sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

era uma vez meia hora

O acordo recentemente assinado na concertação social entre alguns dos parceiros sociais marca de forma incontornável toda a atualidade nacional. Nos dias que precederam este acordo, as reportagens, os diretos, os debates e comentários, as declarações formais e os ditos de pé-de-microfone sucederam-se, abafando toda a restante atualidade política nacional e servindo aos portugueses uma determinada “narrativa” do acordo e dos seus conteúdos. Mas, a verdade é que os frenesins mediáticos raramente prestam um bom serviço à informação da opinião pública. Este foi nitidamente o caso.

Os técnicos de comunicação do Governo souberam gerir magistralmente o processo de negociação, misturando habilmente os silêncios com as declarações dramáticas, alternando protagonistas, ora o Secretário de Estado, ora o Ministro, ora o próprio Passos Coelho, e até o próprio Presidente da República, que veio apelar a um entendimento entre patrões e trabalhadores. Tudo sabiamente orquestrado para nos preparar para o pior, imprimindo na nossa mente a ideia de que era inevitável todos trabalharmos mais para ganharmos menos e que enormes desastres esperavam Portugal caso assim não fosse.

Seguiram os manuais. Como em qualquer negociação onde se pretende obter vantagem o primeiro passo é o de intimidar o adversário, montaram o embuste da imposição de mais meia hora diária de trabalho não remunerado. O Primeiro-ministro defendeu encarniçadamente a ideia. Com dramatismo pesaroso e pose estudada afirmou que era essencial para a produtividade, que sem esse acréscimo não haveria crescimento e nos afundaríamos para sempre no abismo negro da crise.

É pois, com um país assustado, e preparado para o pior, sempre de olho na televisão, suspenso de cada notícia, que nos anunciaram, com o triunfalismo de um final feliz à Hollywood, que estávamos salvos: saía fumo branco da concertação social! Havia acordo! E, afinal, aquela terrível meia hora de trabalho, que ocupara todas as atenções e preocupações dos média, não era assim tão inevitável nem essencial e fora abandonada.

Foi um Passos Coelho sorridente e vitorioso que assinou o documento e proferiu palavras solenes, como lhe competia. Da parte das confederações patronais, o contentamento também não era disfarçável, pois mesmo sem a meia hora, tinham conseguido a redução das férias, feriados, horas extraordinárias, despedimentos mais fáceis e baratos e ainda a possibilidade de alterarem a seu bel-prazer os horários de trabalho, entre mais algumas vantagens... A negociação correu-lhes, como previsto, muito, muito bem.

Apenas do lado da UGT, se sentia alguma incomodidade. Assistimos à pequena comédia de ver João Proença tentando pôr-se em bicos de pés (o que, com a sua silhueta, convenhamos, não é fácil!) para parecer mais importante enquanto nos afirmava, afogueado mas cheio de si, que fora por causa da UGT que a temida meia hora de trabalho desaparecera. E isso é que era importante. Conseguiu até arranjar mais um incidente, insultando a CGTP, que recusou participar na farsa. Tudo para dispersar a nossa atenção dos conteúdos-a-letra-pequena do acordo.

É assim que se constrói uma estória, uma narrativa política, simples, digerível, comentável no café com os amigos, que se auto-reproduz, espalhando uma determinada visão dos acontecimentos, selecionando alguns factos e ignorando outros. O lamentável episódio da meia hora extra de trabalho nunca passou disso.

Uma estória que foi útil ao Governo e aos patrões para tentar acalmar a inevitável contestação que o resto do acordo vai gerar. Mas também uma história que é útil à UGT, que precisa de pequenas e aparentes “vitórias” que lhe dêem uma notoriedade que possa disfarçar a rapidez e facilidade com que quase sempre cede na defesa dos interesses dos trabalhadores. 

Convém dizer que, no fim de contas, a queda da meia hora suplementar fica a dever-se, sobretudo, à grande luta que os trabalhadores e a CGTP têm desenvolvido contra o aumento do horário de trabalho, mas isso de forma alguma apaga os prejuízos para quem trabalha.

Caiu a meia hora mas fica por reconquistar muito do que tinha sido alcançado ao longo dos últimos cinquenta anos: o direito a um horário de trabalho estável, que permita que os trabalhadores tenham vida pessoal e familiar, por exemplo.

Esquecido que em breve será este episódio, entre tantos outros que o telejornal diariamente nos serve, fica, para os que precisam de trabalhar porque não enchem a barriga com estórias, a realidade de um país mais injusto.

Texto publicado no Jornal Incentivo
27 Jan 2012

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