quinta-feira, 12 de abril de 2012

a verdade e as palavras

Semana sim, semana sim, aterra em São Jorge, de armas e bagagens, acompanhado do necessário cortejo de assessores, mais um importante político, transbordando promessas e sorrisos de confiança, sempre muito à vontade em toda a parte, falando a toda a gente como se os conhecessem e tentando parecer estar aqui desde sempre.

Ele foi Governo Regional em peso (ou seria o estado-maior do PS?), ele foi Secretário da Economia (ou seria candidato socialista?), ele foi Presidente do CDS-PP (ou seria Ministro dos Negócios Estrangeiros?) ele foi Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada (ou seria a candidata do PSD?)... Todos aqui acostaram! É caso para pensar que São Jorge deixou de ser uma ilha isolada, tantas vezes deixada à margem, para assumir finalmente o seu papel de centro geográfico (que o é) do arquipélago dos Açores.

Ou talvez não seja caso para tanto, porque, no fim de contas, o que trouxeram nos seus elegantes trolleys de viagem estas importantes personagens, que sempre aparecem em ano eleitoral mas poucas vezes mais?

Não trouxeram, infelizmente, os empregos que faltam e que empurram tanta gente, tanta gente, novos e velhos, para outras paragens. Não trouxeram, a justa compensação do esforço honrado e do trabalho honesto na terra e no mar, que são, afinal, a única coisa que verdadeiramente cria riqueza. Não trouxeram nem reformas nem pensões que permitissem que quem trabalhou uma vida inteira deixasse de sobreviver com um pé na miséria. Não trouxeram médicos. Não trouxeram enfermeiros. Não trouxeram o direito a não ter de pagar pelo direito à saúde. Não trouxeram nem alívio nem remédio para as freguesias rurais, vazias de tanto sangrar gente. Não trouxeram transportes, marítimos e aéreos, eficazes e acessíveis que permitissem ir ou vir para matar as saudades de quem está longe, trazer aqui os visitantes que faltam e levar daqui o melhor do que por cá se faz.

Trouxeram, isso sim, palavras. Muitas palavras. Bonitas palavras. Daquelas que tanto ouvimos na televisão. Palavras de confiança num futuro que só eles vêm. Palavras que falam de um país estranho, que não conhecemos, onde um povo cada vez mais pobre, sem emprego nem proveito, onde as empresas fechadas e arruinadas, onde as fábricas paradas e os campos ao abandono, onde o Estado desmantelado, repartição a repartição, são, estranhamente, um sinal de progresso e razão de otimismo. Não entendemos bem como, nem porquê, mas parece que tudo corre pelo melhor neste estranho país feito de palavras, de que nos falam os distintos e engravatados visitantes.

Também nos disseram que têm muita pena… Que todos estes problemas que enfrentamos dia a dia, vieram de fora do país ou de fora dos Açores, consoante, mas sempre lá desse reino desconhecido chamado crise internacional, que deu de invadir o mundo. Sobretudo, foram perentórios: a culpa não foi deles! Foi do visitante da semana anterior ou do da semana seguinte, conforme. A culpa da crise é uma rapariga feia que, coitada, há-de morrer solteira e sem pretendentes.

Ao ouvi-los até parece que Portugal, os Açores e São Jorge não foram governados por nenhum dos três partidos cujos responsáveis agora tanto nos visitam. Até parece que não foram justamente estes os que assinaram por baixo da entrega do povo e do país aos credores, para pagar uma dívida que, afinal, também foram eles mesmos que criaram. Até parece que tudo vai bem neste país e nesta ilha. E se calhar até vai mesmo, só que para eles e não para o comum dos portugueses…

É mais do que tempo de deixarmos de nos encantar com estas fábulas e pensarmos bem, pela nossa própria cabeça, onde é que está o nosso interesse e onde é que está o deles, porque o que os distintos visitantes, no meio de tantas palavras, se esqueceram de trazer foi a verdade!

Texto publicado no Jornal O Breves

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