sexta-feira, 11 de maio de 2012

o mar das banalidades

Andamos todos já com os ouvidos um bocado cheios de ouvir falar sobre o mar e sobre a sua importância estratégica para o desenvolvimento dos Açores e de Portugal no seu conjunto.

Da extrema-direita caritativa que por cá temos, à extrema-esquerda bem-educada que gostava de cá chegar; do Presidente da República ao Governo e a todas as bancadas da oposição chegou uma súbita febre marinheira de, por tudo e por nada e em todas as questões, meter-se mar adentro com palavras sonantes cheias de visão de futuro.

Entenda-se: não desvalorizo os problemas da política marítima e a sua importância. Mas… foi só agora que estes responsáveis políticos repararam naquela coisa molhada e azul que cerca as nossas ilhas por todos os lados? Nunca tinham notado que o que compram no supermercado lhes chega por navio e que as nossas exportações nesse mesmo navio saem para outras paragens? Que é por aí e por causa desse mesmo mar que os turistas aportam às nossas costas? Não me digam que só agora perceberam que há para aí barcos – de outros pavilhões que não o nosso, claro – que enchem porões de ouro em forma de peixe?

Nem é que não goste de ouvir as frases inspiradoras sobre o nosso futuro brilhante de potência marítima, mas olho à volta e não percebo. Não percebo como é que reduzimos a nossa frota, deixando para outros as abundantes e rendosas capturas que ainda se vão fazendo, por cá e no longínquo, e entregando a gestão desse nosso futuro brilhante aos burocratas de Bruxelas e aos lóbis que os controlam. Mas, entretanto, cada vez mais diminuto se vai tornando o rendimento dos (cada vez mais raros) pescadores profissionais que, apesar de agora terem de pagar contribuições para a segurança social como se fossem grandes armadores, nem a miséria da compensação pelo mau tempo têm direito a receber a tempo e horas.

Não consigo perceber como é que agora, de repente, nos viramos para o mar depois de tantos anos de olhos postos só no continente europeu, destruindo a construção naval e desmantelando a capacidade mercante.

Também não entendo como é que uma potência marítima em ascensão, como somos nas palavras destes políticos não tem, nem vai ter tão cedo, um mínimo de meios de fiscalização no mar, deixando, e acontece, os desconsolados polícias marítimos a observar de terra os infratores tranquilamente impunes.

Não consigo entender como é que valorizamos e protegemos toda esta riqueza, quando empurramos para o estrangeiro os nossos melhores cientistas, mantendo-os em precariedade perpétua, bolsa atrás de bolsa até aos 60 anos de idade, mas recebendo muito menos do que receberiam, aqui ao lado, no resto da Europa.

Não faz grande sentido – ou mesmo sentido nenhum – que afinal a vocação marítima dos Açores seja travada, ou taxada pesadamente, porque o Instituto dos Transportes Marítimos, que tem a competência para certificar embarcações, não tem uma delegação nos Açores e qualquer licença implica demoras, despesas e deslocações de técnicos, tudo pago a peso de ouro, já se sabe.

Mas há muitos mais paradoxos nesta grande região marítima. Então, não é que em vez de servir para incentivar o turismo e a atividades turístico-marítimas, a SATA, afinal, aproveita para cobrar mais uma taxa extra a quem quiser transportar material de mergulho com menos de 20 quilos?

Não. Por mais que tente, não percebo. A menos que seja outro o mar de que falam esses empolgados responsáveis. Talvez não falem deste Mar dos Açores, que há tanto tempo nos alimenta e nos une, mas sim de um grande Mar de Banalidades para nos distrair.

Texto publicado no Jornal Incentivo

11 Maio 2012

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