quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Misr (actualizado)

A situação no Egipto mostra-nos o retrato de um país dividido. Em duas margens opostas e distintas, tal como a sua própria geografia, em torno do rio Nilo.

De um lado, os que nada mais têm a perder, senão a opressão de um regime velho, corrupto e que facilmente vende esses mesmos interesses nacionais que tão assoberbadamente diz defender.

Na outra margem os que hesitam, os que temem a mudança radical, num país onde elas aparentemente não existem há mais de trinta anos.

Mas a verdade é que o conflito e a divisão entre os egípcios sobre o destino a dar à herança de Nasser e sobre as formas de prosseguir (ou não) os objectivos da revolução egípcia, há muito que lá está. Essa divisão estava lá no assassinato de Saddat, essa divisão estava lá nos protestos contra a aliança com Israel e os EUA, essa divisão está lá, muito nítida, muito real, no desmesurado crescimento da influência da Irmandade Muçulmana, principal partido (não legalmente reconhecido) da oposição.

A chocante desigualdade, entre as escalas mais baixas e mais altas da sociedade, mostraram-me, em primeira-mão há uns anos atrás, o quão longe se estava da visão de equilíbrio, igualdade e desenvolvimento dos tempos de Nasser.

Essa divisão, tornou-se algo muito mais profundo do que um fosso de opinião. "No Egipto, em 1991 foi imposto um devastador programa do FMI na altura da Guerra do Golfo. Ele foi negociado em troca da anulação da multimilionária dívida militar do Egipto para com os EUA bem como da sua participação na guerra. A resultante desregulamentação dos preços dos alimentos, a privatização geral e medidas de austeridade maciças levaram ao empobrecimento da população egípcia e à desestabilização da sua economia. O Egipto era louvado como uma “aluno modelo” do FMI." Estamos também perante um país que entrou em ruptura social, fruto das imposições aceites por uma elite política que era a única beneficiária da "ajuda" externa.

Os apelos das potências ocidentais a uma "transição pacífica", não passam da hipocrisia dos que procuram alguém, algum actor político, que possa continuar a levar a cabo, mais eficientemente, a mesma política. Por isso, esta revolução terá de proceder a profundas transformações sociais e políticas se não quiser correr o risco de mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Vêm nesse sentido as reivindicações do Partido Comunista Egípcio.

Num momento em que se fala tanto, em Portugal, da entrada do FMI na nossa economia, o Egipto, salvas as devidas distâncias, é pelo menos um exemplo para nos fazer pensar.

4 comentários:

Anónimo disse...

E se agente fizesse uma «intifada» nos Açores?

Tiago R. disse...

Já está a decorrer uma... só que os terroristas de cá são um bocado incompetentes...

Anónimo disse...

Está a decorrer onde e contra quem?

Tiago R. disse...

Os guerrilheiros ao serviço da Ayatollah de Ponta Delgada estão fartos de se fazer explodir a si mesmos, mas sem grandes resultados ainda.