sexta-feira, 4 de novembro de 2011

a pobreza em construção

Mais um estudo científico veio recentemente a público demonstrar uma realidade que no fundo já não nos surpreende: um em cada três açorianos vive em condições de pobreza.

Suspeito sempre destes limiares de pobreza, que são apenas fronteiras numéricas e abstractas, porque não levam nem podem levar em linha conta a complexidade das situações de vida de cada um. Depois, as noções do que é que é essencial à sobrevivência e de quanto custa vão, elas próprias, progredindo. E em tempos como os que vivemos, desconfio que há mesmo muito mais gente nos Açores a passar por sérias dificuldades, ainda que além da charneira matemática da pobreza.

Mas é, apesar de tudo, um indicador que não pode ser ignorado por quem decide nesta terra, porque revela o fundo do problema que atravessa a nossa sociedade: é que por mais apoios sociais, subsídios, benefícios e prestações que se criem e se distribuam, continua a faltar a pedra de toque da integração de qualquer indivíduo na sua comunidade: o trabalho e o seu rendimento, que deviam garantir a todo o cidadão os meios para a uma sobrevivência condigna.

E junto, um indicador também interessante, recolhido pela Comissão Parlamentar que há algum tempo atrás analisou a aplicação do Rendimento Social de Inserção nos Açores: 3419 beneficiários desta prestação, 18,7% do total, efectivamente trabalham, só que não ganham o suficiente para assegurar a sua sobrevivência e as das suas famílias, dados relativos a 2010.

Temos um problema de emprego que falta, e de rendimentos que são insuficientes. E, por muito necessário que seja cumprir os pactos com o FMI, as medidas de austeridade não vão melhorar em nada esta situação, pelo contrário. Como estaremos no fim de 2012?

Muita desta nova pobreza liga-se, nos Açores e na nossa ilha, à situação dramática das empresas de construção civil.

A construção é um sector que tem um impacto significativo em toda a atividade económica. Absorve muita mão-de-obra não qualificada, dá trabalho às empresas locais e foi sempre estimulada pelo próprio sector bancário, que se envolve em todo o processo, emprestando ao dono da obra, ao empreiteiro e até ao pequeno subempreiteiro, ganhando sempre, em toda a escala.

Mas, a cereja no topo do bolo, é que a construção fornece belas obras, que permanecem à vista de todos como permanente e sólida propaganda eleitoral, para os governantes inaugurarem. Assim, não é de estranhar que, ao longo das últimas décadas, tenha sido a receptora do grosso do investimento público e que dele dependa quase em absoluto.

Paradoxalmente, os trabalhadores da construção foram sempre dos socialmente mais desconsiderados. Lembro-me de os meus pais me dizerem: “se não estudares, vais acabar a trabalhar nas obras”, como um pesado estigma social de que era preciso fugir. E, na verdade, estes são dos trabalhadores menos qualificados, com piores remunerações, com menos condições e maior precariedade laboral. No entanto, foram eles que edificaram a nossa recém-encontrada (e agora recém-perdida) prosperidade.

No caso do Faial, a construção desenvolveu-se, e bem, fruto dos necessários investimentos na reconstrução do parque habitacional. Mas deixou-nos abraços com um enorme conjunto de pequenas empresas e muita, muita mão-de-obra, inteiramente dependentes do investimento público, que a obra do porto, por si só, não consegue naturalmente absorver e que vêem o futuro com compreensível apreensão.

A euforia económica em Portugal, mas também nos Açores, alimentou-se durante longos anos sobretudo de betão. Este modelo de desenvolvimento artificial permitiu durante uns anos disfarçar alguns dos nossos problemas estruturais. Agora, tudo mudou. A torneira do crédito fechou-se. Acabaram as grandes obras públicas. Acabou-se o crescimento à força de betão.

Mas ficamos com um gravíssimo problema para resolver: que fazer, no imediato, aos milhares de açorianos que dependem deste sector? Para esta pergunta, não há certamente nenhuma resposta simples e fácil. Mas a solução terá sempre de passar pela ruptura com um modelo de desenvolvimento que há muito tempo mostrou ser insustentável.


artigo publicado no Jornal Incentivo
4 Nov 2011

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