terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Velas

Atravesso a pé a Vila das Velas, quase de ponta a ponta, às nove e meia da manhã e no meu caminho não me cruzo com ninguém. Nenhum peão, ninguém à janela ou a uma porta a quem dar os bons-dias. Dois ou três carros apenas na manhã molhada. E não consigo deixar de sentir a tristeza muda deste deserto.

Com as neblinas permanentes, com a chuva quase contínua durante seis meses, com os dias cinzentos e molhados, é possível lidar. Com este vazio desolador, não.

A desertificação é dura nestas ilhas. A lenta agonia da agricultura, abrandada à força de subsídios para não produzir, esvaziou lentamente as freguesias rurais. A mudança de gerações ditou também a mudança de profissões, empurrando os mais novos, os que estudaram, para fora da ilha e toda a gente para os “centros” urbanos. E digo “centros” entre aspas, porque não se entende um centro que perdeu a periferia. Também aqui foi assim: depois de fechar a cooperativa fechou a escola, depois da escola fechou o clube e depois do clube fechou a casa do povo, até se reduzir a freguesia a um café, se tanto, e alguns velhos que teimam em agarrar-se à terra de que sempre tiraram o sustento, por teimosia ou porque não sabem fazer outra coisa. Esta não é uma história só de São Jorge. Longe disso.

A economia de mercado – estranho mercado este, em que quem compra e quem vende não se olha nos olhos, não se conhece, nem se confia… – trouxe a obsessão da grande escala. Como se a carne, o queijo ou o leite só valessem a pena quando produzidos aos milhões e quem tem pouco para vender, tem sempre de vender barato e estender a mão ao subsídio, que chega quando chega, se não chega atrasado. Ideias e políticas trazidas lá do distante centro da Europa do poder e do dinheiro. Longe, muito longe, dos Açores que os eurocratas não conhecem nem entendem.

E as gentes vão-se como sempre foram, atrás do trabalho onde o houver, atrás do dinheiro que se puder. Porque aqui não encontram nem um nem outro. E os Topos, Nortes e Beiras perdem muito mais do que as gentes, perdem a alma.

Porque estas paisagens estonteantes, esta natureza agreste e indomada, só fazem sentido com o seu contexto humano, paralelo ou contraditório: a comunidade. Ilha. Abrigo. Companhia. Apoio e partilha da adversidade comum. Como os dez passageiros deste navio em que agora embarco, que se sorriem e se saúdam e comigo se preparam para enfrentar a inclemência de Janeiro, canal de São Jorge a fora.

Sem isto, sem esta comunhão e humana partilha da dureza da vida atlântica, o que resta é igual à solidão dos últimos instantes dum afogado. Sem estas jangadas humanas, que geograficamente são ilhas, somos todos náufragos, fragmentos de vida frágil num meio hostil, num elemento que só coletivamente conseguimos fazer nosso. Que tristes deviam ser os Açores quando ainda não tinham gente. Começa a chover quando largamos o cais das Velas. E pergunto-me que tristezas trará ainda o futuro a estas ilhas.
Texto publicado no Jornal O Breves

2 comentários:

gina henrique disse...

Efectivamente a desartificação das ilhas tal como grande parte do interior no continente mostra bem quanto mal os nossos governantes têm feito a este pobre país.
Impossivel não sentir uma imensa tristeza pela destruição da agricultura,das pescas,da industria e consequentemente da saida forçada de muita gente das terras onde certamente gostariam de ter continuado a viver.

Anónimo disse...

Nos governos do Dr. Cavaco subsidiou-se o abate de traineiras, o corte de sobreiros e o arranque de cepas de vinha.

Portugal ia ser a Califórnia da Europa, um paraiso para férias.

Os resultados estão à vista.