quarta-feira, 22 de setembro de 2010

estado social e presidenciais

Enquanto há gente que já se atreve a despedir pessoal por SMS, depois de lhes negar o salário durante dois meses, como aconteceu naquela fábrica de calçado, ou outros que vão fazer viagens de cruzeiro enquanto a sua firma passa à situação de insolvência, como aconteceu naquela outra empresa de construção civil, um governo que proclama a defesa do Estado Social pôs, de um dia para o outro, um milhão e trezentos mil pobres a terem de fazer prova pela internet de que são pobres, fechou trezentas escolas e, anunciando uma baixa nos medicamentos, de imediato retirou-lhes as comparticipações do Estado. Em simultâneo, um partido que se diz da oposição e afirma que o governo quer ir aos bolsos dos portugueses, pretende entretanto retirar da Constituição Portuguesa o sistema de saúde e ensino universais, e a proibição dos despedimentos sem justa causa. Apenas me ocorre dizer que, enquanto um trata de matar, o outro trata de esfolar...

E é num quadro destes que irão decorrer as próximas eleições presidenciais, as quais, para além de outras oportunidades de reclamação e protesto que até lá certamente acontecerão, em função das políticas de sufoco social que têm vindo a ser seguidas e multiplicadas, constituirão uma ocasião privilegiada para dar um sinal aos actuais detentores do poder, ou aos que se julgam à beira de o alcançar, que, em Democracia, não se pode massacrar um povo contínua e impunemente!

Sem querer, Mota Amaral, com um toque esquerdalhado de conveniência, tal como é useiro Mário Soares sempre que está arredado do poder, explica tudo em artigo de opinião deste mês, perguntando primeiro: “Como é que Manuel Alegre se encaixa num partido cuja governação dá tantas machadadas nos direitos adquiridos, flexibiliza as leis laborais, facilita os despedimentos, não trava o desemprego, atrasa a idade da reforma, reduz as pensões, encerra serviços de saúde e escolas”? E admitindo logo de seguida: “Reconheça-se que essas providências vão todas mais além do que tentou (sublinho tentou), sem grande êxito, entre 2002 e 2004, o Governo PSD/CDS…”

Para benefício da lucidez do Leitor, acreditando na boa fé de um tal posicionamento, nem me dou ao trabalho de desmontar quão anacrónico e insustentável fica ao autor daquela prosa manifestar de seguida, como fez no citado artigo, o seu apoio a Cavaco (parece-me um dilema tão mais intrincado quanto o de Manuel Alegre), enfim! Direi sim que, pelos prejuízos acumulados, e outros que estão na mente desta gente adicionar à vida do cidadão comum, é impossível arredar da crítica (e do voto), nas próximas presidenciais, a responsabilidade pelas sucessivas políticas anti-sociais (como Mota Amaral, sem querer, reconhece) tanto do Governo PSD/CDS, primeiro, como dos Governos PS que se lhe seguiram…

Por outro lado, dado o avanço que leva à partida quando se candidatar formalmente, o facto de Cavaco ter de concorrer à primeira volta, com mais do que apenas um outro candidato, para além de melhor salvaguardar a liberdade de escolha dos eleitores, estimulando a sua ida às urnas, cria a possibilidade efectiva de evitar que um tal avanço se transforme em maioria absoluta à primeira volta.

Mário Abrantes

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