domingo, 23 de outubro de 2011

narrativas e falhas sísmicas

Li no Público de hoje duas frases que, na sua forma aparentemente obscura, acabam lançar luz sobre a origem dos problemas que enfrentamos.
A nossa actividade política contemporânea é, de facto, construída sobre narrativas, estórias narradas pelos actores políticos, seleccionando e valorizando alguns factos em detrimento de outros, apresentando encadeamentos causais que convidam o receptor da narrativa (os cidadãos) à adesão a uma ideia e, consequentemente a uma determinada acção (ainda que possa ser passiva, do género: "não se preocupem que estamos a trabalhar!").

Não creio que nenhum sector político ou ideológico esteja livre deste tipo de "vício de comunicação", a diferença reside em que alguns têm à sua disposição todos os meios para fazer passar a sua narrativa, que se torna auto-repetitiva e auto-evidente, enquanto outros, ao estarem essencialmente excluídos dos grandes meios de comunicação social, são forçados a procurar esse espaço, na que é a limitada e selectiva atenção dos receptores, usando formas e mensagens não-convencionais, ou procurando uma comunicação mais empática, ao nível das emoções (revolta, indignação, por exemplo).

A narrativa da gordura do estado, da crise da dívida e dos sacrifícios é, neste aspecto, exemplar. Após anos de repetição aturada (uma verdadeira cassete!), esta narrativa política tornou-se uma espécie de verdade intocável para os partidos de governo. Mas estas supostas "verdades", de tanto repetidas, perderam todo o sentido. Especialmente porque já não aguentam o mínimo teste com a realidade. Tornaram-se um muro que os vai separando das concepções dos próprios cidadãos, que a realidade vai moldando diferentes (perguntem a um desempregado se acha justificada a redução do subsídio de desemprego, por exemplo). Esta narrativa do capitalismo contemporâneo tornou-se uma espécie de um código linguístico vazio e incompreensível que por um lado afasta estes políticos do cidadão comum e por outro afasta os cidadãos da (desta) política.

A segunda frase, do Governador do Banco de Portugal, mostra como estes actores políticos se deixam convencer pela sua própria narrativa e a preferem à todo e qualquer sinal da realidade. Carlos Costa avisa sobre os supostos perigos de um perdão da dívida grega: A partir do momento em que um default é considerado, abre-se uma falha sísmica em toda a zona euro." Assumir que a dívida grega (ou portuguesa) é incobrável abriria uma "falha sísmica" catastrófica na narrativa do crescimento estimulado pelo crédito e na bondade das instituições financeiras internacionais. Apesar de tudo a ruir à sua volta, o Governador do nosso Banco Central (português) prefere a narrativa à realidade e luta por ela a todo o custo. Aliás, tal como o Primeiro Ministro, que se manifesta contra o perdão da nossa (deles) dívida, demonstrando o seu apego à narrativa e a sua profunda cegueira de julgar que, passada a crise, tudo ficará como dantes: "Porque, enquanto os credores tivessem memória, não emprestariam nem mais um euro.

Este é o perigo das políticas que se consideram auto-evidentes, inquestionáveis, e que em vez de abordarem problematicamente a realidade (tal como o cidadão comum é obrigado diariamente a fazer), se fecham na sua narrativa, tentando tapar com palavras a falha sísmica que se abre sob os seus pés.