sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

a rolar encosta abaixo

Açores recuam em relação à média europeia

De acordo com a notícia de capa do AO de hoje (sem link), os Açores cairam em termos de riqueza produzida por habitante em relação à média europeia, de 68,6% em 2006, para 67,6% em 2007, de acordo com o Eurostat. E isto apesar de serem das regiões que recebem mais ajudas e apoios financeiros em toda a Europa .

Que lições podemos tirar deste desastre? A primeira e mais óbvia é a do completo falhanço das estratégias definidas em termos de modelo de desenvolvimento. As soluções de "text-book" de economia aplicadas sem qualquer ponderação da nossa especificidade e contexto dificilmente trariam alguma coisa de bom. A aposta teimosa, renitente e irrealista no turismo e serviços, vendo a terciarização forçada e sem sustentação como sinal de modernidade, deixaram a economia regional muito mais dependente, endividada e vulnerável aos contextos internacionais. Agora que esses contextos são maus, ficamos sem nada. Apenas potencial por realizar, expectativas por cumprir. Os investimentos nos sectores que são directamente produtivos foram sempre secundarizados e muito mais virados para a satisfação de clientelas políticas do que com uma real visão modernizadora.

Não há, naturalmente, modelos que nos permitissem permanecer incólumes à crise económica mundial. Mas com certeza poderíamos ter uma agricultura mais forte e produtiva, umas pescas mais modernas e dinâmicas, uma panóplia de produtos regionais específicos que, pese embora a pequena dimensão da produção, tivessem já conquistado nichos de mercado específicos, que trouxessem as mais valias para a Região, em vez de as atirar pela janela em incentivos e apoios a projectos megalómanos que nada produzem.

Responsáveis existem. E são, naturalmente, em primeiro lugar, os dois maiores partidos que nos têm governado. Mas pensando melhor, se calhar somos todos responsáveis. Aqueles de nós que fomos acalmando as preocupações porque o subsídiozinho lá estava certo ao fim do ano, aqueles de nós que nos fomos calando perante a incompetência e o esbanjamento porque, enfim, isso sempre houve, e não nos quisémos "meter em política", aqueles de nós que, eleição atrás de eleição, lá fomos "botando o votinho" certo, sem qualquer esperança de mudar para melhor. Não fomos todos que acalmámos, calámos e votámos, mas fomos a maioria infelizmente. Os tempos mudaram. O subsídio vai acabar e teremos agora, fatalmente, todos, de nos preocupar outra vez.

7 comentários:

geocrusoe disse...

é verdade que o maior partido da oposição tem algum poder autárquico, mas a grande fracção de financiamentos através da política do subsídio veio do Governo Regional, logo: todos talvez tenhamos culpas, uns mais que outros, mas seguramente César tem muito mais que todos os restantes no desperdício dessas verbar em termos de aumento da produtividade dos Açores.

Anónimo disse...

E se for um pouco mais sério e contar a história toda, sr. Tiago?
E se disser que em 2008 os Açores cresceram o triplo da União Europeia, custa-lhe, não lhe custa?
Isto não é política à esquerda, mas sim de esguelha... o que é triste.

Anónimo disse...

Boca santa!

Tiago R. disse...

Não me custava mesmo nada, pelo contrário, se esses números fossem verdadeiros e não a criativa interpretação da realidade que o SREA sempre faz.

Vá lá tentar convencer os açorianos de que começaram a viver muito melhor em 2008!

Rogério Paulo Pereira disse...

Tiago,

Parabéns pelo texto.

Deixe-me agora brincar um pouco consigo: tem a certeza que está bem no PCP?

É que se não soubesse da sua filiação, diria que isto é um texto escrito por um perigoso neo-liberal.

Tiago R. disse...

Caro Rogério:

No mesmo tom:
Tem a certeza que não é vocês que se está a aproximar do PCP?

É que, não estando nós a discutir a construção de uma futura sociedade igualitária, mas apenas um funcionamento melhor e mais socialmente eficiente deste sistema em que vivemos, teremos com certeza muitos pontos de contacto.

Rogério Paulo Pereira disse...

Tiago,

De facto conseguimos concordar muitas vezes no diagnóstico.
Mas temos a dividir-nos o que pode ser explicado com a velha imagem do copo com metade do seu volume.
Na v/perpectiva a sociedade é um copo meio vazio de Estado que teimam em encher.
Na minha é um copo meio cheio, que muitos teimam acabar de encher com a minha contribuição líquida, sem que para isso seja consultado em nome de um sistema e de um regime no quais não acredito.