segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

aprender com os resultados

Os resultados eleitorais exigem de todas as forças políticas uma reflexão lúcida e honesta, até porque uma abstenção que ultrapassa os 63% e uma quantidade de votos brancos que mais do que triplica, chegando a 4,2% dos votos (mais de 191.000) são fenómenos demasiado grandes para serem ignorados.

É quase um lugar comum dizer que há descontentamento com os partidos e os políticos. É verdade. O problema é que os partidos e estes candidatos não conseguiram mobilizar esse descontentamento. E isso é especialmente grave no caso de uma força política como o PCP que tudo tem feito, nos órgãos onde participa e fora deles, para ser o porta voz dos descontentamentos dos portugueses mais desprotegidos. Esse é um problema que tem de ser urgentemente analisado e olhado de frente.

Na inevitável comparação com os resultados obtidos por Jerónimo de Sousa em 2006, Francisco Lopes tem perdas importantes em todos os distritos e em quase todos os concelhos. Também assim nos Açores. A desvalorização do aspecto pessoal da eleição presidencial, consubstanciada na escolha de um candidato quase inteiramente desconhecido fora das fileiras do Partido, mostrou-se uma opção errada. Francisco Lopes, apesar das qualidades que demonstrou durante a campanha, não conseguiu segurar muitos dos que, sem serem militantes do PCP são apoiantes da CDU. Um eleitorado que Jerónimo de Sousa conseguiu, pelo seu reconhecimento e pela sua capacidade de identificação directa com o português comum e com os seus problemas, não só segurar como mesmo ampliar. Isto é claramente visível nos resultados dos distritos onde, apesar de alguma debilidade do seu aparelho partidário, a CDU obtém bons resultados. Veja-se Braga, Aveiro e, de forma muito nítida, Madeira e Açores.

A opção por uma candidatura algo despersonalizada, o mais partidariamente identificada possível, apresentando um discurso inteiramente formatado, até repetitivo, ainda que carregado de razão sobre os problemas de Portugal e dos portugueses, não trouxe os frutos esperados. A mensagem está certa, mas a mensagem não passou. O resultado, para lá da eleição à primeira volta de Cavaco Silva, é uma fragilização, mesmo um recuo, do descontentamento e da luta pela mudança social que os trabalhadores portugueses anseiam. E esta é uma realidade da qual devemos tirar consequências e com a qual precisamos, acima de tudo, com urgência, aprender.

11 comentários:

Anónimo disse...

E eu a pensar que no PCP só existiam vitórias retumbantes.

Tiago R. disse...

Está visto que tem muito que aprender sobre o PCP!

cefaria disse...

Não culpo o vosso candidato, independentemente de eu ter uma ideologia muito diferente da vossa, penso que Francisco Lopes segurou os votantes da CDU,mas num país envelhecido esta tem um eleitorado ainda mais envelhecido e a longo prazo a tendência de reduzir a sua expressão eleitoral é normal. Sei que há jovens no PCP mas o vosso discurso não é juvenil

Tiago R. disse...

Caro Carlos:
Não se trata aqui de culpar o candidato. Apenas de, na minha óptica, assumir o erro de uma opção por um determinado tipo de discurso e um determinado tipo de candidatura.

IxR disse...

O grande vencedor dos actos eleitorais continua a ser a abstenção e o descontentamento. Também a mente tacanha de muitos portugueses impera nas suas escolhas. Infelizmente uns afastam-se cada vez mais da política enquanto que outros vão atrás dos "grandes como ovelhas cegas. O descrédito da classe política actual deve-se às suas próprias acções, de uns mais que de outros. Quanto ao PCP, os resultados sabem cada vez mais a pouco, uma vez que o estigma continua presente na sociedade e afecta a opinião, já por sí distorcida, do Povo português.
Um abraço Tiago!

Anónimo disse...

Parece um pouco descabida a afirmação que em parte os resultados se devem ao facto de Francisco Lopes ser desconhecido. Apesar de deputado na AR Jerónimo de Sousa também não era muito conhecido, como Jerónimo conseguiu tanta notoriedade e sobretudo travar as ofensivas externas e internas contra o PCP depois do XVII congresso é um mistério ainda mais inquietante que o desaparecimento dos aviões no Triangulo das Bermudas., Mas talvez a explicação
Resida precisamente nas fracas características de Jerónimo e o modo anarco-liberal com que o PCP lida com a sua própria organização, (sem incluir os Açores que obviamente desconheço)o que explicaria também os resultados. Felizmente a real influência política acaba por não ser assim tão mesuravél a partir de resultados, contas feitas Cavaco Silva foi eleito por 25% de portugueses...
e os outros?

Tiago R. disse...

A verdade é que Jerónimo já tinha sido candidato à Presidência da República em 1996 (e desistiu para Jorge Sampaio, contra Cavaco Silva), em que ganhou bastante notoriedade. Em todo o caso até pode ter a ver com a promoção que foi feita do candidato. Francisco Lopes não discursou na Festa do Avante e o documento de apresentação da candidatura omitia o seu currículo, ficámos sem saber nada sobre a sua família, etc. Tudo aspectos que contribuem para humanizar, para personalizar a candidatura e que não aconteceram em 2011.
Quanto ao "modo anarco-liberal", a expressão é talvez demasiado densa para que eu a consiga perceber.
Quanto à medida da influência política real, tem toda a razão. Não são estes resultados que a medem. Mas certamente não animam mais gente para a luta.

Anónimo disse...

Na história do comunismo internacional os «erros» pagavam-se muito caro.
Eram deportações para a Sibéria, desaparecimentos misteriosos e fusilamentos nas praças publicas.

O desgraçado do candidato, não falta nada, é apelidado de revisionista, apagado das fotografias e banido dos comités da revolução.

Tiago R. disse...

Caro anónimo:
Não podia estar mais enganado!

Anónimo disse...

Amigo Tiago
A realidade não é o Facebook nem se esgota nos netos de Jerónimo de Sousa
O tema é o perpétuo confronto entre fantasia e veracidade, lembro-lhe por exemplo que a revista Time, (a mesma que elegeu Adolf Hitler homem do ano quando o grande capital investia na profícua economia de guerra alemã) nomeou como homem do ano de 2010 o criador das redes sociais, enquanto os próprios leitores escolhiam o incómodo Julian Assange. Isto para dizer que em síntese de promoção de personalidades, objectividade e realidade, nada é o que aparenta e os terrenos e meios de comunicação criados por fazedores de opinião, serão sempre nefastos ao PCP, à própria democracia e saúde mental nas comunidades humanas, por muito inovadores, acessíveis e atractivos que pareçam.

Para um indivíduo ou colectivo quanto mais assustadora e perigosa a realidade maior é a propensão para a fuga, existirá sempre uma altura em que a mesma é tão insuportável que terá de ser enfrentada, ou perecer. Este período já está presente, chegou sem avisar e com uma máscara do tamanho do planeta, quando afirma “aprender com os erros” é exactamente isso que terá de ser feito mas dentro de uma perspectiva materialista do que a história nos ensinou, nunca o contrário, o cerco aperta e não há mais espaço para o erro nem segunda oportunidade.

Jerónimo lembra-me sempre os comícios com o Toy em Setúbal e a eterna confusão entre lumpen e classe operária, ao contrário Francisco Lopes foi um excelente candidato, determinado, verdadeiro, objectivo, sem adornos, sem falsa modéstia, com as características de um verdadeiro revolucionário. Mesmo sem dispor de todos os elementos necessários atrevo-me a afirmar que terá evitado um resultado muito pior.

Ah, não sou o Anónimo que fala da Sibéria :) Abraços

Tiago R. disse...

Caro anónimo não-siberiano ;)

Concordo com muito do que diz.
Não confundi (penso não ter confundido a realidade com as redes sociais). Concordo que terão sempre aspectos nefastos, mas apenas enquanto forem controladas por capitalistas.

é justamente no quadro da dialéctica da história que analiso a acção do PCP e o meu apelo à realidade tem a ver com as necessidades do período que vivemos que, creio, têm muito mais a ver com o alargamento da frente de luta, através do diálogo e da abertura do que com a afirmação repetida da identidade própria.

Quanto a Francisco Lopes, em nenhum momento questionei, nem questiono as qualidades pessoais que demonstrou durante a campanha. Foram talvez elas que nos salvaram de um resultado pior, tem razão.