quinta-feira, 10 de maio de 2012

os três da troika

Não alegra, mas sempre vai servindo para distrair, a música pré-eleitoral que os candidatos dos três partidos da troika cá nos Açores já nos vão cantando diariamente.

O animado trio, compõe-se de Berta Cabral: agarrada a uma desatinada concertina, que ora acerta ora afina; Vasco Cordeiro: bufando num antiquado bombardino, lembrando as glórias do passado para não ter de falar na falta de soluções para o futuro; e, ainda, Artur Lima encarniçando-se num cavaquinho que julga ser um violão.

Em qualquer esquina ou auditório das nossas ilhas se juntam e atacam com ganas o seu variado repertório, para ver se conseguem arranjar público, até porque anda cada vez mais difícil isto de fazer as pessoas esquecer os seus problemas reais, que andam cada vez piores, e pô-las a dançar ao som da mesma música de sempre.

Arrancam às vezes com o seu êxito mais recente, que se chama “Berta estás à janela” de 4 horas a que ficou reduzida a RTP Açores, uma canção cheia de lirismo, mas que deixa por explicar como é que é pela mão de um Governo do PSD, que se anda sempre a pôr em bicos de pés, autoproclamando-se como “pai da Autonomia”, que voltamos ao tempo da outra senhora em termos de televisão no nosso arquipélago. Ainda há poucos dias atrás, no Congresso do PSD Açores, Berta Cabral recebeu de braços abertos e declarou apoio e fidelidade ao Primeiro-Ministro do Governo que vai destruir a RTP Açores, despedindo ainda não se sabe quantos dos seus profissionais e deixando na obscuridade as notícias das ilhas mais pequenas, que de certeza não vão caber no apertado telejornal de 20 minutos. Programas de tanta importância e audiência como o “Bom Dia Açores” são para acabar, demonstrando que o PSD e o seu Governo não percebem nada, nem querem perceber, da realidade das nossas ilhas. Por isso é que, ainda que com uns acordes triunfantes, as melodias de Berta Cabral soam sempre a falso.

Outras vezes é a jovem promessa, Vasco Cordeiro, a chegar-se à frente para entoar, carregado de saudosismo, o velho sucesso político: “oh tempo, volta p’ra trás”, para o tempo em que o PS ainda estava no Governo da República e havia fundos europeus e nacionais para gastar à tripa forra em almoços, jantares e campanhas eleitorais bem pagas e melhor servidas. Para o PS, agora, a vida está mais difícil. Começa a perceber-se o tamanho dos buracos que deixa nas contas regionais, na saúde, nas estradas, nos apoios sociais, criteriosamente distribuídos consoantes as prioridades eleitorais, nos subsídios sempre à mão para dar uma força a um ou outro “bom rapaz” socialista. Nós estranhamos estas dívidas todas porque, por cá, não se tem visto assim tanto investimento. Pois… mas se calhar tem sido sobretudo daquele tipo de investimento que não convém que se veja… Por isso, bem puxa Vasco Cordeiro pelo seu famoso vozeirão, apesar de saber muito bem que consegue arrancar cada vez menos aplausos.

Por último, o cavaquinho de Artur Lima entoa um fadinho choroso, “coitadinhos dos reformados” a quem o ministro do CDS congelou as reformas, cortou os apoios e tirou as isenções nos medicamentos, mas tem muita pena deles. A troika mandou, o CDS queria poleiro e tinha de obedecer. Mas repete que tem muita pena. Com a responsabilidade de ser apenas eterno candidato a estrela do espetáculo, Artur Lima é o mais encarniçado dos três parceiros, cantando sempre e em toda a parte, quer lhe peçam que cante, quer lhe supliquem que se cale por um minuto só, esperando que a persistência esganada sempre consiga trazer mais um ou dois aplausos numa plateia meio vazia.

Conhecemos bem – de ginjeira! – esta música que nos cantam de quatro em quatro anos. Mas, a verdade, é que apesar do entusiasmo dos três executantes, a sua música soa-nos sempre exatamente ao mesmo e faz-nos cada vez menos felizes. Não será já mais do que tempo de mudar de músicas e, necessariamente, de artistas?

Texto publicado no Jornal O Breves

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