quarta-feira, 19 de maio de 2010

solidariedade à europeia


Mesmo a dar razão ao que postei aqui, surge a notícia de que a Alemanha pretende impor, usando o seu peso político, o cumprimento das regras de estabilidade orçamental. Merkel não hesita em sacrificar todas as nossas perspectivas de crescimento, condenando-nos à pura e simples recessão continuada, em prol dos seus próprios interesses. É, verdadeiramente, a assunção clara e final de que a União Europeia já não tem qualquer objectivo de coesão económica e social, mas apenas de estabilidade monetária.

É um caminho perigoso. Como será que o Reino Unido, confrontado com um défice de 12% irá reagir?

Serve, em todo o caso, para que entendamos claramente a forma como a Alemanha e as outras grandes potências olham para Portugal e para as outras economias periféricas: não somos parceiros de crescimento. Somos mercados. O nosso desenvolvimento apenas lhes interessa na medida em que permita a colocação dos seus produtos e a estabilidade do euro. Economicamente temos exactamente o mesmo papel que as colónias desempenhavam em relação às metrópoles nos séculos XIX e XX. E se isto não chegasse para entendermos a nossa posição subalterna, bastava a ideia da Comissão Europeia de aprovar (ou não) os orçamentos nacionais para melhor subjugar as economias periféricas aos interesses das grandes potências.

Não é sem alguma tristeza que assisto à agonia ao velho sonho europeu, de uma união de parceiros cooperando solidariamente para um futuro melhor, mas pergunto-me se, no âmbito do capitalismo, as coisas poderiam ter sido diferentes.

8 comentários:

geocrusoe disse...

Embora lamentando o comportamento da Alemanha, mais cedo ou tarde era de esperar.
Nunca olhei a Alemanha (país que gosto muito) como uma benemérita desinteressada. A UE nasceu de uniões económicas e com a ideia de que boas parcerias económicas permitiam não só benefícios mútuos como fortaleciam a paz. Nunca nos últimos milénios a Europa da UE teve 50 anos de paz.
Portugal olhou-se a UE como uma fonte de receitas, sem se reestruturar e criar uma economia sustentável, esqueceu-se que quem deu para este rectângulo algum dia poderia irritar-se ou cobrar e isso está a acontecer.
Infelizmente, temo que serão os mais frágeis neste País quem sofrerá com os erros dos que nos tem gerido.

Tiago R. disse...

Não pretendo negar as resposnabilidades próprias de quem governou Portugal, que são mesmo muitas, senão as principais.

O que digo é que apesar da propaganda, não existe solidariedade europeia, como o caso da Grécia tão bem ilustra.

Entretanto, basta pensar na desagregação Jugoslávia, para perceber que não estamos em paz. Longe disso, infelizmente!

Anónimo disse...

E quem é que disse que os Alemães estão dispostos a trabalhar - coisa que gostamos pouco, produzir - coisa que não é connosco, e ter uma carga fiscal pesadissima, para nos sustentarem à conta de subsidios como aconteceu até agora?

Chegou a hora da verdade: ou trabalhamos e produzimos, e honradamente comemos o suor do nosso rosto, ou então ficamos sózinhos, condenados à mendigagem.
É escolher.

Tiago R. disse...

Bem, o facto é que abrimos os nossos mercados aos produtos alemães.

Mas tem toda a razão: os responsáveis foram os governos portugueses. Mais concretamente os do PS, PSD e CDS que esbanjaram todos os milhões em subsídios que recebemos.

Agora, quanto a solidariedade europeia e "destino comum", estamos conversados.

Anónimo disse...

Não estamos conversados não.
Solideriedade e "destino comum" implicam co-responsabilizações de todos e não apenas de alguns.
Dos Alemães que mais produzem e trabalham. e por isso mesmo são mais ricos, e de nós, que não devemos apenas ficar de mão estendida à espera.

A riqueza não se cria com conversa, com contestações e com greves. É com sacrificio e trabalho.

Tiago R. disse...

Isso seria verdade se o salário que um trabalhador português recebe fosse igual ao de um alemão. Quer comparar?

Tem razão, a riqueza não se cria com conversa, cria-se com trabalho. É por isso que, graças à desastrosa destruição do aparelho produtivo nacional levada a cabo por PS e PSD, estamos agora nesta miséria. A culpa não pode morrer solteira.

Anónimo disse...

O salário do português não é comparavel ao do alemão porque a produtividade também não é comparavel.

E não é justo estarem os alemães a trabalharem para nos sustentarem a coberto de solidariedades.
Digo mais.
A exploração do Homem pelo Homem tem limites. Ou não será assim?

Tiago R. disse...

Por acaso, nalguns sectores, o indicador de produtividade é perfeitamente comparável. Mas dou isso de barato.

Se a produtividade é inferior em Portugal é porque a integração tecnológica no processo produtivo é muito mais baixa.
Isto porque para os nossos empresários (para grande parte deles, pelo menos)é muito mais barato investir em baixos salários e produções de baixo valor acrescentado, do que investir em tecnologia e recursos humanos qualificados e, naturalmente, bem remunerados.