quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

a teoria e a prática

Darwin, analisando critica e criativamente factos, foi gerador de uma ideia em cuja polémica e de cujas consequências globais nunca participou efectivamente: a teoria do evolucionismo. Mal soube ele, no seu eterno descanso, as convulsões que, entre os vivos, o seu trabalho desencadeou. Actualmente esta teoria foi assumida pela humanidade como parte integrante do património científico por ela adquirido, e aceite.

À escala devida, isto é, entre vizinhos e por estas ilhas, pretendo hoje chamar-lhe a atenção, caro Leitor, para um processo que, embora inverso, nem por isso será, em minha opinião, menos consequente que o anterior.

O meu estimado amigo e sub-director deste jornal, Manuel Moniz, numa análise séria que, como outras aliás (apesar de eventuais divergências no respeitante às ilações), fez à situação da Sinaga e da sua recente regionalização parcial, desvendou, por observação e capacidade dedutiva próprias, autorizado pelas condições publicitadas da intervenção governamental, que a empresa daria prejuízo porque o accionista principal absorvia em remuneração a mais-valia por ela criada, consumindo, para além disso, parte das suas reservas, progressivamente transformadas em passivo, cujo montante poderia ascender (o segredo é a alma do negócio...e, direi mesmo, dos prejuízos não explicados) aos 8 milhões de euros.

Foram anos e anos de desgaste de recursos materiais, financeiros e intelectuais, de toda a qualidade e quantidade, mobilizados por essas instituições fora, desde a Região, ao País e até Bruxelas, para a viabilização da Sinaga. Saíram decretos e regulamentos de todo o género para atender ao caso particular desta empresa. Porque eram as ramas que não podia importar, porque era o açúcar que não podia exportar, porque eram os potenciais concorrentes do continente a boicotar, porque eram as derrogações que se pretendia autorizar. Para afinal, talvez porque o segredo foi a alma do negócio (mesmo com dinheiros e instituições públicas ao barulho), se vir a descobrir que bastava dispensar o accionista principal e substitui-lo por um gestor público, para a empresa se tornar viável e conseguir, com os lucros gerados e reinvestidos nos próximos anos, saldar o seu passivo até 2013.

A dedução de Manuel Moniz pode, como ele próprio salvaguarda, não ser totalmente rigorosa, mas é brilhante quanto às consequências e ilações, pois, através dum exemplo concreto, alcançou uma excelente demonstração prática daquilo que se está passando por esse país fora e à escala planetária, gérmen da crise e instabilidade globalizada. A demonstração da validade de uma teoria que já existia (por isso falei de início no inverso do que se passou com o evolucionismo darwiniano) que é a da apropriação privada dos meios de produção e das mais-valias criadas pelos outros, como fonte principal dos prejuízos, injustiças e misérias que assolam a humanidade.

O sistema é este. Só por isso ninguém fala em crime. E, depois de anos sem exigir explicações sobre prejuízos continuados, as indemnizações, em lugar de serem sacadas aos responsáveis, são os poderes públicos que lhas pagam, com o dinheiro de todos, para “nacionalizar” património e dívidas, com vista à viabilização das empresas e defesa dos seus postos de trabalho.

Um paliativo excessivamente caro, para uma doença crónica que sobretudo interessa (e é possível) erradicar.
Mário Abrantes

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