sábado, 17 de dezembro de 2011

até já Fernando




Pode ser que o facto de ser um nome tão esquecido tenha alguma coisa a ver com ter sido preso pela PIDE aos 25 anos e, aos 29, encerrado em Caxias; de o regime salazarista lhe ter cancelado uma bolsa para estudar música em Paris, ou com a sua recusa de dirigir o serviço de música da Emissora Nacional. Mas talvez seja por ter sido um dos fundadores do Movimento de Unidade Democrática e professor da Academia dos Amadores de Música. Sim, porque se eu disser que é por ter sido militante do Partido Comunista Português até ao último dia da sua vida, certamente irão dizer que é mania da perseguição.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Natal em Gaza

Maryam nasceu em Gaza, na Palestina, há vinte anos atrás. Cresceu, estudou e casou neste emaranhado de ruelas, onde se acotovelam dezenas de milhares de refugiados, expulsos dos territórios palestinianos que Israel foi ocupando ao longo das últimas décadas. Quarenta por cento deles estão desempregados e mais de metade depende exclusivamente de programas de ajuda humanitária internacional para sobreviver.

O cerco israelita à Faixa de Gaza, por terra, mar e ar, impede o acesso a um terço das terras aráveis, proíbe a pesca para lá das três milhas e fez com que noventa e cinco por cento das indústrias fechassem portas por falta de matéria-prima e impossibilidade de exportarem os seus produtos.

Maryam, uma jovem professora, sabe como a vida é difícil no território. Apesar de ter um emprego fixo e relativamente seguro, está há vários meses sem receber salário porque Israel retém as verbas destinadas à Autoridade Palestiniana. O embargo afeta todos os sectores da sociedade e todos os aspetos da existência.

Desde a tomada do poder pelo “Hamas” (uma fação da Organização de Libertação da Palestina, fundada por Yasser Arafat) e consequente afastamento da mais moderada “Fatah”, Israel agravou o cerco à Faixa de Gaza, impedindo a entrada dos bens mais básicos. Combustíveis, materiais de construção, eletricidade, ou mesmo livros e até comida e medicamentos têm sido barrados, como é relatado por várias agências internacionais.

Com um passo apressado e olhos atentos Maryam percorre as ruas poeirentas para chegar à pequena escola arruinada onde dá aulas. Mas sorri quando vê as crianças a brincar à sombra do grande muro. Com o argumento de derrubar o Hamas e de parar os ataques com rockets disparados em direção a Israel, o governo israelita começou recentemente a construção de um muro, de dezenas de metros de altura, separando também fisicamente Gaza do resto do mundo e transformando-a numa enorme prisão. Mas em vão. Nem o Hamas foi derrubado, nem os ataques pararam.

Para se sobreviver em Gaza há que desenvolver um tipo de resistência mental e de astúcia para encontrar janelas à medida que mais portas vão sendo fechadas à volta da cidade. Apesar da escassez de recursos Maryam vive numa casa erguida recentemente pelo seu marido Yusuf, usando sacos de cimento contrabandeados com a ajuda do sogro, através de uma rede de túneis clandestinos que atravessam o grande muro que os cerca, e onde muitos deixam a vida, à mercê de desabamentos e balas israelitas.

Maryam conhece bem esse caminho noturno de escuridão e medo, única ligação com o mundo exterior. Complicações com a gravidez e a impossibilidade de realizar em Gaza uma simples ecografia obrigaram-na, grávida e assustada mas decidida, a rastejar dezenas de metros na mais absoluta escuridão e silêncio, para obter a ajuda médica de que precisava.

A perspetiva de uma sobrevivência incerta e sob permanente ameaça não atemorizam Maryam. Quando lhe perguntam porque regressou à cidade, limita-se a responder: “A minha casa e a família estão aqui. Para onde iria?” A criança está bem agora e recebe suplementos alimentares de uma agência internacional. Yusuf, pedreiro de profissão, vai conseguindo arranjar pequenos trabalhos e ela, ocasionalmente, lá recebe o seu salário, o que lhes permite pagar algumas contas e arranjar comida para mais uns dias. Maryam acredita que as coisas vão mudar em Gaza e que Israel não poderá manter para sempre o cerco à cidade. Quando acabar o bloqueio, diz, levará o marido e o filho que há-de nascer a Ramallah, para conhecerem os tios e os primos e hão-de fazer uma grande festa.

Algures para o final de Dezembro, na cidade-prisão de Gaza, Maryam vai dar à luz um menino a que chamará Raja, que significa em português: “esperança”.

Nota do Autor: Qualquer semelhança desta história com a realidade é intencional e deliberada. Um bom Natal para todos os leitores.

Texto publicado no Jornal Incentivo
16 Dezembro 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

bancos a tostão furado


A credibilidade da banca privada portuguesa não vale já um tostão furado e estas desvalorizações são demonstrativas das suas dificuldades em financiar-se junto da banca internacional. Anos de apoio e patrocínio do Estado, nomeadamente através de fabulosos benefícios fiscais, ajudaram a inchar o balão da banca privada, que ainda há um ou dois anos continuava a apresentar lucros anuais de muitas centenas de milhões de euros. 

Favorecidos por uma política deliberada de não aproveitamento da Caixa Geral de Depósitos, os bancos privados envolveram-se tentacularmente em todos os sectores da economia e da forma mais destrutiva. Favorecendo o consumo descontrolado, emprestaram muitos milhões de euros aos portugueses e às empresas, pelos quais receberam e recebem ainda muitos milhões mais. Foram, desta forma, absorvendo, crescendo e concentrando em todos os sectores até se tornarem, hoje, neste monstro macrocéfalo insustentável que absorve os recursos do país.

Não vou ficar nada triste quando, em breve, ouvir dizer que faliram. Mas, desconfio que Passos Coelho depressa descobrirá mais uns quantos milhares de milhões de euros para os recapitalizar ainda mais uma vez.

a Madeira adjacente


A redução dos impostos nas Regiões Autónomas assenta no reconhecimento que, nas ilhas, enfrenta-se um custo de vida agravado pelas condições de isolamento, dimensão dos mercados e distância. É, por isso, uma questão justiça e igualdade entre os portugueses, factor essencial da Coesão do nosso país. Ao acabar com ela para pagar as dívidas que a sua irresponsabilidade criou, o PSD Madeira, decreta um brutal aumento dos impostos pagos pelos madeirenses, que nalguns casos chega aos 25% e reduzindo a sua Autonomia fiscal ao nível de mera ilha adjacente. Deixa, no entanto, intocados os benefícios fiscais das empresas-fantasma (sem instalações nem trabalhadores) registadas na zona franca da Madeira, o que nos dá a verdadeira face da política de Alberto João e para quem, afinal, governa. E não é certamente para os madeirenses.

O que é certo é que a posição dos Açores sai inegavelmente fragilizada de tudo isto. E os centralistas (internos e externos), os adversários da Autonomia não deixarão de usar mais este argumento para atacarem também os direitos dos açorianos. Mais uma que temos para agradecer ao PSD.

já cá estão

As novas lanchas de piloto de Velas e São Roque. Benvindas!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

uma para os que não desistem

A luta continua!

o regresso das plataformas


Em período pré-eleitoral, contam as ilhas que têm mais votos e o PS Açores, acossado que está pela necessidade de reforçar-se eleitoralmente na Terceira (ainda para mais estando à vista eleições intercalares na Câmara de Angra), procura abrir o caminho para criar aí uma plataforma logística, voltando subtilmente à carga com uma ideia que foi recentemente derrotada pela contestação que gerou em todo o arquipélago. Para o PS Açores não interessa se uma política é boa ou má, certa ou errada. Só interessa mesmo o balanço de ganhos e perdas em poder e influência política.

cara folga

A folga orçamental no valor de dois mil milhões de euros, recentemente anunciada com mal disfarçado triunfalismo pelo Primeiro-Ministro, vem da transferência do fundo de pensões dos trabalhadores da banca para a Segurança Social.

Como já é costume, de há muitos anos, os fundos da Segurança Social, que são objetivamente propriedade dos trabalhadores que para ela contribuem, continuam a ser usados ao bel-prazer das prioridades e constrangimentos orçamentais dos sucessivos governos. Passos Coelho não foi inovador nesta opção de utilizar o dinheiro descontado pelos trabalhadores para suportar os custos das suas políticas.

A CGTP denunciou recentemente que o Governo não forneceu aos parceiros sociais, e nomeadamente às organizações representativas dos trabalhadores do sector bancário, qualquer informação sobre este processo, nomeadamente a garantia de que os ativos transferidos para a Segurança Social eram os suficientes para garantir o pagamento das pensões aos bancários reformados. Sem esta condição, poderemos estar a enfrentar, a breve trecho, a situação de serem os descontos dos trabalhadores do Regime Geral a suportar estes encargos, assim contribuindo para descapitalizar a nossa Segurança Social.

Isto é ainda mais preocupante num momento em que a Segurança Social verá as suas receitas a encolher (por existirem menos trabalhadores e terem salários mais baixos), e as suas despesas a engordar, (muito mais subsídios de desemprego e outras prestações sociais).

Das duas, uma: Ou de facto não havia verdadeira necessidade de aplicar cortes tão brutais, nomeadamente nos subsídios de férias e de Natal dos portugueses, e o PM mentiu descaradamente aos portugueses, ou, então, estamos perante mais um seríssimo ataque à sustentabilidade da Segurança Social, que os ultra-liberais do PSD (nos quais Passos Coelho se integra claramente) sempre sonharam destruir para privatizar.

Esta folga pode sair-nos mesmo muito cara.

Texto publicado no Diário Insular
14 Dez 20112

e para quem pensava que Leonard Cohen era tudo o que os canadianos tinham para oferecer à música do mundo




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

germanófilos

Há provavelmente muito mais coisas que unem Sidónio Pais, Salazar e Pedro Passos Coelho, mas a sua simpatia germanófila é cada vez mais indisfarçável. No caso de Sidónio Pais, um claro alinhamento com o imperialismo prussiano, no de Salazar uma contrariada neutralidade colaborante com o III Reich e, no de Passos Coelho, o apoio entusiástico às imposições de Berlim.

A ideia de impor às gerações futuras, por via da Constituição, uma determinada política orçamental e certos limites ao défice é um verdadeiro golpe de estado constitucional, que pretende roubar ao Povo Português qualquer direito a decidir sobre a condução do seu próprio Estado, pondo-o ao serviço do interesse germânico. Soa familiar, não soa?

sábado, 10 de dezembro de 2011

pagar para não produzir

O candidato do PS Açores e ainda Secretário Regional da Economia, Vasco Cordeiro, anunciou com o triunfalismo habitual que o Governo Regional prepara-se para lançar uma nova operação de resgate leiteiro, no valor de 3,6 milhões de Euros.

Sob esta denominação técnica e aparentemente inocente, a realidade é que se pretende atribuir uma compensação aos agricultores que abandonem a atividade, resgatando o Governo a sua quota de produção. A justificação oficial é que as explorações mais pequenas serão supostamente menos rentáveis e menos produtivas e, assim, a sua quota fica disponível para as grandes explorações que pretendam aumentar a sua produção.

Para além da falácia da redistribuição das quotas leiteiras, que hoje foram tão ampliadas que é quase como se já não existissem, o Governo Regional persiste no erro de continuar a apostar apenas na grande produção, massiva e indiferenciada, das grandes explorações, como se fosse alguma vez possível aos Açores competir no mercado dos grandes produtores europeus, onde a quantidade e o preço são os fatores decisivos.

O Governo continua sem entender que o que valoriza o nosso leite é justamente a sua diferenciação e qualidade e sem perceber que a redução do número de produtores tem efeitos altamente destrutivos sobre as comunidades rurais e a economia das ilhas, que deles dependem.

Uma das razões que fazem com que as pequenas explorações sejam supostamente menos rentáveis prende-se com o facto de empregarem mais mão-de-obra. Ao incentivar o seu desmantelamento, o Governo Regional fomenta ativamente o desemprego, cego aos sinais, de que tem sido justamente o sector agrícola o que melhor tem resistido ao aumento do desemprego, como confirmado pelos números do INE e que será por algum “regresso à terra” que os Açores melhor poderão resistir melhor a esta crise.

O Governo Regional continua a acentuar o ciclo vicioso da desertificação e desemprego, sem querer saber do alto preço que pagamos, e pagaremos, por esta opção de utilizar o financiamento europeu da forma mais destrutiva: pagar para não produzir.

Texto publicado no Diário Insular
10 Dez 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

de necessária a urgente

Depois do triunfalismo das notícias de ontem sobre a Cimeira Europeia, a possibilidade de um acordo para a revisão dos Tratados Europeus foi afinal bloqueada pela Grã-Bretanha, que pretendia isentar-se das regras europeias sobre regulação do sector bancário e dos mercados financeiros.

À obsessão monetarista da França e da Alemanha, opôs-se o fanatismo desregulador da Grã-Bretanha. Interesses antagónicos que nem a ameaça do desastre comum consegue unir. Estamos já no campo das contradições irreconciliáveis que impedem a superação da crise. A situação está a amadurecer depressa para uma profunda mudança política que, de necessária, está a passar a urgente.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

a anti notícia


Por de trás do título "Governo quer proibir cultivo de OGM mas abre porta no futuro" esconde-se o facto, que o subserviente jornalista conseguiu não mencionar uma única vez, que, afinal, o que estava em discussão na Comissão Parlamentar onde foi ouvido o Secretário da Agricultura, era uma proposta do PCP Açores para proibir esse cultivo no nosso arquipélago!

A direcção do Açoriano Oriental nunca perdoou ao PCP ter denunciado à Comissão Nacional de Eleições a propaganda eleitoral ilegal que o AO fazia ao PS, o que levou, na altura, ao afastamento de Aníbal Pires das suas colunas de opinião. Continuam hoje, por isso, activamente, uma campanha de silenciamento sistemático e permanente do PCP, que não tem paralelo em qualquer outro órgão de comunicação social da Região. O que é triste é ver profissionais sérios a participar nisto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

de cima vem o mau exemplo

A maioria PSD/CDS-PP apresentou uma alteração ao Orçamento de Estado para obrigar as autarquias a reduzirem o número dos seus funcionários, sob pena de verem cortadas as verbas essenciais que recebem da República.

Através de um sistema escalonado, que premeia as câmaras que sejam mais eficazes a despedir pessoal, procura-se (mais) uma redução do número de funcionários da administração local, num processo que já começou há vários anos atrás.

Houve um tempo em que ser servidor público era não só uma posição respeitada e invejada. Anos de uma campanha de desvalorização salarial e profissional, calúnia e enxovalho público, – como se fossem eles os grandes responsáveis dos problemas do país – acompanhados de péssimas práticas de gestão por parte de responsáveis políticos, destruíram a imagem pública dos trabalhadores dos Estado.

As gorduras do Estado não são os funcionários públicos, pelo contrário (tendo em conta a redução do seu salário real nas últimas décadas estes estão é cada vez mais magros!). Não se nega que existem muitas situações de aplicação pouco eficaz dos recursos humanos das autarquias, mas são da responsabilidade dos gestores e eleitos locais, não dos trabalhadores.

A redução de funcionários é a forma mais direta de pôr em causa a qualidade dos serviços prestados e a capacidade de dar resposta às solicitações dos cidadãos. É, porventura, a última coisa em que um bom gestor deve cortar.

A diminuição do número de funcionários públicos das últimas décadas tem dado um contributo decisivo para o aumento do desemprego em Portugal, não só pela redução direta de empregos, como também, de forma indireta, pelos seus efeitos sobre o poder de compra da população. Numa situação como a vivemos, estes cortes são uma política criminosa de incentivo ao desemprego.

Registo o paradoxo de se apelar às empresas do sector privado para manterem ou mesmo aumentarem os seus postos de trabalho, enquanto é o Estado o primeiro a fazer tudo o possível para reduzi-los na Administração Pública. Também aqui o mau exemplo vem de cima.

Texto publicado no Diário Insular
6 Dez 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Коммунистическая партия Российской Федерации


O PCFR afirmou-se como a única oposição consequente à ditadura pouco encapotada de Putin e, ainda, o único que coloca como sujeito principal das suas políticas o Povo Russo, em vez dos oligarcas. Não. Não se trata de saudosismo soviético, nem de branquear todos os defeitos desse antigo regime. Trata-se de entender que o progresso e o desenvolvimento terão sempre de passar, em toda a parte, por uma melhor distribuição da riqueza na sociedade. E isso, os russos sabem há muito tempo.

do pior ao melhor

No Jornal Público, do qual sou leitor indefectível há muito anos, temos exemplos do melhor jornalismo que se faz em Portugal mas também, infelizmente, por vezes do pior.

Assim é o caso da longa entrevista a Passos Coelho conduzida por Maria João Avilez. Passando ao lado da introdução laudatória, quase apaixonada pelo nosso PM ("o sorriso", "a postura elegante", "a voz insinuante"), ou mesmo do seu uso serôdio do português em belas frases como: "... de conclusões, aliás, inconclusivas...", por exemplo, não consigo mesmo passar ao lado das suas "palas" de pensamento único que a fazem dizer coisas tão brilhantes como "O país já sabe dessa necessidade imperiosa da consolidação!", referindo-se à necessidade de imposição de sacrifícios e que a fazem conduzir a entrevista justamente no sentido e para a linguagem que interessa ao PM.

Com grande superficialidade e clara falta de estudo dos dossiers, MJA, deixa escapar as revelações que Passos Coelho e nem se apercebe das implicações de alguma das frases do PM. Mas, sobretudo, MJA consegue dar-nos 4 páginas de entrevista onde, nem por uma vez, se mencionam as crescentes dificuldades dos portugueses, o aumento da pobreza e do desemprego, ou mesmo sequer se aborda a contestação social, como se estes assuntos não fossem nem notícia nem parte da difícil equação que cabe a Passos Coelho resolver. Definitivamente, do pior!

No mesmo dia, a honra da redacção acaba por ser salva por mais uma brilhante peça de jornalismo narrativo de Paulo Moura na Pública, onde as palavras vão para lá do cliché e da banalidade e nos transmitem, para lá da informação, uma vivência humana. Definitivamente, do melhor!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

o futuro debaixo do chão

As recentes notícias e sucessos sobre a situação financeira da Câmara da Horta causam profunda preocupação e, sobretudo, espanto. Como munícipe não posso deixar de ficar seriamente preocupado quando é o próprio Presidente da Câmara que afirma que poderão estar em risco uma série de serviços e equipamentos fundamentais e emblemáticos da nossa cidade.

Igualmente, é impossível não abrir os olhos de espanto quando penso que, aquando das últimas eleições autárquicas, em Outubro de 2009, a CMH tinha uma dívida de curto prazo inferior a um milhão de Euros e que agora, cerca de dois anos depois, apenas, esse valor tenha atingido uns astronómicos três milhões de Euros que são devidos, não à banca ou às grandes empresas nacionais, mas sim a empreiteiros e fornecedores. É obra! Sem que no entanto haja, assim tanta obra que se veja, nem certamente, que justifique uma tal sangria das finanças municipais.

O espanto transforma-se em total incredulidade, quando oiço que a brilhante solução que o nosso Presidente encontrou foi a de, criativamente, bem à portuguesa, pôr a Câmara a vender a si própria dois parques de campismo, através de uma das empresas municipais, enterrando o município em mais seiscentos mil Euros de um empréstimo bancário que não vai servir para qualquer investimento no concelho.

Os números mostram que a perda de receitas relacionada com os 1,2 milhões de Euros da participação nas receitas do IRS que o Estado ainda deve à CMH, bem como a redução na quantidade de licenças municipais e do Imposto Municipal sobre imóveis não chegam para explicar o atual aperto. Desde que passou a mandar sozinha, a maioria camarária conseguiu o feito de, em menos de dois anos, esvaziar os cofres e pôr em cheque o desenvolvimento do concelho.

É que ainda está por fazer, e é agora posto em causa, o mais importante projecto das últimas décadas para a nossa a cidade. O facto de ainda não ter um sistema de saneamento básico, coloca o concelho da Horta bem atrás dos mais atrasados e isolados concelhos do país. Trata-se de mais do que uma questão ambiental ou de qualidade de vida. É também uma questão económica, pois um moderno sistema de distribuição evita as enormes perdas de água que acontecem numa rede envelhecida e as águas pluviais, se tratadas, podem ser reutilizadas em regas e lavagens, poupando assim dinheiro ao município.

A construção do sistema de saneamento é uma questão de progresso, que foi atrasada dezenas de anos pelas vistas curtas de autarcas que não quiseram “enterrar o investimento debaixo do chão”. A falta de pluralismo raramente é boa conselheira. Durante o mandato em que, por não haver maioria absoluta, as responsabilidades foram divididas entre dois partidos (a CDU e o PS) as coisas foram bem diferentes: reduziu-se a dívida da CMH de cerca de 4,5 milhões para menos de um milhão em quatro anos, por exemplo e, graças à acção da então existente “maioria plural”, com destaque para o Ex-Vereador José Decq Mota, da CDU, hoje temos um projecto de saneamento pronto e adjudicado.

É grave que agora a falta de vontade política do Governo Regional (que é um dos parceiros neste projecto), somadas à irresponsabilidade da maioria camarária na gestão dos dinheiros públicos, venha atrasar ainda mais esta obra fundamental, até porque não se sabe bem com que fundos europeus poderemos contar no futuro e, sem eles, será de certeza muito mais difícil suportar os encargos da obra.

Recentemente, a Assembleia Municipal da Horta travou, adiando, a proposta de Orçamento que consagrava estes desmandos da Câmara. Prestaram um bom serviço ao município, que cumpre saudar. O poder municipal é dos que ainda vai tendo mais espaço para o pluralismo, permitindo a reunião dos esforços de todas as forças políticas em prol do bem comum.

À maioria cabe agora dialogar, negociar com os outros partidos, procurar consensos e construir soluções que não ponham em causa o futuro do Concelho. Ou seja: tudo o que não fez até agora, neste mandato. Esperemos que o faça, pois sem isso é o futuro da cidade da Horta que continuará enterrado debaixo do chão!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

para que serve uma greve


A adesão à Greve Geral foi, no todo nacional, muito significativa, acabando por superar as expectativas das próprias centrais sindicais. Pode não ter correspondido à inocência política dos sonhos revolucionários de alguns, mas, para aqueles que procuram observar o país com realismo enraizado na realidade, foi o maior protesto do pós-25 de Abril. E, no entanto, foi apenas um primeiro passo numa luta que será certamente longa, como nos ensina o exemplo grego, por exemplo.

Passando ao lado da guerra dos números e do insulto à inteligência que o Governo faz aos portugueses ao afirmar que a adesão não superou os 10%, notou-se ao longo do dia uma cobertura mediática hostil e, em muitos casos, agressiva, visando de forma mais ou menos clara, minimizar a greve. Na TV foram longas e sucessivas as reportagens em que o que foi notícia foi o serviço público que estava a funcionar com um ou dois funcionários e não os milhares de trabalhadores que aderiram à paralisação, mostrando que as televisões privadas, que afinal também são grandes empresas, servem em primeiro lugar os seus privados interesses. 

Nos Açores tivemos uma greve como nunca antes, com muitos serviços e empresas a paralisarem pela primeira vez na sua história. No entanto, a banalização da precariedade laboral, dos contratos a prazo, dos recibos cor-da-esperança, (que se tornaram a regra e não a exceção), prejudicou a adesão a uma greve na qual os trabalhadores generalizadamente se reconhecem, mostrando que ainda há muito medo do patrão e das suas represálias no nosso arquipélago. 

A utilidade de uma Greve Geral é que recoloca a questão do poder numa democracia no seu devido lugar. Perante um protesto que no qual se envolve a maior parte da população que o elegeu, um Governo só tem dois caminhos: ou cumpre essa vontade popular ou perde toda a legitimidade democrática que obteve nas urnas. Agora, a bola está do lado de Passos Coelho.

bola de berlim

Aníbal Pires, do PCP, disse hoje à noite, no Parlamento, que o CDS não está ao serviço dos açorianos, mas sim para a "bola de Berlim". Junte-se o creme de ovo ao óbvio e não podia ter mais razão!

acto de contrição

Há alguns dias atrás critiquei aqui o artigo da Deputada independente do PS, Isabel Moreira, pela falta de consequência das suas críticas ao Orçamento de Estado. Estava enganado e, sem sacrifício, retracto-me.

Com a sua atitude, ao aprovar as propostas de PCP, PEV e BE para manter os subsídios de férias e de natal, Isabel Moreira honrou o cargo que ocupa e, simultâneamente, pôs a nu o desvario e desespero da actual liderança do PS, que ainda não conseguiu superar nem o sentimento de orfandade pós-Sócrates, nem o absoluto vazio ideológico e indecisão que caracteriza José Seguro.