sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os capitães desconhecidos de Abril

As comemorações do 25 de Abril, especialmente as oficiais, procuram centrar-se sobretudo nos acontecimentos do próprio dia, nos seus eventos e protagonistas, carregando na nota romântica dos jovens heróis generosos que salvaram um Povo de uma ditadura decrépita. Sublinham a importância da conquista das liberdades, da democracia e o fim da guerra. E muito pouco mais.

Nada disto está errado, mas é certamente redutor. Neste tipo de abordagem, de que o filme de Maria de Medeiros, “Capitães de Abril”, é um exemplo acabado, nota-se bem o nosso tradicional gosto pelo épico, pelo episódico, pelo quase acidental, optando pelos protagonistas oficiais, deixando de lado os inúmeros atores anónimos que são quem de facto faz mover os grandes processos históricos. Esta visão estreita do 25 de Abril reduz uma Revolução a uma mera mudança de sistema político e apaga todo o papel que o Povo, no seu conjunto, desempenhou no 24, no 25 mas, sobretudo, no 26 de Abril. 

As transformações mais profundas que o 25 de Abril trouxe à sociedade portuguesa foram despoletadas pela ação do movimento dos capitães, mas nasceram do sonho e da vontade posta em prática por milhões de portugueses. Desses anónimos capitães de Abril e das transformações que trouxeram, pouco se fala.

Esvaziar o 25 de Abril dos seus verdadeiros conteúdos, tirar-lhe tudo aquilo que tem impacto real na nossa vida é contribuir para o tornar apenas mais um feriado pitoresco no nosso calendário, uma data histórica distante da qual recordamos anualmente a estória, mas que não sentimos nem próxima, nem nossa. 

E é nossa, sim, e tem tudo a ver com a vida que sonhámos para este país: A justiça social; A melhoria dos salários; A igualdade de direitos entre homens e mulheres; A criação dos subsídios de férias e de natal (lembram-se deles?); A criação do salário mínimo; A legalização dos sindicatos; O direito à Greve; A licença de parto; A proteção no desemprego; A criação do Serviço Nacional de Saúde; A democratização de todos os níveis do Ensino; As nacionalizações, que permitiram que o Estado voltasse a assumir o papel de condução da nossa economia; A reforma agrária e o fim dos latifúndios; O Poder Local Democrático; A Autonomia das Regiões. Estas foram apenas algumas das transformações que fizeram com que o 25 de Abril tenha sido uma Revolução com letra maiúscula (ainda que inacabada) e não apenas um golpe de estado.

Acima de tudo são transformações que apontam valores e objetivos de fundo que nos unem enquanto sociedade: A dignidade e liberdade da pessoa humana; o direito de todos a realizarem-se pessoal e profissionalmente, a serem felizes; a proteção solidária da sociedade a todos os que enfrentam dificuldades, seja a doença, a velhice ou o desemprego; a construção de um país de progresso e igualdade de oportunidades. 

Olhe-se agora para este Portugal de 2012 e é assustador, senão deprimente, ver quão longe estamos destes valores e destes objetivos. Que é feito do emprego, do salário digno, dos direitos de quem trabalha? Que é feito do apoio social para quem precisa, transformado em esmola miserável pela hipocrisia do assistencialismo? Que é feito do acesso à educação, com propinas cada vez mais pesadas a expulsarem os jovens das Universidades? E, já agora, que é feito do subsídio de natal e de férias? 

A nossa situação atual torna ainda mais urgente relembrar os desconhecidos capitães sonhadores que, sem outras armas que a sua cidadania ativa e a sua vigilância atenta, construíram o Portugal moderno em que nasci. 

Hoje é dia 25 de Abril. Sonhemos então com um futuro melhor do que este presente acabrunhado em que nos encolhemos. Amanhã, 26, lutemos outra vez para tornar esse sonho realidade. 

4 comentários:

MILHAFRE disse...

«Se é para pagar tudo, então é melhor sermos independentes, não acham?»,

in Azores Forever

Saudações Açorianas

Tiago R. disse...

Se formos independentes deixamos de pagar tudo?

Ou ainda estão à espera que o Tio Sam pague a conta?

Anónimo disse...

Não houve uma "capitoa" de Abril?
É porque a revolução fez-se para acabar com a descriminação.

Tiago R. disse...

Tem toda a razão.
Houve muitas.