais. A minha saudação a todos os irmãos da América Latina que representam um continente que se tenta unir como pode.” E, apesar da maioria absoluta alcançada pelo seu partido, o novo presidente, mostrou-se totalmente disposto a assinar acordos com a oposição sobre temas como a Educação, Segurança, Energia ou Ambiente, e a partilhar com ela alguns ministérios do novo governo.

Salvaguardadas as devidas distâncias político-geográficas, e tendo em conta a actual situação nacional e regional, ou recordando certos discursos debitados após o nosso ciclo eleitoral recente, algum estimado Leitor esperaria por ventura ver sair da boca de um Cavaco Silva, José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Carlos César ou Berta Cabral, expressões com o mesmo sentido daquelas que atrás referimos? Mas, em minha opinião, é precisamente desse sentido humanista de raiz que o nosso comportamento e acção políticos estão carentes. É de uma outra envergadura político/partidária, não exclusivista, e de um verdadeiro espírito de servir que, sobretudo quando (como actualmente acontece) os tempos são de recessão e de instabilidade social, o País e a Região estão profundamente necessitados.

Definitivamente, estamos mal servidos…
Mário Abrantes

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

200

Ao contrário do Secretário Regional da Saúde, não me congratulo que haja "apenas" 200 casos de pessoas infectadas com SIDA na Região.

Pelo contrário, lamento o estigma, a discriminação, o abandono, a ignorância que se perpetua.

Pelo contrário, lamento o pouco apoio que têm para fazer face a despesas médicas esmagadoras, a situação económica em que são tantas vezes lançados.

Pelo contrário, acho que o Plano Regional de Combate ao VIH/SIDA vem com pelo menos uns dez anos de atraso e que vidas poderiam ter sido salvas se os nossos governos estivessem mais atentos ao problema.

Pelo contrário, prefiro prestar homenagem aos 200 lutadores que, dia a dia, lutam pela vida nos Açores.

Copenhaga pelo contrário

A Cimeira de Copenhaga até poderia ser uma oportunidade, mesmo, nas palavras dos mais catastrofistas, uma última oportunidade. Mas provavelmente não será.

A verdade é que o que se planeia na capital dinamarquesa é mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Os países mais industrializados pretendem manter o conceito de mercado de emissões, que embora estando a funcionar desde 2005, não tem conseguido reduzir o nível global de emissões, bem pelo contrário. Não sou só eu que o digo.

Este mercado, comercialização da destruição do nosso planeta, ao mesmo tempo que oblitera as responsabilidades históricas dos países industrializados, permite-lhes, por um lado, comprar o direito de poluir e, por outro, abrir-lhes as portas do rendoso negócio da transferência de tecnologias não-poluentes. A uns autoriza-se o lucro, a outros proíbe-se o desenvolvimento. As questões estão intimamente interligadas.

Por isso, a Copenhaga de que precisamos não pode ser apenas a demonstração de tíbias boas vontades e o derrame público de bem remuneradas lágrimas de crocodilo. Pelo contrário.