quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

política ambiental

Sendo a questão ambiental talvez o problema mais central dos nossos tempos, torna-se indispensável entender as suas relações com o a nossa organização sócio-económica.

Miguel Tiago, o mais jovem Deputado do PCP, fá-lo, lucidamente e não receando por o dedo na ferida, neste bom artigo, do qual destaco um excerto:

"É, por exemplo, paradoxal que mesmo quando os custos de produção energética são menores cresçam os seus custos finais. Essa relação entre custos de produção e preço revela bem o inquantificável aumento de lucro que as companhias de produção energética obtêm da chantagem ambientalista, importante componente desse aumento de preço, aliada obviamente à pressão especulativa que controla todo o mercado dos combustíveis fósseis com repercussões nos custos da produção e distribuição de energia final. A alteração de «paradigma económico e energético» de que a classe dominante tanto fala é, no essencial, resumida a um conjunto de alterações na produção, mas mantendo perfeitamente intocada a matriz que reside, não na produção mas na organização e posse dos meios de produção, ou seja, no modo de produção. O que está hoje em causa é mais do que saber se a energia pode ou não ser obtida de fontes renováveis e limpas, mas sim até que ponto o capital se apropria da produção energética proveniente dessas fontes. O grau de apropriação capitalista determinará o grau de utilização dessas fontes e dessas tecnologias e é essa barreira que os trabalhadores de todo o mundo devem vencer, sob pena de subsistir, não apenas a injustiça inerente à exploração capitalista, mas também a delapidação da Natureza e dos seus recursos na medida em que constituem, não recursos económicos comuns, mas apenas mercadorias a valorizar e a gerar lucro.

O mecanismo subjacente ao Protocolo de Quioto e, ao que tudo indica, ao futuro de Copenhaga está longe de ser uma solução para a diminuição da emissão de GEE, mas poderá vir a ser, sem dúvida, um dos mais importantes mercados da actualidade, na medida em que a bolsa de carbono poderá representar a curto prazo um mercado de mais de 700 mil milhões de dólares. Não podemos ignorar que a constituição de uma bolsa de licenças de emissão significa a transferência de riqueza entre diferentes sectores sociais e produtivos, bem como o aumento dos custos do consumo da energia, através da transferência de custos em torno de mecanismos não produtivos (como a transacção em bolsa de licenças de emissões) para o consumidor."

2 comentários:

David M. Santos disse...

O artigo é bom. Mas não é sério duvidar das alterações climáticas ou falar de alarmismo. Mesmo que alguém, por qualquer motivo, tenha as suas dúvidas, o “princípio de precaução” obriga-nos a todos a actuar exactamente da mesma forma: tentar travar aquilo que vai (ou que pode) acontecer. E quase todos os cientistas acham que JÁ está a acontecer!

Sobre as alterações climáticas e as dúvidas existentes, ver o seguinte artigo no Boletim da Sociedade Portuguesa de Química:
http://www.spq.pt/boletim/docs/boletimSPQ_115_009_07.pdf

João Cunha disse...

Boa intervenção, se bem que inconsequente tendo em conta a conjuntura económica actual.