quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

eles não sabem ganhar

Uma vitória presidencial quase inevitável e historicamente rotineira, servida por um lastimável e repugnante discurso de encerramento da parte do vencedor. Logo de seguida, acobertadas pela vitória, acotovelavam-se entre si, para assomar primeiro, uma série de temáticas impacientes, temporariamente obrigadas ao silêncio para não assustarem os eleitores ou escangalhar declarações hipócritas de campanha:

- A ânsia do capital financeiro, com Sócrates e o seu governo como cozinheiros de serviço, para alterar as leis laborais portuguesas com vista a cortar nas indemnizações aos despedidos, para facilitar despedimentos e aumentar a precariedade do trabalho;

- As taxas de juro da dívida em alta, e a ânsia do FMI mais a Alemanha para anunciar que a situação dos países periféricos da UE não se encontra resolvida e pode necessitar de intervenção externa;

- A entrevista, encomendada por voz avisada, ao Presidente do Banco Espírito Santo (cada vez assumem com menos vergonha o controlo político das operações) para este prevenir os poderes públicos da necessidade de se ir mais longe na flexibilização do emprego.

Cavaco não ganhou nada que não esperasse. Simplesmente, em lugar de, justamente com os resultados eleitorais, proclamar também aos portugueses, vítimas da crise e do desemprego, as prometidas opções claras e saídas para o futuro, serviu-se antes da (magra) vitória da reeleição para, fazendo uso do seu messianismo pacóvio e abusando da confiança de um povo maioritariamente descrente e abstencionista, zurzir nos adversários e investir-se de autorização prévia pública para as suas obscuras e inconfessadas opções de futuro com vista a “conduzir” o país, de cheque em branco na algibeira, a uma qualquer solução governativa consentânea com elas.

Em Ponta Delgada (em cujo concelho apenas 15% dos eleitores votaram no vencedor), exibindo uma indisfarçável irritação perante quem salientava o facto de os açorianos se terem massivamente abstido de votar Cavaco, a sua mandatária cuidou apenas de proclamar pela enésima vez quem era o campeão da Autonomia. Enquanto isso, a líder do PSD num raciocínio espantoso e preocupante, invocava possíveis retaliações presidenciais sobre os Açores pelo facto de o partido do Governo se ter oposto à candidatura vencedora, e tomava logo de seguida abusivamente de empréstimo a vitória de Cavaco, travestindo-a na sua e na do seu partido, esquecendo-se até, com a euforia, que ao seu lado (supostamente para partilhar os louros) tinha um dirigente do CDS perfeitamente “encavacado” com a circunstância…

Mas se apenas 15 em cada 100 eleitores açorianos votaram na reeleição de Cavaco, mais amarga foi ainda a vitória na Madeira. Nesta Região o candidato-presidente não logrou alcançar a maioria absoluta sobre os restantes, ficando-lhe imediatamente à perna a candidatura “out-sider” de José Manuel Coelho. A resposta de Jardim, enquanto vencedor, foi um desastre: Destilando despeito pesporrento pelo adversário e pelos muitos madeirenses que ousaram afrontar com tal dimensão eleitoral activa o sistema jardinista instalado há décadas, chamou-lhes “coelhada”, “criatura”, “extrema-direita” e mais não sei o quê. Quanto ao futuro, tal como os restantes ganhadores, disse nada!

Com ganhadores destes, provavelmente mais produtivo se torna ao país, querendo ousar prosseguir e vencer dificuldades, buscar méritos junto de quem perdeu, não será assim?

Mário Abrantes

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