quarta-feira, 21 de abril de 2010

maiúsculas e minúsculas

Doutora Maria Manuela Silva, economista e ex-Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.

A convite da Cáritas e da Vigararia Episcopal, esta Senhora (com S grande) veio à Biblioteca Pública de Ponta Delgada, na passada 2ª feira, dizer de sua justiça sobre a pobreza e a sua erradicação, como um desafio para o século XXI.

Esta Senhora afirmava e demonstrava que a pobreza constitui tão simplesmente uma violação dos direitos humanos. Que os compromissos assumidos pelos governantes para a erradicar, simplesmente não foram cumpridos. Que o combate à pobreza, não é uma questão de moral mas de justiça. Que ela se combate, não com a caridadezinha, mas com salários justos. Que as desigualdades estão na origem do terrorismo. Que o modelo de desenvolvimento adoptado por nós, é gerador de nova e maior pobreza. Que a pobreza é a negação da cidadania e da Democracia, tanto para os pobres como para os não-pobres.

“Esta Senhora..,” - pensava eu enquanto a ouvia – “…porque é que não está no Governo?” Ela e outros, que como ela pensam e que por aí andam afastados de cargos políticos públicos?

A explicação afigura-se-me entretanto simples: Porque na democracia (com d pequeno) esta gente só tem lugar… se mudar de ideias! Fazendo uso de todos os meios democráticos (com d pequeno) ao seu alcance, o sistema repele-os. Afasta-os dos órgãos de decisão política. Num sistema onde agora cabem as maiúsculas de um Sócrates, um Passos Coelho ou um Paulo Portas, como ministros ou candidatos a tal, não cabe mais ninguém a não ser, talvez, parentes ou enteados, mas seguramente cabe a pobreza e o desemprego, transformados, pela exploração da dependência e pela cultura da sua inevitabilidade, em armas do seu domínio.

Isto é onde chegámos: À requintada Perversão (com P grande) da Democracia…

Mas esta Senhora, que agora nele não cabe, já esteve num governo. Sabe quando, caro Leitor?

Num, de entre outros da mesma época, há mais de 30 anos, a seguir à Revolução de 25 de Abril de 1974. Governos Democráticos com D grande, que, além de acabarem com a guerra das colónias, se propunham seriamente acabar com a pobreza, o desemprego, os baixos salários, a exploração e a ignorância!

Estes governos nascidos da Revolução Democrática e da aliança entre o Povo e o MFA, não cortaram reformas, instituíram-nas! Não congelaram ou baixaram salários, subiram-nos! Não tentaram controlar a informação, libertaram-na! Não perseguiram sindicalistas, incentivaram os trabalhadores a organizar-se! Não encerraram escolas, abriram-nas! Não instituíram propinas, acabaram com elas! Não fecharam hospitais, centros de saúde ou maternidades, criaram um Serviço de Saúde universal e gratuito! Não privatizaram, nacionalizaram! Não mandaram militares para a guerra, decretaram a paz! Não aumentaram as desigualdades, redistribuíram a riqueza!

Afinal, tudo isto me veio à cabeça porque no próximo domingo, passa o aniversário de uma Revolução que soube ser Democrática com D grande!

Mário Abrantes

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