sábado, 15 de outubro de 2011

o dia da ira

Ainda não consegui ter uma noção exacta da dimensão do protesto de hoje, mas já vou em 5 continentes e perto do milhar de cidades por todo o mundo (a propósito, três delas nos Açores). E a contabilidade não ficará provavelmente por aqui.

Este movimento, herdeiro da globalizadas lutas anti-globalização, tornou-se por sua vez também ele próprio global, de proporções quase bíblicas, na contestação a um sistema económico que rebenta pelas costuras. Quantos milhões de pessoas terão saído à rua hoje por todo o mundo?

E, para além da sua quantidade, penso que também a sua idade conta, neste caso. Uma geração que sempre foi desprezada, de quem se dizia que tinha tudo, mas a quem deram nada. Uma geração que a direita julgava ter dominada e que a esquerda nunca julgou capaz de se levantar. Uma geração rasca, à rasca, mas que mostra ao planeta que é capaz de fazer aquele que é provavelmente o maior protesto de toda a história humana.

Sobretudo, um protesto que não pode ser ignorado pelas elites governantes e nem pela esquerda, nem pela direita. Não é talvez por acaso que estamos perante o maior protesto de sempre em Portugal que não contou com o apoio e a mobilização directa dos sindicatos ou dos partidos. Pelo contrário, até. E não pode ser ignorado porque se trata já, claramente, da maior parte da humanidade a recusar um sistema económico inerentemente injusto e incapaz de assegurar o futuro das nossas sociedades. Somos mesmo os 99%.

Sei que me vão dizer que as reivindicações são vagas, talvez contraditórias, por ventura meio indefinidas; que se trata de uma espécie de revolta difusa. Sei que não há um programa definido que una estes muitos milhões de pessoas. Mas também sei que se aprende caminhando e que mesmo com todas as perguntas, dúvidas e hesitações, hoje aprendemos. Hoje ensinámos aos que gostariam de deixar tudo como está que isso não vai ser possível.

E enquanto escrevo ouço a televisão a destacar os desacatos, as violências e não consigo deixar de pensar na frase de Brecht, porque ninguém diz que são violentas as margens que comprimem este rio.

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