quinta-feira, 8 de abril de 2010

a ministra não percebe nada de saúde

As recentes declarações da Ministra da Saúde, em que afirmou que os habitantes da vila minhota de Valença, que protestavam contra o encerramento da urgência do seu centro de saúde, "não percebem nada de saúde", mostra bem o fosso que existe entre as razões, muitas vezes puramente tecnocráticas, de quem decide e a percepção, humana, sentida, sempre a quente, dos que são os sujeitos dessas mesmas decisões.

A clara compreensão por parte dos cidadãos dos motivos das actuações dos governantes é um dos pressupostos básicos da boa governança. Essa falta de comunicação está na base dos descontentamentos, dos protestos, do alheamento dos portugueses em relação a essa coisa da política. Também aqui este governo falha redondamente. E nem sempre de forma inadvertida.

A saúde é um caso paradigmático: a frieza técnica dos números, das relações custo / benefício, dos ratios por utente, só muito dificilmente pode ser entendida por quem precisa de cuidados médicos e, portanto, sente uma necessidade absolutamente urgente, que se sobrepõe a quaisquer outras considerações, por muito lógicas ou racionais que sejam. Do ponto de vista do utente só há urgências.

Tomar decisões que dizem respeito ao que é sentido pelos cidadãos como uma questão de sobrevivência exige uma capacidade ainda maior de explicar razões, motivos e benefícios aos que irão sofrer os seus efeitos. Ficar admirado ou irritado com o descontentamento é a atitude de quem vê apenas números e se esquece do verdadeiro e essencial objecto do sistema de saúde: as pessoas. Não perceber isto é verdadeiramente não perceber nada de saúde.

2 comentários:

geocrusoe disse...

O problema da saúde em Portugal resulta de um acumular de erros em várias frentes, a ordem não importa:
1 - Anos a formar médicos a menos que as necessidades para salvaguardar os interesses de classe, assegurando preços laborais muito acima dos outros profissionais na administração;
2 - Anos a impedir a entrada de médicos para salvaguardar interesses de classe,de forma a impedir uma solução fácil e assegurar preços laborais muito acima dos outros profissionais na administração.
3 - Anos a desinvestir em terras do interior em todos os sectores, obrigando à migração para o litoral, o que reduz o número de habitantes, mas não as distâncias.
4 - Retirar dos sítios mais desfavorecidos serviços básicos como a saúde por motivos economicistas baseados em estatísticas e custos.
5 - Dinheiro mal gerido pelo poder em coisas menos essenciais e depois cortar no essencial como a saúde onde economicamente é mais eficaz, mas mais desumano e menores custos políticos por terem esvaziado o território de pessoas nessas zonas.
6 - Não ter coragem de implementar um sistema de saúde público sem o estado sustentar o privado por escassez de mão de obra que ele mesmo alimentou.


seguramente diria mais... mas por hoje chega. não sou contra sistema de saúde privada, mas contra a promiscuidade criada no regime vigente que só prejudica o cidadão.

RD disse...

Que grande saída a desta senhora.
Pois paciência...