quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

o que vem de trás

Dois anos antes de se começar a falar de crise financeira internacional (estávamos em 2006), em paralelo com o anunciado desaparecimento de 1/5 (21%) das explorações agrícolas regionais (entre 1999 e 2005), o desemprego começou a crescer nos Açores, ao contrário da tendência nacional da altura. Partindo de uma situação anterior, considerada estatisticamente residual (cerca de 2%), estava-se então a chegar oficialmente aos 4%!

Perante esses números e em nome da boa gestão política da Região, quanto a perspectivas e medidas de futuro, longe de estabelecer um inevitável relacionamento (directo ou indirecto) entre os abandonos da actividade primária e o aumento do desemprego que então se registavam, o Governo Regional optou antes por enfatizar as flutuações mensais deste último, descansando tudo e todos, ao afirmar que se tratavam de variações momentâneas e pouco significativas. Sem medidas preventivas portanto, e ainda sem a crise internacional para o justificar, o certo é que os números do desemprego nos Açores não pararam de subir desde essa altura.

O quadro em presença completava-se (dever-se-ia dizer, preocupantemente) com o registo regional da mais baixa taxa de actividade do país (46% da população), o menor poder de compra (por cabeça), e os menores salários da União Europeia…

Dois anos passados, embora oficialmente tida como de chegada mais tardia e de mais rápido desaparecimento que no restante território nacional, a crise teimava em acentuar-se, e, confrontado com os oficiais 7% de desempregados em finais do ano transacto, a resposta do Governo Regional era agora: “A dimensão do desemprego nos Açores ainda continua a ser inferior à situação nacional. Foi apenas uma tempestade que se abateu.” Logo o sol voltaria a raiar, portanto! E logo aconteceu sim, não o sol a raiar mas uma sucessão de falências e empresas em dificuldades no sector hoteleiro e da construção civil, o terramoto na fileira do leite e a contínua e acentuada quebra do turismo, a atirarem com os números do desemprego para valores talvez nunca atingidos, desde que a Região é região!

Após o pouco responsável e desarmante cenário de recuperação anunciado para finais de 2009, quando afinal ainda a crise não se fazia sentir com todo o seu peso nos Açores, em 2010, na Assembleia Legislativa da RAA o Presidente do Governo proclamava agora que: “Seria absurdo encontrar razões locais para os problemas da crise, no sentido do seu agravamento na Região”(?)

Através, primeiro, da sub-valorização da situação anterior à crise, e depois, pela responsabilização exclusiva dos factores externos, para justificar a sua presença, assim se vem assistindo, na prática, à sucessiva auto-desresponsabilização governativa pelos graves desequilíbrios estruturais existentes (que subsistem por fuga continuada ao seu combate prioritário), e pelos números do desemprego, que nos Açores se vêm agravando constantemente.

E não vale a pena persistir na justificação de que eles são menores que a média nacional, pois além do que foi dito, é conveniente assinalar que o impacto negativo do desemprego aumenta na proporção inversa da taxa de actividade. E é por cá que ela continua a ser a menor do país…

Mário Abrantes

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