terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

a escada está partida

(Instalação de Elmgreen & Dragset no Kunsthall em Bergen, Noruega)

Educação dos pais determina salários dos filhos

Portugal é um dos países onde o nível educativo dos pais mais determina o destino escolar e o nível salarial dos filhos quando estes chegam ao mercado de trabalho. Ou seja, se um jovem tem pais que estudaram pouco, tenderá a ficar-se pelo mesmo patamar, conclui um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que analisa a mobilidade social entre gerações.

Esta é a face real da mobilidade social no nosso país. Factores como as despesas escolares e anexas e, sobretudo, a introdução de propinas no Ensino Superior determinam esta clivagem social, que caminha para um fosso social, um problema cujas consequências teremos de enfrentar mais cedo que tarde.

A democratização do ensino superior no 25 de Abril tornou a universidade o principal instrumento de mobilidade social. Procurava-se aumentar as qualificações para ascender socialmente. O rumo certo para o desenvolvimento do país. Hoje em dia, para a maior parte dos portugueses, essa escada está irremediavelmente partida. (Re)instituímos a desigualdade e rigidez da escala social de outros tempos. Este é um daqueles números que mostram como inegavelmente andámos para trás.

15 comentários:

Tibério Dinis disse...

Tiago R.,

o factor base não é esse. São os pais que não estudaram que não incentivam, não apoiam, nem acham os estudos uma prioridade para os filhos.

Por muito que se queira meter política neste assunto, não tem nada haver. Não tem nada haver com custos, mas a forma como os pais olham para a escola.

Prova disto são as reuniões de pais ou a entrega das notas, fala com professores e pergunta-lhes quais os pais que vão às reuniões e buscar as notas - são os pais que andaram na escola, os outros estão-se a lixar para a educação dos filhos. E ir buscar as notas ou ir a reuniões de pais nada tem haver com custos, propinas, etc.

Haja Saúde

Ana Martins disse...

Conheço muito pouco pais que não queiram que os filhos levem uma vida melhor do qeu a sua. Conheço poucos pais que não vejam na educação a oportunidade de o fazer.
Claro que sei de muitos pais que não podem assistir às reuniões de pais nem levantar as notas dos filhos porque estas coisas acontecem dentro dos seus horários laborais. Horários esses que não são exactamente das 9h às 17h porque o comércio não fecha às 17h, muito menos os supermercados e os centros comerciais.

Quando se democratizou o ensino fez falta criar o 12º ano para atrasar a entrada da avalanche de gente que queria ir à Universidade até esta ter condições de receber todos aqueles cérebros.
A grande questão não é se as pessoas querem aprender ou que os seus filhos aprendam. A questão é se o Estado investe nessa aprendizagem o suficiente para que seja uma opção para a maioria da população.

Mas Tiago, citando o Ary

"Isto vai, meus amigos, isto vai.
Um passo atrás são sempre dois em frente."

Abraço

Tibério Dinis disse...

Ana Martins,
todos os pais querem o melhor para os filhos, mas poucos fazem por isso. As desculpas horárias dão para duas três vezes, dois ou três casos, não para sempre. Aliás, os directores de turma desdobrem-se para estarem disponiveis a várias horas e dias para receber os pais e quantos lá aparecem?

Quem segue com atenção, percebe que as reuniões de pais estão vazias seja em que dia for, a horas que for. Perguntem a prof's e boas excepções à regra, os pais que melhor acompanham os filhos são os que também estudaram.

Cara Ana Martins, não há investimento ou lei do Estado que consiga contrariar as prioridades e o incentivo dos pais.

Haja Saúde

Anónimo disse...

Caro Tibério,

Mas isto é apenas uma questão de acompanhamento? É verdsade que certas sociedades procuram reproduzir mais ou menos as suas divisões de classes. Particilarmente a nossa com o aprofundamento da desorganização da vida das classes trabalhadoras e pelas suas baixas remunerações. No comercio, na industria, nos serviços, agora até nos serviços públicos com avaliações individuais ... Mas admitindo que os filhos dos trabalhadores que vencem o básico e secundário querem ir para a universidade, conseguem? Com propinas das mis altas da OCDE e bolsas em que é preciso que um agregado de 5 pessoas tenha apenas 1 vencimento minimo para ter a bolsa maxima que não chega ao proprio vencimento minimo!? Mas note que nos paises capitalistas que apostam na formação não é assim. Só como exemplo, o RU e a Holanda são os dois unicos paises da OCDE que têm propinas mais altas que Portugal. Mas sabe como são as bolsas? São em média o nosso vencimento minimo e abrangem mais de 60 por cento dos estdantes! Há 7 paises da OCDE que não tem qualquer propina e na Espanha, por exemplo, as propinas de Doutoramento são inferiores às nossas propins de licenciatura (quase 1000 euros).
Mas há exemplos historicos em que as sociedades ultrapassaram em pouco tempo esse paradigma (para alguns). Nós precisamos mesmo de o ultrpassar deliberadamente porque aqueles 50 deixaram um país de analfabetos e mal qualificado. Comecámos a inverter isso mas ainda estamos mesmo na cauda da Europa. Olhe para melhorar-mos a nossa competitividade, podiamos começar por aí!Não me refiro obviamente ao que chamam "novas oportunidades" ...
Sabe, é que há mesmo muita politica nesta questão.
Um abraço,
Nuno

Tibério Dinis disse...

Caro Nuno,
temos muitos problemas estruturais no ensino superior é verdade. O valor das propinas é um deles, nunca consegui pagar as propinas todas de uma vez e mesmo às prestações passo sempre os prazos. Sei o que diz e vivo na pele todos os dias. Já fui impedido de fazer um exame por ter a propina em atraso.

No entanto, engane-se quem pensar que resolvemos os problemas do superior, sem resolver os do básico e secundário. Porque este é que é o grande problema, temos uma elevada taxa de abandono antes do 9º e quem nem tira o nono, não chega à universidade. E para uma pessoa como eu que ficou sempre fora da bolsa por pouco e vê bolseiros a lixarem-se para as aulas, esta conversa da propina não entra comigo, desculpa lá. Muitos deles se pagassem como eu, estavam lá todos os dias. Tem que haver sempre um valor de propina, porque a análise que fazes num país com hábitos como o nosso, simplesmente não resulta.

E quanto ao tema do post que refere a influência da educação dos pais, isto tem um elevado peso na educação dos filhos. Entrem nas escolas e vejam, a maioria dos pais não sabe quando os filhos têm teste, mas sabem quando joga o Benfica e dá a novela.

Não é por acaso que um Prof amigo que deu aulas no sector público e provado, diz que no público os pais nem querem saber e no privado estão sempre a perguntar e até ligam para saber tudo e mais alguma coisa. E segundo ele, no privado as reuniões de pais estão sempre cheias. Os pais podem pagar é verdade, mas importam-se muito. dai que os resultados do estudo referido no post não me surpreenderem.

Haja Saúde

Anónimo disse...

Nunca a Universidade em Portugal foi tão democrática e acessível.

Acabaram os números clausus.

Criaram-se novas universidades e dezenas de politécnicos.

Desenvolveram-se sistemas de ajuda para os menos favorecidos, com bolsas, residências e serviços de cantina subsidiados.

O preço da universidade hoje em Portugal custa 1/50 do que custa nos EUA e na Inglaterra.

Não somos um país rico e o dinheiro tem de vir de algum lado.
Não compete a cada um educar os seus filhos?
Será que umas férias a trabalhar em part time, não pagam propinas?

Tiago R. disse...

Oh, caro anónimo! Em que país vive você?

As propinas aumentaram enormemente. Os "sistemas de ajuda", como lhes chama, não abrangem famílias que tenham mais de um salário mínimo per capita e apenas cobrem propinas. Ou seja não cobrem deslocações, alojamentos, livros, etc.

E respondendo à sua pergunta, mesmo esquecendo que as férias são um direito, não. Umas férias a trabalhar em part-time não chegam para pagar propinas.

Aterre. Regresse a Portugal e olhe à volta.

Anónimo disse...

Carissimo;

A proposito de "O preço da universidade hoje em Portugal custa 1/50 do que custa nos EUA e na Inglaterra.

Não somos um país rico e o dinheiro tem de vir de algum lado."

aconselho-o a ler o ultimo relatorio da OCDE "Education at a Glance 2009", nele poderá ver que
que o valor nacional da despesa do Estado no Ensino Superior é dos mais baixos da União Europeia e da OCDE, quer em relação á despesa pública total (cerca de 2,2%, enquanto a média da OCDE foi 3,1% em 2006) quer em relação à riqueza nacional criada anualmente medida pelo PIB (cerca de 1%, enquanto a média total da OCDE foi 1.3%).
Sobre esse numero do que custam as universidades no RU e nos EUA são outros contos mas para ter uma vtsão proxima da realidade, mais uma vez consulte o dito relatorio que está na página do MCTES.

Um abraço,

Nuno

Anónimo disse...

Ah!

Esqueci-me de acrescentar ao comentário anterior este dado significativo:
"Portugal gastou em despesas militares 2.1% e 2% em 2006 e 2007, enquanto a Espanha gastou apenas 1,2% em cada um desses anos, e que se estima que os encargos com os famigerados submarinos vão, só por si, aumentar 0,6% o défice orçamental para este ano."
De facto e dinheiro sempre vai para algum lado ...
Um abraço,

Nuno

Anónimo disse...

1000 euros para frequentar um ano uma escola é alguma coisa?

Se há colégios na região que cobram até ao 6º ano o triplo desse valor.

Quanto custará a formar um docente da universidade e quanto custará formar um educador de infância?

Educar os filhos exige naturalmente sacrificio dos pais.
E devia exigir o minimo de participação dos meninos.
Porque trabalho não é desprezo.
Ajudando os pais.
Trabalhando em part time nas férias.
Trabalhando em voluntariado para causas nobres.

Porque não passando o dia na praia, indo para a discoteca até ao nascer do sol que se adquirem hábitos de trabalho, espirito colectivo, e vontade de servir os outros.

Informo o bloger que vivo em portugal, mais precisamente nos Açores e sei muito bem do que estou a falar.

Tiago R. disse...

Experimente receber 500 Euros por mês e pague essas propinas.

A propósito, trabalho voluntário (e não remunerado) mesmo por causas nobres, também não ajuda a pagar propinas.

Entretanto, na sua opinião, os filhos dos mais pobres não têm direito a ser jovens, com tudo o que isso implica. Lembra-se?

Anónimo disse...

Dos meninos ricos não se espera grande coisa.
Os grandes homens fazem-se com trabalho.

Prefiro 1000 vezes um que sobe a pulso, com trabalho e abnegação do que um menino rico, habituado a facilidades.

Um curso que é tirado em Portugal por 4000 euros, custa na Inglaterra, nos EUA ou Canadá 60 000 euros!

Cá, como lá, as despesas são as mesmas.

Quem comprovadamente ganha 500 € por mês tem residencia, refeições e propinas pagas para os filhos.

O trabalho só dignifica quem o faz. Sempre nas férias ajudei os meus pais.
Havia tempo para me divertir mas também para dar apreço ao sacrificio que eu sabia que eles faziam.
Muitas vezes fui para a escola depois das vacas estarem ordenhadas. E já havia quem andasse nas discotecas.

O mal de certa esquerda é não alinhar pelo trabalho, mas sim pelo ócio.
Depois é o que se vê: sindicatos e partidos a porem-se do lado do absentismo, do atestado fácil, de direitos e regalias que empinam qualquer empresa, do exigir por tudo e por nada, da malandragem e da improductividade.

Por esse caminho, quando morrerem os alentejanos mais velhos, ficam sózinhos.

Tiago R. disse...

Há de experimentar comparar os rendimentos desses países com os nossos, para perceber o fosso que separa a maior parte dos portugueses de uma educação superior.
Quem ganha 500€ às vezes tem residências, tem as propinas pagas, ou quase, e refeições a 3€ cada uma, como os outros.
Agora pense em quem ganha 600€ ou 700€.
É claro que o trabalho dignifica. Só que o objectivo era que as pessoas vivessem melhor, com o avançar dos tempos, não? E é injusto que apenas alguns o possam fazer.

A esquerda que alinha pelo ócio é com certeza na porta ao lado. Aqui não.

A que propósito é que vêm para aqui os alentejanos? Eu não alentejano!
Mas, se é o que eu penso, sabe qual foi o distrito em que o PCP mais subiu nas últimas legislativas? Braga.

Anónimo disse...

Hoje em Portugal vive-se muito melhor do que há 30 anos. Certamente que daqui a 30 existirão muito menos pobres do que hoje.
Mas o caminho para se chegar lá, para que haja mais justiça social e mais riqueza, é pelo trabalho e pela valorização de quem arrisca e investe.
Não é por exigências à toa.
Não é pelo ódio cego a quem cria postos de trabalho.
Não é por caminhos fáceis do tipo "os outros que paguem"

Mil euros de propina para frequentar uma universidade um ano inteiro é uma pechincha.
Sobretudo para quem é rico e vai de carro assistir às aulas.
Quem não tem dinheiro mas tem comprovadamente capacidades intelectuais, felizmente hoje neste país, não deixa de tirar o seu curso.
Informe-se o Tiago, que não tenho o prazer de conhecer, mas pelo qual tenho todo o respeito, junto dos serviços sociais da universidade mais próxima da sua casa.

Parece-me que está tudo dito.

Anónimo disse...

"Quem não tem dinheiro mas tem comprovadamente capacidades intelectuais, felizmente hoje neste país, não deixa de tirar o seu curso.
Informe-se o Tiago, que não tenho o prazer de conhecer, mas pelo qual tenho todo o respeito, junto dos serviços sociais da universidade mais próxima da sua casa."

Êste anonimo não sabe o que diz. Consulte o despacho sobre a atribuição de bolsas que pode encontrar na net e depois fale. Não é preciso ir a nenhuma universidade ou politécnico.
Mas olhe, há um estudo comparativo dos custos e dos apoios da educação superior em 11 paises da UE (entre os quais o nosso). Chama-se "Student 2005".Está na página do MCTES.
As vulgaridades que diz ouvem-se há muito tempo ... têm barbas.

Nuno