sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mãos ao alto! Isto é um pacote de ajuda financeira!

Não se trata de uma notícia exatamente nova, mas a resposta do Ministério das Finanças a uma pergunta do Deputado do PCP, Honório Novo, durante um debate na Assembleia da República, deixou claro mais uma vez, preto no branco, afinal quanto é que Portugal vai ter de pagar pela preciosa “ajuda” da troika.

Está sentado, caro leitor? É que eu, pessoalmente, não consigo evitar uma certa fraqueza de pernas quando leio que, pelos 78 mil milhões que nos emprestaram, vamos ter de pagar qualquer coisa como 34,4 mil milhões de Euros em juros e comissões.

É mais de 44% do empréstimo que vai ser desperdiçado em juros! Uma taxa que faz Vito Corleone e Al Capone revolverem-se de inveja nas suas tumbas porque - coitados - ao contrário do FMI, nunca se atreveram a cobrar mais do que 25% de juros às suas vítimas!

Este encargo incomportável – que PS, PSD e CDS aceitaram sem sequer terem estudado as outras alternativas e possibilidades de empréstimo, que de fato existiam – tem sangrado os parcos recursos nacionais. Só em 2011 foram-se 6,2 mil milhões de euros em juros e encargos. Dinheiro que, se tivesse sido investido pelo Estado para desenvolver a nossa economia, ajudaria decisivamente a relançar a atividade das empresas, a criar emprego e a combater o empobrecimento generalizado dos portugueses.

E, afinal, em nome de quê suportamos este roubo da riqueza nacional? Dizem-nos os supostos especialistas e comentadores encartados que foi para “recapitalizar a economia” o que, trocado em miúdos, quer dizer, parar o aumento do endividamento nacional e disponibilizar dinheiro para permitir às empresas investir e criar emprego e para o estado cumprir os seus compromissos, incluindo salários, pensões e prestações sociais.

Mas a verdade tem que ser outra porque, afinal, nem um destes objetivos está ser cumprido. O endividamento nacional não para de crescer, apesar das pesadas amortizações, tendo subido para 184 mil milhões de euros, mais 23 mil milhões que em 2010.

O crédito às empresas tem vindo a diminuir continuamente e, de acordo com dados divulgados pelo Banco de Portugal, o valor do crédito total em Portugal tem diminuído todos os meses. Entre Maio e Novembro de 2011, o crédito às empresas não financeiras e às famílias, diminuiu de 117,251 milhões de euros para 115,943 milhões de euros, ou seja, menos 1,308 milhões de euros, o que demonstra bem como o investimento e a criação de emprego estão paralisados.

Quanto ao emprego e à falta dele, muito se tem falado, mas há dois aspetos, normalmente esquecidos, que são verdadeiramente chocantes. Primeiro, no plano económico: cada trabalhador empregado produz riqueza para o país. Em 2011, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, cada trabalhador produziu em média 35,279 euros. Se multiplicarmos este valor pelos cerca de um milhão de desempregados efetivos, obtêm-se aproximadamente 37,1 mil milhões de euros perdidos, o que corresponde a mais de 21% da riqueza criada nesse ano. Desemprego também é desperdício; Segundo, no plano social e humano: De acordo com dados da Segurança Social, no final de Dezembro de 2011, só estavam a receber subsídio de desemprego 317 mil desempregados, o que corresponde a apenas 27% do tal milhão de portugueses sem trabalho, dos restantes quase 700 mil, imaginam-se a miséria e as dificuldades…

Poder-se-ia argumentar que estes sacrifícios tinham valido a pena porque, enfim, sempre se endireitaram as contas do Estado e se reduziu o défice. Mas – que desdita a nossa! – afinal o próprio défice do Estado atingiu os 7,4% no primeiro trimestre deste ano, ficando bem acima dos 4,5% prometidos pelo Senhor Sinistro das Finanças – perdão – Ministro das Finanças.

A austeridade e a recessão cobram o seu preço: a paralisação da atividade económica e a redução dos rendimentos dos portugueses não para de fazer cair a receita dos impostos, que é a principal fonte de recursos do Estado.

Não restam dúvidas que, a muito breve prazo, vai ser impossível pagar esta generosa “ajuda” e os seus juros de 44%. E por mais que os nossos governantes se esganicem nas declarações otimistas a tentar sossegar descontentamentos e nervosismos bolsistas, a verdade é que Portugal neste rumo não passa de uma falência adiada.

Os mesmos PS, PSD e CDS que primeiro nos arruinaram, para a seguir assinarem o acordo-de-podem-levar-o-resto com a troika, insistem em fechar os olhos à realidade do abismo para onde rapidamente caminhamos enquanto entregam o nosso ouro ao bandido. Até quando vamos continuar a permiti-lo?

Texto publicado no Jornal Incentivo

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