quarta-feira, 24 de março de 2010

traição

Sim, foi disso que se tratou em 1640, personificada na figura de Miguel de Vasconcelos, secretário de estado ao serviço da dinastia filipina, contra Portugal e os portugueses.

370 anos depois, apanhando todo um povo ao arrepio de compromissos perante ele anteriormente assumidos; ignorando uma crise económica e social instalada e profunda em que a esmagadora maioria dos portugueses se vê atingida por um pântano de privações sucessivas e acumuladas; afirmando há menos de um ano que o combate ao desemprego constituía a sua principal preocupação política; invocando, enfim, a estabilidade e o crescimento do país, um português primeiro-ministro que se diz socialista, apoiado directa ou indirectamente por outros portugueses deputados que se dizem centristas e sociais-democratas, resolvem, deitando gasolina para a fogueira, cozinhar e impor aos restantes portugueses, durante os próximos 3 anos, um regime geral de privações acrescentadas às anteriores (nos salários, nas pensões e reformas, nas prestações sociais, no emprego e no investimento público) carregando na carga fiscal e procedendo à venda de património público essencial. E isto porquê? Porque, segundo eles, existem agências financeiras estrangeiras que passariam a desconfiar do país se um tal regime não fosse decretado.

As agências estrangeiras citadas não são mais que potenciais credores a juro variável, que extraem a custo praticamente zero do Banco Central Europeu o dinheiro que depois vão emprestar, encarecido (tão caro quanto eles muito bem entenderem), aos países, às empresas e às pessoas que dele necessitarem. Os mesmos que, no fundamental, foram os reconhecidos responsáveis por uma crise que degenerou no agravamento do défice das contas públicas, tanto da Grécia como da Irlanda, da Espanha, da Islândia, ou das portuguesas.

Na Islândia, à chantagem dos interesses financeiros ingleses e holandeses que, através dos respectivos Estados, pretendiam, desencadeando privações semelhantes às previstas no PEC português, extorquir dos islandeses a módica quantia de 3,9 mil milhões de euros, a resposta foi simples: Em referendo, que assumiu uma tonalidade verdadeiramente patriótica, 93% dos eleitores, no passado dia 6 de Março, decidiram não pagar a suposta dívida.

Pese embora a maré de diluição (induzida) de patriotismos - com excepção do futebol claro - e de fomento (interesseiro) do federalismo europeu, as convicções, quaisquer que elas sejam, sobre os interesses de Portugal e dos portugueses, da parte do socialista primeiro-ministro e dos centristas e sociais-democratas deputados que proclamam em conjunto a necessidade de aplicar, com mais ou menos variantes, este tipo de plano (dito) de Estabilidade e Crescimento, sofreriam um profundo abalo, caso, num gesto (esse sim) patriótico, de repente se lembrassem de pôr na boca dos portugueses, em referendo, a sua opinião sobre o dito…

Obviamente nunca o farão, mas nem por isso os portugueses deixarão, nos próximos tempos, de os obrigar, no mínimo, a ouvir aquilo de que não gostam!

Mário Abrantes

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