sexta-feira, 30 de março de 2012

de todos para os poucos

Os dados da execução do orçamento nos meses de Janeiro e Fevereiro nos Açores são significativos e revelam bem, por um lado, a política de um Governo Regional inteiramente balanceado para a luta eleitoral e, por outro, os valores materiais da recessão em que nos afundamos.

Começando por esta última, as quedas nas receitas recebidas pela Região em termos de IRS (-2,5%) e de contribuições para a segurança social (-25%) são efeitos diretos da redução do valor nominal dos salários e, sobretudo, do aumento do desemprego, uma vez que há cada vez menos trabalhadores a descontar nos Açores.

Também a queda de 12,3% na receita do IVA que recai sobre os vários produtos mostra que consumimos bastante menos e que, logo, as vendas das empresas são também significativamente menores, com os necessários efeitos sobre o emprego que criam e que conseguem manter.

Estes dois números, por si só, mostram de forma clara o rumo insustentável que trilhamos. A paralisação da atividade económica, a destruição de empregos e rendimentos, a redução da receita que aumenta a necessidade do Estado e da Região se financiarem a crédito, aumentando esta dívida que nos esmaga. E ainda nos querem fazer acreditar que a austeridade e os sacrifícios são a saída para a crise?

As verdadeiras consequências desta política, que foi desde a primeira hora defendida e aplicada por PS, PSD e CDS-PP não são estatísticas, são bem reais! São os dramas das famílias asfixiadas para poderem comprar o essencial, os sonhos adiados sine diae de tantos e tantos jovens, a sombra negra da notícia do despedimento ou da não renovação de contrato, a angústia do dia de amanhã, a luta amarga da sobrevivência difícil que cada vez mais açorianos conhecem bem. Por trás dos números há um sofrimento bem real à nossa volta.

Estes números têm um reverso necessário e também ele bem real. São os milhares de milhões de Euros que são desviados do desenvolvimento do país para os cofres dos bancos e das grandes empresas. Um exemplo nacional é a escandaleira das concessões das auto-estradas, cujos contratos foram alterados para incluir a cobrança de portagens. O socialista José Sócrates, assinou um contrato em que os encargos do Estado aumentaram 58 vezes, passando para mais de 10 mil milhões (10.000.000.000€) de Euros a pagar às concessionárias, que pertencem às maiores empresas do país: BES, Mota-Engil, Ferrovial, Grupo Mello, só para mencionar algumas. E, o mais incrível é que estas receberão rendas fixas, isto é: que não variam quer passem por lá muitos automóveis ou nenhum. Com crise ou sem crise, com este negócio nunca serão elas a perder dinheiro. Somos só nós, e às carradas!

Mas também temos exemplos muito parecidos na nossa Região: 1,64 mil milhões de Euros do dinheiro dos açorianos irão, ao longo dos próximos anos, direitinhos para os cofres dos grandes grupos económicos privados responsáveis pelo Hospital de Angra e pelas SCUT’s de São Miguel. E viva a rendosa parceria público-privada!

Estes encargos ajudam a explicar porque é que a despesa pública nos Açores aumentou 30% nos primeiros dois meses deste ano. Mas não chegam. É preciso olhar para as letras miúdas e decifrar a complicada linguagem orçamental para se perceber que a tal coluna chamada “outras transferências”, que aumentou 136%, (mais 62,6 milhões de Euros) nos últimos dois meses, corresponde em boa parte, afinal, aos programas de apoio decididos por despacho, ou às obras para fazer vista que ficam sempre à arbitrariedade dos Secretários, bem longe do escrutínio público, e que tão bons resultados eleitorais sempre trazem.

É tudo uma questão de opções, no fundo. Por exemplo: para aumentar o salário mínimo regional nuns míseros 12 euros por mês, para aumentar a compensação do mau tempo aos pescadores, para aumentar o complemento de reforma, não há dinheiro, reafirma o Governo. Mas para pagar os favores aos amigos do costume e para comprar o voto de quem o quiser vender, nunca falta. E a riqueza que é de todos vai inteira para a mão de poucos. Ganham eles, perdemos nós e sempre foi assim. Mas é mais do que tempo de deixar de ser! A escolha é nossa.
30 Mar 2012

2 comentários:

MILHAFRE disse...

Queira V. Exª fazer o obséquio de registar o surgimento dum novo blogue de temática açoriana, vocacionada para a Defesa dos Açores e do Povo Açoriano.

Cumprimentos,

Azores Forever

Tiago R. disse...

Caríssimos:
Não costumo permiitir que a caixa de comentários deste blogue seja usada para publicitar outros espaços.

No entanto, tendo em conta o valor humorístico da tentativa de ressuscitar a defunta FLA, deixarei passar desta vez.