quarta-feira, 5 de maio de 2010

o nosso problema

Certas vozes (sibilinas…) comprazem-se em debitar que as dificuldades com que nos defrontamos se devem ao facto de os portugueses, os açorianos em particular, estarem a viver muito acima das suas possibilidades.

Ao contrário do que é perversa e insistentemente veiculado, e tendo em conta o miserável ponto de partida a que nos remeteu o fascismo nos seus 48 anos de vigência: Não! Não vivemos hoje acima das nossas possibilidades.

Vivemos antes num quadro em que, apesar dos avanços alcançados, após a sua institucionalização, pelo exercício da Autonomia Político Administrativa, ainda somos a Região portuguesa que regista o maior índice de pobreza, os salários médios mais baixos e o custo de vida mais caro.

Ainda somos uma Região, no país em que nos integramos, onde a economia, já de si débil devido aos constrangimentos da insularidade distante, não deixa de ser insistentemente fustigada nos seus pilares básicos.

Onde o sistema de saúde primário, em particular fora dos centros urbanos, se apresenta em declínio de qualidade média, e a mortalidade infantil (que mesmo diminuindo tem sempre sido superior à média nacional) está novamente em ascensão.

Onde os índices de analfabetismo e de iliteracia atingem os valores mais elevados do país, aliados, em ordem inversa, à geral fraca formação comparativa dos trabalhadores e dos empresários no activo.

Onde o desemprego, apesar de oficialmente inferior à média nacional, volta a apresentar-se, tal como aconteceu na década de 90 do século passado, como um muito sério problema, devido à percentagem, inferior à nacional, dos activos no conjunto da população.

Onde a coesão regional, que sofreu um impulso absoluto com a institucionalização do regime autonómico, está agora perigosamente adormecida face à tolerada investida do liberalismo económico e das directivas europeias.

Fazendo fé no que está dito, decididamente, por tudo isto, é necessário reconhecer-se que estamos bem longe de viver acima das nossas possibilidades! Quem insiste na parangona, só pode esconder por trás um ínvio objectivo, qual seja a redistribuição da riqueza, em seu proveito, ainda mais injusta que aquela que agora já se verifica. Quem assim fala, pertence à mesma família daqueles outros que se deleitam a mandar bocas e agitar consciências com a ideia de que a causa da maioria das dificuldades que atravessamos é a cambada de preguiçosos que estão a receber o subsídio de desemprego ou o “rendimento mínimo”.

Mas há quem esteja de facto a viver acima das suas possibilidades! São eles: os Mexias, os Varas, os Jorges Coelhos, uma mão cheia de banqueiros e financeiros, os que vão fazer viagens de cruzeiro deixando centenas de trabalhadores da sua firma com vários meses de salários em atraso, os que não prescindem de se alimentar à grande nem que seja à custa das reservas da sua empresa, inviabilizando-a, os que vão fazer negócios para fora levando o espólio consigo, e abandonando aqueles que durante anos, com o seu trabalho, lhes proveram rendimentos principescos.

Alguém está de facto neste país e nesta terra vivendo muito acima das suas possibilidades, e a tragédia é que este problema, pela mão dos actuais detentores do poder político, em lugar de ser um problema de e para os irresponsáveis que assim vivem e enriquecem, passou a ser o nosso problema!

Mário Abrantes

1 comentário:

Anónimo disse...

Antes pelo contrário.
Estamos a viver muito abaixo das nossas possibilidades.