sexta-feira, 8 de junho de 2012

tripolaridade

A história dos Açores foi determinada, desde os seus primórdios, pelas respostas que foram sendo encontradas para dois problemas fundamentais: A procura de produtos para exportação – para compensar as necessárias importações – e a forma da organização dos centros de poder – de forma a agilizar os processos e as decisões, tendo em conta as distâncias entre as ilhas. Os nossos problemas contemporâneos, para lá dos que advêm diretamente da realidade geral portuguesa, continuam a relacionar-se intimamente com as respostas que são dadas, nos Açores, a estas duas questões.

As distâncias e proximidades entre as diversas ilhas e as relações económicas, sociais e culturais fizeram emergir, desde cedo na nossa história, três polos político-económicos estruturantes: Horta, Angra e Ponta Delgada. Pesem embora as contradições, competições e antagonismos entre os três, bem como os períodos, experiências e tentativas por parte do Poder Central de a contrariar ou anular, acabou por ser a forma tripolar que se afirmou como a resposta mais eficaz e assertiva à questão da organização do território. A única que conseguiu, de forma relativamente eficaz, resistir às tendências centrípetas de concentração de gentes e recursos em ilhas maiores e mais próximas do continente.

Nesse sentido, a existência dos três polos, com as respetivas áreas de influência – ainda que nunca com um peso ou dimensão igual –, permitiu que houvesse uma maior descentralização da riqueza e dos poderes nos Açores sendo um fator decisivo para a coesão regional.

A afirmação moderna da visão tripolar dos Açores decorre naturalmente do novo regime conquistado a 25 de Abril, e relaciona-se intimamente com a natureza profundamente democrática da Autonomia. A necessidade do desenvolvimento equilibrado e harmónico e a proximidade entre os cidadãos e os centros de decisão pública são o cerne da ideia de tripolaridade e estão na raiz do projeto democrático açoriano.

Apesar da sua importância e de todos os atores políticos o defenderem publicamente, o desenvolvimento tripolar dos Açores está em séria decadência. Assistimos a uma lenta e inexorável perda de poder e influência de Angra e Horta, em benefício de Ponta Delgada.

A concentração de investimentos socorre-se do argumento de que, para se ser competitivo, é preciso ter mercados e produções com escala, incapaz que é de perceber as múltiplas complementaridades de que foi feita, no passado recente e longínquo, a riqueza açoriana. Foi sempre através de uma soma variável de produções e atividades que os açorianos conseguiram sobreviver à dureza da vida nas ilhas.

Assim, enterram-se centenas de milhões de euros nas SCUT’s de São Miguel, mas fica para um futuro incerto e adiado a construção da variante à cidade da Horta; Constrói-se, nas portas do mar, o maior elefante branco da história açoriana, enquanto se deixa por ampliar a nossa marina; amplia-se enormemente a oferta de voos para Ponta Delgada e concentra-se aí a frota da SATA, e atrasa-se criminosamente a aquisição e entrada em funcionamento de navios que potenciem devidamente a proximidade entre as ilhas do Grupo Central; só para dar alguns exemplos.

Ainda que publicamente o negue, a obra de Carlos César fala por si. A atual maioria regional é o principal agente deste processo de concentração, que também tem o seu reflexo no plano político. Assim foi com a Presidência da Assembleia Legislativa Regional, que deixou de ser exercida por um faialense e, depois, com a perda da presidência do grupo parlamentar da maioria. A perda para o Faial destes dois cargos, plenos de carga simbólica, são a demonstração clara da redução da importância política da nossa ilha, às mãos do Partido Socialista.

O PSD e o CDS, não dispondo do poder na Região, também mostram a sua conceção autoritária e centralista e, no Governo da República, espezinham a Autonomia, destroem a RTP Açores (seguindo a máxima que ouvi de alguém bem mais sábio do que eu que “um povo bem mandado não se quer muito informado”), violam os nossos direitos enquanto Região Autónoma e recusam os investimentos essenciais que competem ao Governo Central e a mais ninguém.

O processo de concentração dos Açores passa pela destruição da tripolaridade e, necessariamente, pela redução do peso económico e político do Faial. A questão do desenvolvimento desta ilha e da sua articulação com as restantes ilhas do Triângulo são um problema de dimensão regional e remetem para as perguntas mais fundamentais: Que tipo de Região é que queremos ter? Uma grande cidade com oito parques naturais, semi-desabitados, adjacentes? Ou um arquipélago multipolar, com diversidade de oferta e capacidade de atração em cada uma das suas parcelas?

No passado, remoto e recente, os faialenses tiveram a coragem de afrontar todos os poderes externos que ameaçassem os seus direitos e o seu futuro e, com isso, em muito momentos souberam dar um contributo decisivo para a descentralização, para a democracia e para a coesão dos Açores. Precisamos outra vez, com toda a urgência no contexto atual, dessa velha e boa insubmissão faialense e de voltarmos a calar menos e a comer mais. Sobretudo penso que não podemos cometer o erro de, nas próximas eleições, premiar os que nos prejudicam.

Texto publicado no Jornal Incentivo
8 Jun 2012

1 comentário:

cefariazores disse...

Na generalidade concordo com o teor do artigo embore ele envolva 2 assuntos diferentes:
1º o da tripolaridade, onde se nota que a estratégia da sua destruição utilizou inclusive técnicas subversivas, pois o governo de César e o PS tudo têm feito para não haver consistência do triângulo, pois tal reforçaria o peso de centralidade da Horta, foram lançadas rivalidades e dificuldades de ligações nesta áres, muitas vezes tedno como barriga de aluger estruturas em angra, de forma a esta cidade não se sentir renegada por Ponta Delgada... depois será a sua vez.
o 2.º tem a ver com o centralismo a partir de Lisboa, efetivamente, desde o início desta autonomia havia como inimigo o poder central, quer fosse laranja ou rosa, o PSD-A sempre viveu em luta com os seu partido em Lisboa, o PS disfarçou-se de autonomias mais oportunisticamente para favorecer César do que por convicção, pois nem César fora um autonomista contra Lisboa até 1996.